quarta-feira, 25 de julho de 2012

LER COM OLHOS DA ALMA


Acho que fiz bom negócio. Acho que sim. Afinal, não é todo dia que se consegue um Faulkner, capa dura, meio psicodélica, e onde se lê apenas o título da obra e seu autor por apenas R$6,00.
Confesso, porém, que não foi exatamente uma coisa e nem outra que me convenceram a adquirir o livro. Afinal, Faulkner se deixa levar geralmente por minúcias e parolices, algo que seu desafeto Hemingway dispensava completamente, em busca de uma narrativa, um estilo, digamos, mais vigoroso, honesto e verdadeiro. Mas acontece que uma das atribuições da Literatura, eu creio, é reinventar a realidade. E a tarefa não caberia melhor a outro artífice que não fosse um escritor, que, em breves palavras, pode ser entendido como um sujeito mais ou menos Deus, afinal, o escritor cria e destrói vidas, ambientes, ideias, ações... sonhos. Ele tudo pode, em um mundo que se sabe existir, mas não se vê que não seja com os olhos da imaginação.
Bom, o livro a que me refiro, do finado Faulkner, se trata de Luz em Agosto. E o motivo que me convenceu a adquiri-lo, dias atrás, num sebo da cidade... Bem, o motivo foi a dedicatória, de um tal Osvaldo para um não menos tal Nê, que diz mais ou menos assim: “Temos apenas uma história. Todas os romances e toda a poesia se baseiam na competição incessante entre o bem e o mal em nós mesmos”. E por ai vai. Data de Outubro de 1995.
Luz em Agosto, que eu pretendo ler, e talvez, com um pouco de sorte, ultrapasse meu recorde faulkeriano que é de 71 páginas de Palmeiras Selvagens. E se eu conseguir – puxa vida! – ficarei orgulhoso. E quem sabe até infrinja outros castigos maquiavélicos aos meus olhos frágeis e carcomidos de tão cobiçados.
Ótimo! Mas, como ia dizendo, Luz em Agosto começa exatamente assim, segundo o tradutor: Sentada junto ao caminho, contemplando o carro que sobe a colina em sua direção, Lena pensa:
Deixo em suspenso o pensamento de Lena até que o leitor, não o de Faulkner, o meu, resolva se interessar por isso.
Bom, eu ainda prefiro algo como: “Sou um homem doente... Sou mau. Não tenho atrativos. Acho que sofro do fígado. Aliás, não entendo bulhufas da minha doença e não sei com certeza o que é que me dói. Não me trato, nunca me tratei, embora respeite os médicos e a medicina. Além de tudo, sou supersticioso ao extremo; bem, o bastante para res­peitar a medicina. (Tenho instrução su­fi­ciente para não ser supersticioso, mas sou.) Não, senhores, se não que­ro me tratar é de raiva. Isso os se­nho­res provavelmente não compre­en­dem.”
Já vou adiantando aos mais apressadinhos, não se trata de mim a que se refere o narrador, evidentemente, mas ao próprio, tenho lá minhas suspeitas, admirado Fiódor Mikhailovich Dostoiévski, autor do livro Notas do Subsolo. Leiam. Se encontrarem. Bons livros estão em falta nas prateleiras.
. Leiam. Se encontrarem. Bons livros estão em falta nas prateleiras.
E pensar que o primeiro romance de que se tem notícia foi escrito em 1008 dc. por Murasaki Shikibu, escritora japonesa, que viveu na corte imperial da época. Chama-se História de Genji, e retrata o cotidiano animado da vida da corte, narrando intrigas políticas e amorosas que, por sinal, já naquele tempo, eram muitas, e serviam de fonte de inspiração.
O fato, meus caros é que o amor inspira poetas. E a verdade persegue os escritores. E uns e outros, inspiram a humanidade. E a humanidade não percebe que as dores e os prazeres que causa e as sombras que provoca e a luz que derrama mundo a fora, é verdade e poesia. Nem todos sabem ler com os olhos da imaginação. E da alma.

Um comentário:

  1. Ler com os olhos da alma...realmente não é para qualquer um.
    Parabéns, meu amigo !

    Grande abraço

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