sexta-feira, 29 de junho de 2012

CULTURA E ARTE SOB ENCOMENDA?



Há um ensinamento universal o qual afirma que estamos vivendo no lugar certo, na hora certa, ao lado de quem mais precisamos, e temos a nossa disposição as melhores condições que merecemos para viver. 
A máxima certamente se aplica aos artistas. Por exemplo, Raul Seixas, Cazuza, e Renato Russo, só pra citar alguns, vieram e viveram na época certa e no lugar certo para realizar o que se propunham. Hoje, não teriam vez e voz. Seriam taxados de politicamente incorretos pelos puritanos que se arrogam defensores da ética e dos valores morais e acreditam falar em nome de todos. Porque estes cometem a injustiça, a heresia de exigirem dos artistas virtudes que eles, até possuem, mas dispensam em nome da arte. Quais sejam: sensatez, lucidez, coerência, entre outras que fazem o gozo dos que se pretendem paladinos da verdade, da moralidade e, portanto, perfeitos ou algo próximo disso.
Por esse motivo, muito dificilmente se verá de novo nas paradas de sucesso composições musicais como as desses senhores citados acima. Não porque não existem seus seguidores. É que estes jamais terão espaço na mídia. Ocupada, hoje, apenas pelos bonzinhos. Pelos superficiais. Descartáveis. Ou seja, aqueles que, em nome da realização de um sonho pessoal, abraçam os conceitos de cultura e arte impostos através da lavagem cerebral levada a cabo por aqueles espertalhões que atualmente determinam os rumos da cultura e das artes.
Espere um momento! – dirá você, leitor – Mas as músicas de Raulzito, Russo e Cazuza ainda fazem sucesso. Claro, tais sucessos que sobrevivem ao tempo, são reverberações de quem as viveu intensamente em sua juventude, e agora se sentem orgulhosos de mostrá-las aos filhos, sobrinhos, netos, alunos. E afinal de contas, o que é bom se estabelece independentemente da vontade e do interesse dos espertalhões. Mas, à medida que as novas gerações vão introduzindo novos hábitos, também as coisas que marcaram época devido a sua boa qualidade artística e capacidade de penetração no coração e na mente das massas, vão caindo no esquecimento porque cada vez vão ficando mais distante no tempo.
Outro ensinamento diz que os gênios, a exemplo de qualquer outro espírito, vão e voltam à vida humana. Porque muito dificilmente eles conseguiriam vivendo tão intensamente em tão pouco tempo, realizar sua obra em apenas uma existência.  E eu poderia citar como exemplo Modigliani, que, antes de pintor, fora poeta. Mas sobre isso escreverei em outra ocasião.
Vivemos um tempo em que os medianos se destacam em todas as áreas de atuação humana. Observe-se o que acontece com o futebol brasileiro. De repente, o sempre farto celeiro de craques tupiniquim caiu numa secura desgraçada. A ponto de um jogador talentoso, mas não genial, ser considerado dessa forma. Trata-se de Neymar. Qual outro? Difícil.
Mas existe todo um sistema que faz do futebol fonte de riqueza para alguns cuja tarefa é produzir ídolos e viver à custa dos quais devemos admitir, se estabeleceram por sua competência. São eles: publicitários, empresários, técnicos, jornalistas que, para continuar mantendo os seus status quo e todas as benesses que o futebol de alto rendimento lhes propicia dependem da matéria-prima do futebol que é o jogador, o craque. Por sinal, em falta no mercado brasileiro. Mas o sistema que envolve milhões de dólares, reais e euros e interesses sociais, políticos, econômicos e até culturais não pode parar. Então, criam-se craques. Mesmo que não sejam.
É por isso que hoje, acha-se futebol na tevê em qualquer canal e a cada 5 minutos. É por isso que, ao ligar o rádio, encontram-se absurdos como “ai se eu te pego” e “tchu-tchá-tchá”, algo que faria o finado Batman se revirar na tumba por tal avalanche de onomatopéias. Mas isso vende. Enriquece meia dúzia de espertalhões. Porque satisfaz e convence um mercado cada vez maior e cada vez mais burro e, portanto, cada vez menos exigente, e cada vez mais flexível, sujeito a impressões e convencimentos que demandam o menor esforço e custo, e que, em breve tempo, não saberá distinguir a diferença entre uma salsicha e uma lingüiça.
E isso tudo acontece caro leitor por opção e interesse e aos olhos daqueles que mais deveriam lutar pela valorização e preservação da boa arte e da alta cultura em nosso país: seus governantes.
Chegará o tempo em que, na falta de papel higiênico se usarão páginas de livros para limpar a sujeira produzida por hambúrgueres, biscoitos e batatas-fritas. Se é que esse tempo já não chegou.
A grande sacada dos governos ditatoriais, sanguessugas e dominadores, que se disfarçam atrás da máscara da democracia que tudo permite e a todos convence, é a engenharia social, através da qual se criam mecanismos para se obter, com a conivência de alguns traidores da liberdade de expressão, o controle da grande mídia e, num segundo momento, o controle da cultura, este, mais difícil, porque exige primeiro, o emburrecimento das massas, algo que se consegue com a destruição do ensino público, com a propagação e a exaltação de uma arte desprovida de boa qualidade produzida por uma gente desprovida de talento, mas que faz muito bem feitinho o papel que interessa a esses governantes. E, melhor para estes, cobram quase nada pelo precioso serviço.
Seria necessário, porém dar uma aparência de legalidade a essa ação criminosa que se comete contra a nação brasileira. E uma forma de se obtê-lo seria através da criação do Sistema Nacional de Cultura que, em tese, teria como finalidade o aperfeiçoamento na gestão de políticas públicas no setor da cultura, com a participação colaborativa entre União, Estados e municípios. Ao menos foi isso que a Câmara dos Deputados aprovou em segundo turno, em Brasília, no último dia 26, através da PEC (Proposta de Emenda à Constituição) da Cultura.
Não seria excesso de zelo desconfiar dos reais interesses que motivariam a boa intenção que o texto de autoria do deputado Paulo Pimenta (PT-RS) apresenta. Seriam, em princípio, estritamente político-partidários e teriam como único objetivo, contribuir para a manutenção do poder ao infinito por parte daqueles que atualmente o detém?
O tão almejado controle da informação, que, por sinal já se faz, através da censura que a grande mídia impõe a determinados segmentos culturais, sociais e políticos que não se afinam com o atual Poder, é acompanhado pelo controle da Cultura, importantíssimo para se reescrever a História recente do país, para determinar a cultura e a arte produzida e difundida que visariam incutir na mente do cidadão brasileiro, a necessidade de continuar acreditando que o melhor ainda está por vir. Que é preciso ainda mais tempo para concluir a grande obra de redenção social a qual possui direito os brasileiros com menos recursos financeiros. Uma redenção que jamais se completa. E provavelmente jamais chegará porque permite àqueles que detêm o poder nele permanecer, sob o pretexto de serem os únicos confiáveis, capazes e dispostos para realizá-la do começo ao fim.
Todavia, para se manter no Poder, sem melindres e sem receios é preciso, assim entendem os que o Poder detém no momento, ter sob controle a grande mídia e a cultura nacional.  Para ilustrar palidamente o que aqui se apresenta como argumento, basta observar o conteúdo dramático das tele-novelas, que, cada vez mais, exibem como procedimento normal de conduta a exaltação ao banditismo, as práticas homossexuais, a pedofilia e o consumo de drogas. Basta também ouvir as programações das rádios de frequência AM e FM, aquelas, evidentemente que ainda se ocupam de veicularem músicas.
Para esse cenário de degradação artística e, portanto, também cultural, não há solução a curto ou médio prazo, porque a educação pública no país está sucateada, a rês do chão. E as famílias, em sua maioria, não se preocupam de buscarem um adicional de conhecimento e nem de transmitirem às novas gerações sua bagagem de valores culturais e morais adquiridos com esforço no passado.
As produções artísticas receberem incentivo de pessoas físicas ou jurídicas é uma coisa. Agora, quando financiadas pelo Estado, deste se tornam escravas, e por efeito dominó, tornam os artistas escravos dos interesses do Estado. Pois que arte se imagina possa ser concebida neste caso, que não seja aquela que vise disseminar e incutir na sociedade a ideologia, a crença, os hábitos, e por fim os símbolos do partido governante. Produzir-se-á, sem dúvida muitos Maiakósvski’s. Apenas se fará torcida para que os nossos não terminem como o original.
A arte e a cultura deveriam em tese nascer da liberdade de expressão do povo e não dos interesses de governos sejam eles quais forem, que se apropriam da arte e da cultura para, através dos ingênuos que dela participam continuarem a exercer o seu poder sob as suas mais diversas faces ou disfarces. Politizar a cultura é diminuí-la em importância; é confiná-la a um espaço parecido com aquele onde algumas pessoas vêem o sol nascer quadrado. Quando artistas e intelectuais aceitam dinheiro de governos, sejam quais forem, tornam-se como as rameiras que se deitam com qualquer um disposto a lhe pagar um prato de sopa no inverno. Ser pobre não serve de justificativa para deixar de fazer arte e promover cultura. As pessoas que agem assim são as mesmas que reclamam de tudo e que dizem o que fariam se tivessem isso ou aquilo porque em verdade nada fazem e nada querem senão holofote e a presença de bajuladores a lhe beijarem a mão. Quando, na verdade, os que fazem arte e promovem cultura, simplesmente se utilizam dos recursos dos quais dispõem.

Acreditar na boa fé dessas pessoas não é exagero. Mas elas desconhecem que estão sendo enganadas, usadas. E se acaso, tem consciência disso, não admitem porque tem medo de serem preteridas ou simplesmente defenestradas desse sistema que, a falta de esperança ou impossibilidade de realização a levam a crer único.
Arte se faz por idealismo, vocação, amor e competência. Ou não se faz. Na vida é assim mesmo: uns nasceram para aplaudir e outros para serem aplaudidos. O problema é que até que a realidade se imponha soberana e por vezes de modo cruel, todos se acreditam merecedores de aplausos.
A cultura e a arte são, por natureza, expressões espontâneas da sociedade e através das quais as pessoas deixam fluir o seu espírito lúdico, sua fantasia, sua necessidade de auto-afirmação, seu questionamento, seu contraditório, sua vontade de reivindicar o que acreditam ser correto e justo, e de protestar contra aquilo que consideram errado. E lançar ideias. Sugerir novas possibilidades. Vislumbrar outros caminhos. Buscar novas respostas, novos horizontes. Mas isso, em nenhum momento da História, nem mesmo à época do Iluminismo, do Romantismo, do Renascimento, do Modernismo, por exemplo, fora bem visto e aceito e interessante aos governantes que sempre buscaram uma de duas alternativas: eliminar ou cooptar tais inconvenientes. Alguns, dentre estes, prefere sucumbir a abdicar de seus ideais. Outros se vendem por 30 moedas. Às vezes, por até menos.
*Publicado no site Guia Rio Claro:http://www.guiarioclaro.com.br/materia.htm?serial=151006928

*E também no site Autores: http://www.autores.com.br/2012070155191/opiniao/diversas/cultura-e-arte-sob-encomenda.html

 

segunda-feira, 18 de junho de 2012

ESPERANÇA, VOCÊ A POSSUI?


Leia o escritor jamais lido, cuja obra, mofa na prateleira da biblioteca ou na estante do intelectual esnobe. Ouça a música esquecida da qual ninguém mais se lembra. Aprecie a tela, a escultura, eternizada na sala do museu, e que todos admiram porque acreditam compreende-la. Mas, em verdade, não sabem porque e nem para quem foram concebidas.
Tome aquele vinho do qual todos falam de boca cheia e a maioria detesta, embora não admita.
Descubra o pensamento do filósofo politicamente incorreto, descubra na verdade dele, a sua, e talvez, caminhem juntos.
Duvide daquele que todos, ou quase todos acreditam. Procure imagina-lo de outro modo, e talvez, perceba, com um pouco de sorte que, feito Monalisa, ele de fato, não é, o que parece ser.
Penetre a natureza da criação, e a da sua mente. Percorra os tais caminhos do velho mundo, que se constitui sua vida, construídos à custa de dor, lágrimas, esforço, repetições, partições, em nome daquilo que você encontra quando se olha no espelho: a sua individualidade.
Faça tudo diferente do que você tem feito até aqui. Seja outro. Reinvente-se. Redescubra-se. Refaça-se.
Talvez, então, compreenderá que há duas formas de se aceitar o inevitável, que é a finitude da vida humana. Uma, quando se fecha os olhos para esta realidade efêmera de cinco sentidos. Outra, quando se perde a esperança.
Aprenda vez por todas enxergar com os olhos da alma, quando estas luzes te faltarem. E se conseguir, terá finalmente aprendido a caminhar na escuridão que são os teus dias de aprendizado. Em algum momento, você se dará conta que terá finalmente percorrido o imenso corredor escuro, e, ao final, encontrará sobre a tua cabeça a Luz verdadeira, que jamais te faltou, porque vem do Alto.
E essa é a diferença entre aqueles que já se encontram esclarecidos, iluminados, iniciados, e os que ainda estão a caminho.
Lembre-se que você tem o milagre da vida em suas mãos. E dessa finitude da vida humana você pode ir além. Porque existe algo que reacende a chama que ilumina o teu caminho. Aquece o teu coração. A chama que profetas e poetas, sempre eles, chamam de: Esperança.
*Publicado no site Guia Rio Claro: http://www.guiarioclaro.com.br/materia.htm?serial=151006518 e no Jornal Aquarius, edição No.103, Julho/2012.

sábado, 2 de junho de 2012

1991: FAZ TEMPO


Nunca passou pelas nossas cabeças que enterraríamos nossos pais e nossos filhos. A possibilidade de ficarmos velhos era zero em 10. Tínhamos 20 anos. O céu era sempre azul nas tardes de sábado.
Deixar pra depois, era apenas questão de escolha. Porque haveria o depois, claro. Claro que haveria.
O que era cansaço nós não sabíamos. E dor, era coisa que só os outros é que tinham. Cuidem-se eles.  Tínhamos 20 anos.
Gastar dinheiro? Sem problema. Ele haveria de surgir na carteira a cada começo de mês. E como resultado de nenhum esforço. Explicação: bondade dos pais. Da mamãe, principalmente.
Sonhos havia todos, comprados a preço módico na prateleira da realidade, que, já naquele tempo, trazia novidades todos os dias, a cada instante.
Sonhos... E eram todos possíveis. Tínhamos 20 anos. Lembro-me de um disco, que, feito tantos outros, deixei de comprar: Nevermind.
Mas o melhor de tudo: tínhamos mais cabelos. E nenhuma saliência pélvica. Muito menos, mau hálito, que vem geralmente, por esses dias de meu deus, com a falta de alimento no estômago. Não temos mais 20 anos.
Mas quando tínhamos, não sabíamos nada sobre a vida. Mas falávamos sobre ela sem receio, porque a vida, não nos causava medo. Ora, que porra de vida o quê!
Os problemas se resolviam por si só, com o tempo, aquele nosso fiel aliado.
Ele partiu o tempo. Não disse adeus. E de minha parte, eu nem sei dizer quando isso aconteceu.
Danado o tempo, levou consigo a minha namorada, o único amor de minha vida. Roubou-a de mim. Ela se chamava esperança.
Sábado à tarde. E a diversão passou a ser vasculhar lembranças que nos façam sorrir. Pena que isso dura pouco. E sempre acaba em lágrimas. Contidas, é claro.
Alguns ainda compõem ao violão. Outros, feito eu, escrevem. E outros até deixaram de fumar. Enquanto que outros ainda – pode uma coisa dessas? – começaram a beber. Claro, eles não têm mais 20 anos.
Mas eu bem que podia tentar outra coisa além de escrever. Aumentei a dose do maldito remédio nos últimos anos, como meio de sobrevivência, mas a coisa, eu acho, fez efeito contrário. Não funciona mais.
Engraçado que quando começou a rolar “Smells like teen spirit” nas rádios, lá pelas bandólas de 1991, parecia que a gente já tinha ouvido aquilo antes em algum lugar.
Agora que Robin Gibb conseguiu ir para o saco, e olha que ele ensaiou um bocado de vezes a façanha, o Kid Vinil nos faz lembrar com bastante propriedade que o chapado Kurt Cobain (Umbral o tenha em bom lugar) “sefú” aos 27, e deve ter adorado a experiência.
Esse pessoal é mesmo assim. Prefere viver pouco, mas intensamente. E qual o problema, né mesmo? Pra nós, reles mortais, nenhum. Pra eles, heróis da resistência, uma estadia mais prolongada no colo do capeta. Afinal, para cada um, conforme os seus atos.
1991 faz tempinho, mas se mudaram os cenários, os artistas, famosos ou não, continuam os mesmos, ainda que se travistam de outros personagens, seus corações inquietos e suas mentes perturbadas exalam arte e o perfume da morte. E tudo geralmente termina em algumas linhas eternizadas em um papel. Mamãe filosofia não explica. E eu também não. Não tenho mais 20 anos. E quem tiver que se habilite.

*Publicado no Jornal Regional, edição de 02/6/2012, à pág. 6.
*Publicado no Jornal Aquarius, edição de Junho/2012, à pág. 3.