quarta-feira, 8 de agosto de 2012

DÁDIVAS DIVINAS


Cheguei não faz muito tempo. Foi tudo de repente. Um piscar de olhos. Nada mais. Nenhum instante mais.
Agora percebo. E compreendo. Tudo se torna exato e cristalino. Tudo se resolve. Tudo se justifica. Porque tênue é a linha que separa a condição de ser e a de estar.
 Sempre imaginei este lugar como um jardim.
Ora, vejam! Respiro finalmente. Ainda sinto dor. Alguma. Quase imperceptível. Entretanto, agora vejo, ouço, penso, e isto consola.
Alguém me trouxe até aqui. Colocou-me na cama, deitado, me fez me sentir bem, relaxado, seguro. E por um momento, se deteve em me olhar com demora. Pensei fosse um velho. Não. Era alguém feito eu. Jovem. Tinha a bondade no olhar. A verdade nas palavras. E a segurança nos gestos.
Curioso, percebi isso agora há pouco. Porque aos poucos vou percebendo e entendendo coisas. Mais e mais coisas, de modo que tudo parece aos poucos voltar ao normal. Não ria do que vou lhes contar agora, sabe, mas não visto alva túnica. Visto camiseta, jeans e tênis. A roupa de sempre. A barba por fazer, de sempre. O cabelo crescido, um pouco. Imaginei que tudo isso fosse deixar de existir, ficar para trás. Não. Não ficou. Continua existindo. Eu continuo existindo. E depois de muito tempo, agora percebo que isso me faz me sentir bem.
Acho que vou me levantar, e dar uma volta por aí. Esta sala é grande demais. Adiante, pessoas acomodadas nos sofás espalhados por essa imensidão de lugar, que apesar do tamanho é por incrível que pareça aconchegante. Pessoas dividindo espaço com os vasos de enormes folhagens. Vasos. Mesas de mármore. Samambaias. Pessoas lendo. Pessoas. Pessoas, feito eu. Algumas pensativas. Pelos cantos. Olhares perdidos. É tudo o que encontro sem maior esforço. Está diante dos meus olhos. Ao alcance de minhas mãos. Porque existo.
Existo?
Não olhe para trás. Não olhe – disse-me ele – A cada dia os seus minutos. Caminhe adiante. Areje a mente. Abra o coração.
Era o que ele me dizia nos momentos de maior tristeza, que, para mim, pareciam intermináveis.
Agora estas palavras ganham formas, adquirem vida. Brilho.
E ele, quieto, quase despercebido, se aproxima. E me conduz em direção ao jardim. Noutros tempos, isto seria impossível. Nunca me deixei levar por mãos e pensamentos alheios. Verdade, apenas a minha. Rumo, apenas o meu. Destino, um só. Inevitável. Irreparável. Justo. Exato. E na medida certa.
Sentamos num banco. Esperei que ele dissesse, mas não disse. Fiquei a admirar a beleza do jardim a minha volta. Grandes árvores, de troncos enormes e copas imensas. Canteiros de flores coloridas, das quais ainda não aprendi os nomes. E nem pretendo. Para quê? Melhor observá-las e absorvê-las em sentimentos de candura e paz que proporcionam.
 Folhagens, iguais àquelas que minha mãe tinha no jardim de nossa casa.
Ao longe, uma queda d’água. Aos meus pés, uma nascente. Pássaros gorjeiam escondidos nas árvores. Vento refrescante fustiga meu rosto. Mas não machuca. Acaricia.
Jamais um lugar assim me despertara tamanho interesse, embora sua existência atravessasse algumas vezes os meus pensamentos quando, levado pelos efeitos da natureza ultrajada, eu me deixava para trás e me descobria em outras dimensões, outros mundos, que me convenciam sem dificuldades ser merecedor de dádivas divinas ao contemplar ilusões e mentiras, tais como: Aqui mora Deus. Você é um anjo. Tudo pode.
E ao voltar, encontrava-me sujo, abandonado na calçada de uma rua escura, numa noite fria, tentando apoiar-me na parede, mas apenas conseguindo esfregar o rosto no chão, de novo. O chão imundo. Desprezível.
Às primeiras luzes do dia, eu despertava, fosse aos chutes de policiais despreparados ou por mãos caridosas. Entretanto, uma vez de pé, ao invés da fome, o desejo. Rumo aos becos, aos bares, às portas que eu encontrava abertas. Mulheres nuas faziam-me tocar os seus corpos, mas já não me lembrava como.
Naquela manhã, achei um quarto onde me refugiar. Sentei-me junto à parede, debaixo da janela. Alguém passou pelo corredor, olhou para mim, riu. Tímidos raios de sol agora me faziam companhia. Fique mais um pouco. De repente, tentando com desespero manter os olhos abertos vi em meu redor páginas e mais páginas, todas manuscritas. Meu sonho desfragmentado. Senti-me o poeta, descrente e farto de tudo e de todos, e partindo sem destino. Mas uma sombra se apoderou de mim.
Foi isso. É tudo o que eu me lembro.
O homem que me acompanhava. O mesmo que um dia fora apenas uma voz a penetrar minha consciência, ele me tomou pela mão, olhou-me com esperança, e disse:
“Seja bem vindo, boy! Aqui reiniciam os seus passos”.

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