quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

A BATIDA RITMADA DO TAMBOR


Todos os dias, eu me deparo com a mesma situação. Já tentei de tudo. Tudo mesmo! Nada funciona. Até desenterrei a velha Olivetti línea 98 portátil e a coloquei ao alcance das minhas mãos, sobre a cômoda, para que pudesse escrever em pé, por obra e graça das insuportáveis dores nas costas. Nada. A folha em branco lá ficou dias, e dias e noites, e nada. E todos os dias pela manhã, e todas as noites, depois da 1, lá está, diante dos meus olhos, a tela maldita do computador, em branco.
Eu sinto que já não funciona mais. Justo agora que aos olhos do mundo, ao coração e a mente das pessoas que  tudo começa, o inferno, o meu se revela, porque nele já vivo há muito tempo. Que pena! Mas é fato. É uma realidade que recuso admitir. Mas ela se impõe, a cada dia, cada vez mais.
Porque veja: Quando menciono escrever me refiro a um texto robusto, bem trabalhado, denso, consistente e convincente, verossímil, parido pela inspiração, sim, criado pelo trabalho duro, contínuo, destrutivo para quem o concebe e de quem arranca suor e geralmente lágrimas... Lágrimas!
Não essas cronicazinhas, esses artiguinhos de merda escritos sempre com muita raiva, desprezo, nenhuma dignidade, nenhum ranço de dignidade, escritos ao toque de caixa.  E que só servem mesmo pra causar uma sensação tão estúpida e efêmera quanto a uma punhetinha no banheiro, escuro, entupido e fedorento, uma rapidinha e bem rapidinha com a puta bem paga do jardim público, ou a vadia da esquina que se sustenta com 5 reais ao dia. Não!
Cronicazinhas, artiguinhos de merda, pro diabo com eles! Para que servem? Para que pessoas leiam, cuspam no chão e digam entusiasmadas a si mesmas e morrendo de inveja: Nossa! Que cara ousado e inteligente. Basta!
Sinto que já fiz tudo, já escrevi, já vivi tudo o que poderia e o que deveria. Por isso este vazio, por isso o olhar adiante que nada encontra. E vou me consumindo aos poucos na minha vã esperança dia a dia, noite a noite. Deixando-me tragar por esse abismo onde vejo vultos em desespero e ouço vozes que me chamam. Vultos e vozes conhecidas.
Por isso que continuar me angustia e o ar me sufoca. A visão do mundo a minha volta me revolta e me humilha.
Dunhill, cigarettes, âmbar incenso, luminária... Óh longa noite que jaz e não termina. Traz a manhã na sua despedida. E deixa como dote todas as dores compadecidas.
Não sei até onde vai tudo isso.
Não sei até onde vou. Não quero saber. Há de terminar assim, de repente, feito gente, finalmente. Ou talvez, não vá. Nunca.

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