domingo, 7 de outubro de 2012

PÁGINA AVULSA DE UM CADERNO DE NOTAS


E se deu conta de que o livro já estava fechado, esquecido num canto da sala à espera de melhor sorte.
Lembrava-se que, pela manhã, explicara ao amigo Orlando o método de escrita do qual se utilizava quando indagado sobre o que significava “o som do silêncio é a voz da solidão”, escrito em meio à parede suja, ao lado da mesa onde ficava o computador.
Por isso algum desconforto lhe causava a promessa que, instantes atrás, fizera a si próprio antes mesmo de chegar à casa onde morava. A promessa de nunca mais escrever. Ou ao menos até que desse um jeito na vida, arrumasse outro emprego, mais decente e melhor remunerado.
Talvez o doce de abóbora comprado no bar do Bolinha minutos antes o ajudasse a dar um jeito na situação. Entreter-se-ia com o doce e quem sabe a vontade de escrever passasse, fosse buscar outro desocupado, um idiota mais solícito e disposto a lhe dar um minuto de atenção.
Mas não era aquele um doce de abóbora feito ao que a Dona Lola, sua avó paterna fazia com braço forte e uma colher de pau num tacho que as madames de hoje em dia chamam de panela. Era apenas um doce de abóbora empacotadinho que por R$1,00 facilmente se compra em qualquer bar ou lanchonete.
Por isso não servira como pretexto para que resistisse à vontade de escrever. Não queria escrever. E por qual maldita razão levara para a sala algumas folhas de rascunho presas a uma prancheta e uma esferográfica azul e que, ao alcance de sua mão estivera, o tempo todo em que sentado desleixadamente no sofá à luz de uma lâmpada de 60 watts emprestada de seu vizinho, tentara ler o livro agora sim, esquecido definitivamente num canto da sala?
E as ideias orbitavam a sua mente, num balé sedutor e ordinário de idas e vindas, disposto a atormentá-lo enquanto não se decidisse entre a prancheta, as folhas de rascunho, a esferográfica azul e a tela e o teclado do computador, que deixara ligado na sala ao lado, pra que de longe pudesse ouvir a sua banda de rock favorita que há muitos anos deixara de existir.
Aliás, em sua opinião, a vida humana devia ser exatamente igual a uma banda de rock, ou seja: dar o seu recado e tchau.
Mas as pessoas querem ficar, querem continuar e se estabelecer, porque em sua tola ingenuidade se acreditam nascidas para isso, para este lugar, onde todos nascem chorando e morrem fedendo, geralmente.
Menos ele. Porque ele não pensava dessa forma. Pensava diferente. Porque certa vez sonhara que chegara à este mundo algemado, dentro de um veículo bacana, grande, todo jeitoso, escoltado por dois brutamontes uniformizados e nada simpáticos. Era um homem alto, de cabelos pretos, de bigode e magro. E reconhecera-se naquele homem. Mas aquilo era apenas um sonho, não era uma lembrança. Não poderia ser. Já não poderia ser. Porque na tarde daquele mesmo dia que finalmente chegava ao fim, o livro continuava esquecido num canto da sala. E ele decidira que tudo voltaria a ser como antes.
Era aquele o momento de encerrar mais uma etapa. Iniciar outra. Com o resto de força que lhe restava. Botar a mochila nas costas como sempre fizera. E seguir adiante. Ciente que a terra não tem fim, mas a trajetória tem.
Fazia três anos que descobrira que a vida não começa não aos 40. A vida não começa porque não termina. É uma coisa só e não se encaixa em filosofia, doutrina nenhuma, embora todas elas, algozes que são, tentem aprisioná-la.
Era aquele um livro de Fernando, agora esquecido em um canto da sala. Aquele em que o poeta diz... 
Não que concordasse com Fernando. Considerava-o na verdade, um nojento, esnobe e sovina. Mas com ele perdera algum tempo, em uma tarde de domingo recente, que passara boa parte, sentado no banco da Praça de Santa Cruz, antes que fosse completamente cercada por grades. Era uma tarde de domingo, bem se lembrava, domingo dia dos pais. E quando os sinos acusaram cinco horas, surgiu Viviane com seu sorriso habitual e um presente que lhe oferecera cheia de alegria e entusiasmo com estas singelas e inesquecíveis palavras: Feliz Dia dos Pais, paizinho.
Este poderia ser um motivo para preencher a tela ainda vazia do computador.
Poderia ser a primeira frase, porque naquele momento, era a mais verdadeira possível.
Mas ele não queria mais escrever. Fosse ao teclado e na tela do computador, nas folhas de rascunho presas a uma prancheta, com o lápis como de hábito ou com a esferográfica azul, como nos tempos de escola, quando matava aula as sextas à noite, pra ir ao cinema, voltar pra casa, trancar-se no quarto e escrever enquanto seus pais dormiam, imaginando que aquele filho iria levá-los à forra, vingá-los das maldições que a vida lhes acometera.
Nada disso.
Poderia repetir essa única frase por dez vezes seguidas e outras tantas quantas fossem necessárias. E realmente, durante toda a sua adolescência e juventude, esta frase estivera em sua mente, a cada instante: Nada disso.
Primeiro porque já ardiam seus olhos. Segundo, a única calça que encontrara limpa no armário o impelia ceder à natureza antes que fosse tarde.
Talvez voltasse minutos depois e o rosto lavado de suor, para diante da tela do computador, onde a sua banda de rock favorita continuava a tocar.
Mas certamente, o livro, aquele, continuaria esquecido em um canto qualquer da sala, ao lado das folhas de rascunho presas a uma prancheta e da esferográfica azul ao alcance de sua mão, igualmente esquecida. Para sempre.

*Crônica publicada no Jornal Aquarius, edição No. 105, Outubro/2012 e no site Autores. Aqui o link: http://www.autores.com.br/2012100757125/cronicas/cronicas/pagina-avulsa-de-um-caderno-de-notas.html

Um comentário:

  1. Que mais posso dizer nobre amigo Poeta/Escritor, que mesmo com essa sua fase difícil e sem "inspiração" consegue reverter isso em autênticas palavras num contexto envolvente, e isso caro amigo é nato, não tem jeito...rs...re ndo-me...Paarab éns !

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