terça-feira, 4 de dezembro de 2012

VIVI FAZ 16


Parece que foi ontem que aos sábados à tarde, eu arrumava a roupa pra sair, sempre depois das 6, depois do futebol, quero dizer. A roupa, o cabelo (isso levava um bom tempo), e vez em quando a barba, que, naqueles dias, era apenas um, digamos, auspicioso projeto.
E a coisa toda se dava ao som daquelas músicas que eu reencontraria mais à noite, quando encontrasse com os amigos, as coleguinhas em busca de namorado, e a minha companhia inseparável já naqueles dias, a linda, ardente, e generosa dose de... Bem, ao gosto do freguês. Mas confesso que sempre preferi um cavalo branco a qualquer outra montaria.  Só esqueci de passar a mensagem ao meu fígado.
Engraçado como eram as coisas! Que coisinha ingênua, inocente, boba, agora percebo, era o Van Hallen dando pulinhos e gritando:  JUMP! Mas afinal, quem era o tal Maxwell, alguém pode me dizer?
Depois da farra, na volta para casa, buzão. Nada de carango, nada de mão boba, nada de cervejinha no bar mais próximo. Nada. Onze e meia em ponto em casa. Mas acontece que o último ônibus sentido bairro saía precisamente às onze e meia da Estação, de trens, e de ônibus. No meu caso, ônibus. Porque os trens eu utilizava pra fugir da vida, do mundo e de mim mesmo, quando me perdia em São Paulo, sem que mãe, pai, irmãos, amigos, ninguém soubesse. Lá eu peguei uma gonorréia, que ninguém jamais soube: mãe, pai, irmãos e amigos, até esta data. E poderia ter pegado outras coisas, se tivesse continuado naquela vida que para outra coisa não me serviu senão escrever os oito romances, digo, novelas, que tenho guardado na gaveta.
Um sujeito deve escrever sobre aquilo que conhece bem. Claro, Kafka só houve um. Sorte da humanidade. Por isso eu acreditei na falácia do conhece-te a ti mesmo, com um acréscimo a que me concedi o direito: a ti mesmo e aos demônios à sua volta.
Lindos demônios. E como todo bom demônio, demônio que se preze mesmo, não esses saídos das páginas apressadas do crepúsculo reluzente. Estou falando de Tomaz Adler, Axel F. Lucas Scarpini, Fausto Umbruglia. Esqueci de algum? Sim. Mas sossegue leitor, você ainda vai ouvir falar muito sobre eles. Mas só depois que eu me retirar de cena.
Então, como eu ia dizendo, Vivi faz 16. Parece que foi ontem que olhei pela primeira vez aquele serzinho enroladinho em uma manta no berçário da mesma Maternidade onde nasci há 42 anos. Minha prima Maria Alexandra, ao meu lado, o tempo todo, na sala de espera, olhando ambos, todo momento, ora para a porta do elevador que subia e descia, subia e descia, ora para o quadro pintado pela Profa. Ilara, como se naquele retrato da mãe com o filho no colo, pudesse sair a vida que esperávamos ansiosamente, para, enfim, depois de tantas idas e voltas, atropelos e batalhas vencidas, pudesse, quem esperávamos, da nossa vida compartilhar. Era 13 de dezembro, uma sexta-feira. Sete e meia da noite. Estrelas no céu. Mas uma havia descido à Terra e diferentemente do que eu pensava e temia, trazendo vida em abundância.
E é certo que quando eu arrumava a minha roupa, o calçado, e sei lá mais o quê, muitos anos antes daquele 1996, eu jamais poderia imaginar que seria pai. Simplesmente porque não desejava isso, eu repudiava a ideia. Mas algumas ideias acabam convencendo a gente, sabe. Uma delas atende pelo nome de Vivi. Pra ser mais exato, Viviane.
Quando a vejo apontar lá longe, confesso que penso: xi lá vai meu dinheirinho! Ora, mas eu nunca tive dinheiro mesmo! Não, pelo menos, dessa vez. Que me importa! Sobrevivi 42 anos, não sei se haverão outros, mas nesses dias de solidão, frustração, revolta, é o sorriso, a companhia de Vivi, os poucos minutos que juntos passamos, as nossas conversas, que, por minha única e exclusiva culpa acaba virando monólogo, que me fazem suportar a vida por alguns minutos mais. E assim, a tarde demora a passar, cai a noite, e o sol, feito eu, também se levanta no dia seguinte.
Vivi despedindo-se ao longe, ao dobrar a esquina da rua 11 com a avenida 8, e de repente Vivi se transforma em Seu Geraldo, pelo menos aos meus olhos. Agora, embaçados, devo admitir. É o que sempre acontece, quando lembro do meu pai, e quando nos despedíamos, nos domingos, depois do futebol que juntos assistíamos na tevê.
É uma puta patifaria, conforme meu amigo Lineu, o que vou dizer agora, mas, naqueles sábados, em que eu arrumava a minha roupa pra sair, eu tinha, embora não soubesse aquilo que de mais precioso um ser humano pode ter. Justamente aquilo que o faz despertar pela manhã, resignado por se surpreender de novo na prisão. Eu tinha esperança.
Piegas, não é verdade? Mas se a gente olhar tudo aquilo que se canta, escreve, e se pergunta e se responde hoje em dia, seja na tevê, nas rádios, nos jornais, nas redes sociais, nos bares, nas portas de escola, ao telefone, nas mensagens via celular, e-mail, enfim, a esperança, se torna poesia.
Vivi faz 16. Eu tenho 42 anos. E o mundo gira. E quem se importa?
Amanhã, será de novo, tudo igual, como era antes. Menos os cabelos. Eles já me faltam? E você, leitor, o quê diz?

Um comentário:

  1. Rsrs...eu digo que isso é a vida, e ela segue seu fluxo independemente da nossa vontade, Paarabéns Duplos pela sua sobrevivência até aqui e, obviamente pela Vivi que faz 16 Primaveras, bela idade, dos sonhos e descobertas...

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