sexta-feira, 24 de agosto de 2012

CONSELHO DE CULTURA ADIADO; NENHUMA SURPRESA.


Se alguém em sua santa ingenuidade achava que a Câmara Municipal, detentora do poder legislativo iria aceitar as imposições vindas de alguns representantes do segmento cultural de Rio Claro, ou vive no mundo do faz de conta, bem próprio dos artistas, ou ainda não entendeu como funciona os meandros da política.
O impasse está no caráter deliberativo que se pretende dar ao Conselho. E deliberar nada mais é que resolver após exame e discussão. Isto é, resolver sobre o que fazer, mas não executar.
Se passar pela Câmara da maneira como pretende os artistas, não será surpresa se o projeto que cria o Concult for vetado pelo poder executivo municipal, devido às cogitadas implicações que poderiam acarretar problemas ao próprio executivo municipal junto ao Tribunal de Contas do Estado, porque responde pelos recursos aplicados no município.
Não é difícil entender a história. Voltemos ao início. Alguns artistas de Rio Claro, cansados e, com toda a razão de correr sem êxito com o pires na mão suplicando, muitas vezes, sem ser atendido, seja pela iniciativa privada (apesar das leis de incentivo) seja pelo poder público, para obter apoio, ou seja, recursos financeiros, para os seus projetos artísticos e culturais, encontraram na criação do Conselho de Cultura, um meio de se unir e se organizar legalmente e obter recursos necessários à viabilização dos seus projetos.
Até aí, tudo bem. Ocorre que se torna difícil desvincular o viés político das iniciativas de ordem cultural e artística que tenham por objetivo, desbravar outro caminho que não seja o da meritocracia. Nesta, se estabelece quem competência tem.
Em uma cidade como Rio Claro, as possibilidades de um artista, seja qual for a sua área de atuação, destacar-se e viver de sua arte são quase nulas. Não há mercado para isso. Não há interesse por parte da maioria da população. Se no Brasil consumir arte e cultura é privilégio e costume de poucos, em Rio Claro não é diferente. Aliás, fica meio desconfortável entender como Cultura apenas aquilo que produzem os artistas.
Não é ofensa perguntar se, por exemplo, haverá cadeira nesse pretendido Conselho de Cultura para o segmento da Culinária, do Artesanato, porque parece que não há para a Literatura, o que, convenhamos deixa o almejado órgão meio que caolho, manco, por assim dizer.
Por sinal, aqui cabe uma reflexão. Produzir literatura seja ela de ficção ou não, e de boa qualidade, é bem mais difícil, leva mais tempo, exige mais empenho, do que simplesmente montar peças teatrais que tratam de banalidades ou espetáculos performáticos que escondem no disfarce do lúdico uma aspiração de grandeza artística jamais alcançada.
Quando o vereador Carnevalle argumenta sobre um possível aparelhamento do eventual Conselho de Cultura pelos representantes dos partidos de esquerda local, é porque o nobre vereador, macaco velho da política que é já procurou se informar, e chegou a uma conclusão que, nenhum pouco foge à realidade.
Ademais, não cabe crítica ao pessoal da esquerda nesse sentido. É preciso, isto sim, tirar o chapéu e reconhecer o mérito desse pessoal que reivindica, se organiza e batalha por aquilo que entende certo e de seu direito. Ao contrário do que fazem os adeptos não declarados (afinal, por pudor eles nunca se declaram) de direita, que, para início de conversa, dispensam de saída os benefícios que eventualmente o Conselho de Cultura possa lhes proporcionar. Do alto de seu pedantismo e privilegiadas condições sociais e financeiras não se sentiriam evidentemente necessitados e muito menos representados pelo Concult. Enfim, em terra desocupada, quem chega primeiro, bebe água limpa. Que o diga a própria cidade de Rio Claro, em seus primórdios.
Agora serão mais 40 dias de expectativa. Tempo suficiente para o pessoal que luta pela criação do Conselho de Cultura, se articular, encontrar novos argumentos mais convincentes, enfim, fazer lobby, política. Eles são reconhecidamente muito bons nisso. Palmas para eles. E boa sorte.

*Publicado no site Guia Rio Claro. Link para acesso: http://www.guiarioclaro.com.br/materia.htm?serial=151008206

Nenhum comentário:

Postar um comentário