sábado, 2 de junho de 2012

1991: FAZ TEMPO


Nunca passou pelas nossas cabeças que enterraríamos nossos pais e nossos filhos. A possibilidade de ficarmos velhos era zero em 10. Tínhamos 20 anos. O céu era sempre azul nas tardes de sábado.
Deixar pra depois, era apenas questão de escolha. Porque haveria o depois, claro. Claro que haveria.
O que era cansaço nós não sabíamos. E dor, era coisa que só os outros é que tinham. Cuidem-se eles.  Tínhamos 20 anos.
Gastar dinheiro? Sem problema. Ele haveria de surgir na carteira a cada começo de mês. E como resultado de nenhum esforço. Explicação: bondade dos pais. Da mamãe, principalmente.
Sonhos havia todos, comprados a preço módico na prateleira da realidade, que, já naquele tempo, trazia novidades todos os dias, a cada instante.
Sonhos... E eram todos possíveis. Tínhamos 20 anos. Lembro-me de um disco, que, feito tantos outros, deixei de comprar: Nevermind.
Mas o melhor de tudo: tínhamos mais cabelos. E nenhuma saliência pélvica. Muito menos, mau hálito, que vem geralmente, por esses dias de meu deus, com a falta de alimento no estômago. Não temos mais 20 anos.
Mas quando tínhamos, não sabíamos nada sobre a vida. Mas falávamos sobre ela sem receio, porque a vida, não nos causava medo. Ora, que porra de vida o quê!
Os problemas se resolviam por si só, com o tempo, aquele nosso fiel aliado.
Ele partiu o tempo. Não disse adeus. E de minha parte, eu nem sei dizer quando isso aconteceu.
Danado o tempo, levou consigo a minha namorada, o único amor de minha vida. Roubou-a de mim. Ela se chamava esperança.
Sábado à tarde. E a diversão passou a ser vasculhar lembranças que nos façam sorrir. Pena que isso dura pouco. E sempre acaba em lágrimas. Contidas, é claro.
Alguns ainda compõem ao violão. Outros, feito eu, escrevem. E outros até deixaram de fumar. Enquanto que outros ainda – pode uma coisa dessas? – começaram a beber. Claro, eles não têm mais 20 anos.
Mas eu bem que podia tentar outra coisa além de escrever. Aumentei a dose do maldito remédio nos últimos anos, como meio de sobrevivência, mas a coisa, eu acho, fez efeito contrário. Não funciona mais.
Engraçado que quando começou a rolar “Smells like teen spirit” nas rádios, lá pelas bandólas de 1991, parecia que a gente já tinha ouvido aquilo antes em algum lugar.
Agora que Robin Gibb conseguiu ir para o saco, e olha que ele ensaiou um bocado de vezes a façanha, o Kid Vinil nos faz lembrar com bastante propriedade que o chapado Kurt Cobain (Umbral o tenha em bom lugar) “sefú” aos 27, e deve ter adorado a experiência.
Esse pessoal é mesmo assim. Prefere viver pouco, mas intensamente. E qual o problema, né mesmo? Pra nós, reles mortais, nenhum. Pra eles, heróis da resistência, uma estadia mais prolongada no colo do capeta. Afinal, para cada um, conforme os seus atos.
1991 faz tempinho, mas se mudaram os cenários, os artistas, famosos ou não, continuam os mesmos, ainda que se travistam de outros personagens, seus corações inquietos e suas mentes perturbadas exalam arte e o perfume da morte. E tudo geralmente termina em algumas linhas eternizadas em um papel. Mamãe filosofia não explica. E eu também não. Não tenho mais 20 anos. E quem tiver que se habilite.

*Publicado no Jornal Regional, edição de 02/6/2012, à pág. 6.
*Publicado no Jornal Aquarius, edição de Junho/2012, à pág. 3.

Um comentário:

  1. Uaaalll !!! É isso, não temos mais 20 anos,mas temos o dobro em conhecimento e experiência...Belo Texto como sempre...

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