sexta-feira, 20 de julho de 2012

VERÃO SE DESPEDE - Capítulo de abertura


1.
Já haviam percorrido cinco quilômetros da Rodovia dos Imigrantes com destino ao litoral, quando Caio Fantinatti lembrou-se de perguntar à esposa, se ela colocara o laptop no porta-malas do carro. Ela lhe dissera que havia esquecido, e isso, noutros tempos, seria motivo o bastante para que iniciassem uma discussão. Contudo, Caio limitou-se a olhar para a esposa como um pai autoritário e exigente, e só então, percebeu que ela havia escurecido os cabelos um pouco mais do que da vez anterior.
“Dê-me um cigarro, por favor,” - disse ele.
Precisava fumar quando era contrariado. Isto o ajudava a manter-se calmo enquanto pensava.
“Podemos comprar folhas e lápis em alguma papelaria, assim que chegarmos à cidade” – a esposa sugeriu, esperando acalmá-lo.
“Você sabe que há muito tempo não escrevo me utilizando desses objetos ultrapassados, não sabe?”.
“Não encontrei sugestão melhor”.
“Então devia me poupar dessa idéia idiota”.
“Acontece que o seu jeito impaciente de encarar os problemas por menores que sejam me deixa irritada, também” - disse ela.
“Grace, parece que você esqueceu o motivo pelo qual estamos fazendo esta viagem”.
Ela olhou na direção dele, e fez menção de dar uma resposta à altura, mas se conteve. Afinal, ela sabia perfeitamente o motivo, o único, daquela viagem.
Chovia bastante aquela noite. Caio dirigia com cuidado. Era impossível enxergar um palmo adiante. Outras vezes descera aquela Serra em piores condições. Agora, o medo teimava em lhe fazer companhia. Após uma curva fechada, logo no início da descida, resolveu testar os freios do carro que havia tirado na concessionária havia menos de um mês, e aliviado, constatou que os freios eram de fato tão bons como lhe garantira o atencioso e hábil vendedor.
Indiferente aos devaneios do marido, Grace procurava no porta-luvas o cd que imaginava ter deixado ali desde a última vez em que amanheceram abraçados num motel. Isto fazia seis meses. Não encontrou o cd, apenas papéis de balas e notas fiscais de postos de combustíveis. Tentou iniciar uma conversa com o marido, mas logo desistiu da idéia porque ele não parecia muito disposto.
Caio estava entretido com as lembranças que o atormentavam. Do tempo em que era um menino que sonhava ser advogado. Época em que descia para o litoral com os amigos e os pais dos amigos, porque os seus, nunca tinham tempo para um passeio que não fosse cinema, casa de parentes e pizzaria. Caio lembrava-se com saudades dos amigos daquele tempo. Valter, um daqueles amigos, era o garoto sardento e impertinente com o qual dali a pouco iriam se encontrar; Emerson, o magricela esnobe; e Ivo Gorducho, metido a sabichão. Ninguém, todavia, superava Francisco no quesito inteligência. Mas, beleza, quem de fato possuía, era Talita. Embora, Letícia, inimiga das dietas, discordasse disso. Estes eram os amigos de Caio. Houve outros. Mas estes foram os mais próximos, pois o melhor amigo de Caio, ele assim o considerava, era Tômaz Adler, garoto tido como problema para os professores da escola, e cuja família tinha péssima reputação, mas a única pessoa capaz de conversar com Caio sem lhe perguntar, por exemplo, sobre o seu futuro.
Enquanto viajava por aquela estrada escura e modorrenta e se lembrava dos amigos, Caio dizia a si mesmo, que aqueles é que eram os bons tempos. Não devia ter se casado. Não, não devia. Estava convencido. O casamento como o imaginara, nunca existira de fato para ele. Mas lhe causava certo alívio não ter feito promessas ao infinitamente bom e justo, onipresente, onisciente, eterno e imutável Deus, diante de seu digno representante vestido de branco, num templo ornamentado de flores e repleto de olhares curiosos, numa tarde geralmente ensolarada de sábado. Aliviava em parte o peso que carregava na consciência, desde que se casara com Grace, imaginando que ela seria sempre aquele biscoitinho gostoso e delicado que ele molhava todas as noites no leite quente do seu prazer indescretível.
Agora Grace era uma mulher de 46 anos, que ainda ostentava algum charme e a voz agradável de sempre. Retocava os cabelos a cada quinze dias e procurava Caio uma vez a cada dois meses, e sempre na cama, no mesmo horário e na mesma posição. E tudo porque Grace preferia as revistas de moda e as bijuterias, às redes sociais da Internet, e os dvd´s a um bom bate-papo com o marido. Os chás aromatizantes às cervejas, e as amigas à companhia de Caio. “Um mundo de nós dois” - ela costumava dizer, lembrou-se de repente Caio, admitindo que, naqueles últimos anos, levantava-se da cama, todas as manhãs, se perguntando como pôde o céu daquele “mundo de nós dois” ter desabado de repente sobre sua cabeça.
“Você está bem?” - Grace lhe fizera a pergunta, quando já estavam ao pé da Serra.
Desde garoto, Caio gostava de passar durante a noite por aquela estrada e ver as labaredas de fogo saindo das enormes chaminés das refinarias situadas bem ao lado da rodovia. Por isso, não fez menção de responder à pergunta de Grace.
Em vez de repetir a pergunta, ela resolveu acender um cigarro. Mesmo assim, ficou olhando para o marido, enquanto ele dirigia com cuidado e atento ao tráfego intenso de caminhões. Grace observava os cabelos grisalhos que Caio exibia nas laterais da cabeça um pouco acima das orelhas, os quais ele se recusava a esconder. Também já não escondia a barriga proeminente, culpa da cervejinha que consumia com os amigos no clube, aos finais de semana, e dos anos sentados diante de um computador redigindo petições, revisando processos, contratos, acordos, elaborando teses de defesa e de acusação para clientes fiéis e que sempre lhe pagavam pontualmente uma boa soma. Mas aquela barriga ridícula para um homem tão bonito quanto ele, podia ser evitada se Caio seguisse os conselhos da esposa e se dedicasse um pouco aos exercícios físicos, pelos quais tivera obsessão enquanto adolescente e jovem, mas que passara a odiar logo nos primeiros anos de casado, sob o pretexto de falta de tempo e entusiasmo.
Enquanto fumava, olhando para o marido, e pensando nisso tudo, Grace compreendera que ela própria já não era motivação para Caio, nem mesmo para que ele cuidasse melhor da saúde e da aparência. Percebeu que na vida do marido já não tinha tanta importância. E finalmente tivera de reconhecer que o encanto do casamento de ambos – se um dia existiu – havia terminado. Olhou à sua volta e não encontrou nenhuma alternativa a ser tentada. Nenhum caminho a ser seguido. Não valia a pena. Era uma coordenadora pedagógica de ensino secundário que, ao se casar, dedicara-se ao sublime papel de sombra fiel e protetora do marido ambicioso, persistente, mas de talento duvidoso, embora oportunista. Caio sempre soubera aproveitar as oportunidades que o pai – conceituado médico – lhe proporcionara. Também se aproveitara, sem nenhum pudor e para o seu próprio espanto, das amizades convenientes que fizera ao longo dos anos exercendo a advocacia, prestando serviços nem sempre lícitos a grandes empresas, e ajudando a administrar centenárias e sólidas fortunas de famílias tradicionais.
Enquanto Grace se detinha nesses pensamentos, Caio, de bermuda e chinelos, óculos escuros, cigarro no canto da boca e garrafa de uísque, escondida, ao lado do banco, se ocupava da expectativa em rever aquela cidadezinha agradável do litoral norte do estado, para a qual se dirigia, em alta velocidade, guiado pela dedicada assistente de bordo, sua esposa.


Nota: Este é o primeiro capítulo do que um dia julguei pudesse se tornar um romance. Eu havia abandonado o projeto até então. E pretendo retomá-lo agora. Se a saúde permitir. Já tenho vários capítulos escritos e toda a ideia na cabeça. Mas é claro que todo o texto precisa ser melhor trabalhado até que atinja o nível de exigência que justifique o tempo, o suor e as lágrimas que demanda. Agradeço a todos que lerem, opinarem e sugerirem. Abraços.
J.




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