quarta-feira, 15 de agosto de 2012

QUE ENTRE O ADVOGADO


Um dia eu enfiei minhas coisas, minhas roupas dentro de uma sacola de supermercado e sai para a rua, de cara para o mundo, em direção ao norte. Hoje, eu entendo que se tivesse tomado a direção do sul, eu jamais teria voltado, porque na direção evitada eu reencontraria o meu passado, as minhas origens, a causa de tudo.
Eu tinha 09 anos de idade, acredite. E por algum motivo eu me achava diferente, melhor que os outros. Achava aquelas pessoas com as quais convivia e aquele lugar onde nasci e fora criado até então, insuficientes para mim. Para aquilo que eu poderia fazer, e aquilo que eu era, porque eu sabia que eu era mesmo sem saber como.
Era uma tarde de sábado. E disso eu tenho certeza porque eu me lembro de ter visto meu pai naquele dia, lendo os jornais pela manhã, e, à tarde, lidando com seus periquitos australianos, que ele criava em grande número e relativo sucesso, em face sua, eu diria, obsessão em purificar a raça. Também me lembro de naquele dia, ter visto meu irmão lavando o carro que não era seu, era de meu pai, e depois o cachorro, que também não era seu, de quem era mesmo? E vi também a minha irmã, sim, eu me lembro de também tê-la visto... Não, não me lembro, não. Não me lembro de tê-la visto, mas ouvido a minha mãe falar que minha irmã havia saído com o namorado, noivo, futuro marido.
Depois, o tempo viria mostrar a minha irmã que ela estava enganada a respeito do futuro marido, tanto quanto eu me enganara sobre o rumo que deveria tomar naquela tarde.
Sim, senhoras e senhores. Eu. Imagine. Diferente e melhor que todos. Ao menos todos que viviam em meu redor.
Então, eu acho que foi naquela noite de sábado que me deparei com o Nick Adams desenhado na capa de um livro que, não sei, jamais soube por qual motivo estava na escrivaninha que ficava no quarto que meu irmão e eu dividíamos.
Nick Adams. Pro inferno ele.
Pois, aos 9 anos, meus caros, eu não sabia que aquele peste desenhado na capa do livro se tratava de Nick Adams.
Alguma coisa me levara a folhear sem nenhum entusiasmo as páginas daquele livro e devolvê-lo ao seu lugar habitual, ao seu insignificante lugar de esquecimento e desprezo eterno.
Foi nesse dia, agora compreendo que eu aprendi a observar como as coisas são e imaginá-las como poderiam ter sido. Não tinha a menor, a mais ínfima, e despretensiosa ideia de que passaria a vida a fazer isso: observar as coisas, as pessoas, os acontecimentos reais e torná-los uma mentira. Desfazer a imagem da vida alheia, a forma do barro de que ela fora concebida e dar ao barro uma nova forma, uma nova imagem restrita à dimensão exclusiva do meu pensamento, do meu mundo de aspirações, ideias e sentimentos transformados às duras penas em palavras. Ou seja, ser um pouco Deus.
Mas não era isso o que aos 9 anos de idade eu pensava e acreditava. Essas coisas, embora orbitassem em torno de mim, não penetravam minha consciência, então protegida pelas mãos abnegadas e protetoras de minha mãe, que de mim não descuidava um único segundo.  Mãe onde está você?
Esse foi o modo que encontrei pra começar a contar as coisas. Estas pelo menos.
Pessoas irão torcer o nariz, sem dúvida que sim. Acalmem-se pessoas. Não há motivo para preocupação. As coisas, estas, bem entendido, eu conto do modo como poderiam ter sido. E se alguém resolve sabe-se lá aplicar o método da psicologia reversa, talvez se sinta estimulado a escutar Her Zaratustra, que assim falava. Depois disso, acho que vêm um dois pontos. Acho. Não sou especialista na matéria. Prefiro o professor Olavo e sua sinceridade escancarada.
Nada mal. Recomendo que antes possíveis interessados leiam “O Louva Deus e a Esperança” do nosso amigo Tiberius mais conhecido atualmente como o poeta Anarquista. Por Deus, ele bem poderia ter escolhido uma graça melhor. Vou deixar o endereço do distinto ao final do texto. E então vocês que tirem satisfações com ele.
Porém, assim dizia o porteiro Amedeo, andiamo via. Logo. Não temos tanto tempo quanto preciso. Sem pormenores, minúcias, eufemismos, parolices e penduricalhos, e vamos aos fatos. E quais são os fatos? Quais são os fatos, senhor advogado?
Que entre o advogado.















Poema O Louva Deus a esperança:

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