quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

SONHOS QUE SE DESFAZEM AO PÔR DO SOL


Precisava apenas relaxar, concentrar-se e perceber os acontecimentos do mundo à sua volta, a uma distância segura, para não se envolver com eles.
Para tanto, havia procurado refúgio no isolamento de uma casa no meio da floresta à beira de um lago.
Lá chegara cheio de esperança. Mas, depois de uma semana, experimentava agora um incômodo sentimento de frustração.
Naquela manhã, diferentemente das outras, acordara bem cedo, e caminhara pela margem do lago, cerca de um quilômetro e meio.
A cada dez metros interrompia a caminhada e ficava olhando na direção do lago, fascinado pelo poder que a natureza possui de reconduzir o homem à sua insignificância.
Propositadamente, não trouxera consigo documentos, dinheiro e pertences pessoais. Apenas três mudas de roupas, suficientes para aquela semana.
Propusera-se a se alimentar de peixes, e se não os pescasse, não se alimentaria.
Talvez a fome lhe devolvesse a disciplina. E a necessidade, o desejo de conquista.
Alguém, que não fora ele, escrevera que a ignorância é a comodidade da sabedoria. Tolice. Nunca se convencera disso.  Sempre estivera disposto a lutar até o esgotamento de suas forças para alcançar os seus objetivos, os quais não compartilhava com ninguém, porque cada luta era a luta de cada dia, e uma luta pessoal. Jamais lhe perturbara a certeza de que mesmo os vitoriosos trazem no corpo cicatrizes e na alma, feridas.
Às vezes, para conviver em meio aos ignorantes, precisava perder a lucidez. Não fazem isso também os anjos?  Não se rebaixam aos homens para se fazerem ouvidos?
Voltou a caminhar próximo à margem do lago, exatamente onde a natureza agonizava. Acusou a temperatura agradável da água, e convenceu-se a dar um mergulho, mesmo que isso contrariasse o seu bom senso e as recomendações médicas.
Ao emergir, os raios de sol ofuscaram o brilho dos seus olhos verdes.
Outro mergulho e se deixou envolver por inteiro por uma atmosfera de liberdade e perdição que só as águas proporcionam. Perdera naquele momento a lucidez e o equilíbrio, da mesma forma como Adriana o fazia perder a compostura, toda vez que o agarrava pelas costas, inesperadamente, num lugar qualquer, o menos provável e o menos indicado.
Por que não um pintado na brasa? – ele pensou de repente – Talvez dois, com um pouco de sorte.
Mas naquele entardecer os peixes ficariam esquecidos sobre uma folha de paineira, no chão, à margem do lago, porque Adriana não iria prepará-los.

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