sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

JARDIM DAS ALMAS


Logo o sol vai desaparecer. Vai morrer lentamente com a esperança de cada dia. Então virá a noite. E cobrirá com seu manto de escuridão e incerteza as pobres almas esquecidas, derrotadas, oprimidas, que, neste jardim circulam a esmo por entre engraxates, cachorros, camelôs, crianças, guardas, putas, traficantes, guardas.
Almas inquietas, incompreendidas, que, durante o dia, arrastam os seus corpos decrépitos, com olhares perdidos de abandono e solidão, passos incertos, sem rumo, pensamentos viciados, desejos incontidos, contidos. Desejo... 
Almas rotas que percorrem os passeios calçados com pedras portuguesas, e alamedas entre árvores que abandonam ao nada as suas folhas, sucumbidas pela fúria do vento e da chuva, que, ao final da tarde, finge limpar o que não tem cura.
Almas que falam às escondidas, que clamam e declamam versos de alegria, paridos no mais íntimo do ser que chora escondido, sofrido, e entregue, à noite que chega.
Almas que compram e vendem e que se dão ao flagelo do medo e se corrompem por ilusão.
Almas que se escondem nessas mãos calejadas, pés descarnados, corpos doídos, gemidos sufocados pelo desespero dessas almas nuas que se acreditam mortas. Mortas? – Mortas! ... Mortas.
Almas: Retratos animados, habitantes do Inferno que chega com a noite e domina até que o rei de novo se levante.
Levante! – Que o moço Siqueira, hoje aprisionado e deformado num bloco de pedra bruta voltado para o sol, sonhou comandar.
Almas! Perdidas, de dia e de noite, desconhecem os minutos porque a vida pouco importa.
Pouco importa. Pouco importa o que a vida traz e o que promete, e o que permite. Pouco importa se há o que comer e o que vestir. Se o banho é de caneca, mangueira, cueca, torneira ou chafariz, sob os olhos indiferentes do índio dono do lago, do pedaço, de tudo. Pouco importa se enquanto isso, os visitantes alienados, ultrajantes inquilinos, se olham e se perguntam.
Almas, que ao cair da noite, se voltam para os bancos de cimento, e reunidas em torno da fogueira, da fumaça e da desgraça, partilham o pão, o alívio, de mais um dia que se foi. Mais um dia, menos um dia.
Menos uma, destas almas, daqui um ou dois dias, desaparecerá pela Avenida 1 com as mãos algemadas, a face marcada, em direção ao poente, onde as portas se abrem e tudo termina.
Partirá pobre alma escolhida, acompanhada à distância por Bilac, o poeta mudo, e o olhar cansado dos companheiros derrotados que ficam.
Outras almas. Que se refugiam ao abrigo da luz, sob o teto barroco do coreto, onde anos e anos, há muitos anos, Fábio regia sua banda, e homens de terno e gravata, prometiam a plenos pulmões que a vida seria melhor... Melhor?
Almas, pobres e pequenas, apenas. Pior, quando nuas. Melhor, quando mortas.
F I M


quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

A BESTA, O BIBELÔ E O BESTIAL


Antes de tudo, devo dizer que inicio estas linhas ouvindo uma canção que começa assim: “Não diga que a canção está perdida...!”
Muito bem. A resposta aos comentários de Pelé sobre Neymar não demorou a vir. E veio da pessoa, digo, da parte mais interessada em preservar a imagem do atual craque santista, o empresário de Neymar.
Entre outras pérolas, Vagner Ribeiro disse que se “Pelé jogasse hoje, seria inferior a Neymar, por causa da condição física dos zagueiros adversários. Na época do Pelé – afirma o empresário – os zagueiros eram todos lentos e a condição física era diferente. Hoje os zagueiros voam”.
Verdade, Sr. Ribeiro, o senhor tem toda razão em dizer que os zagueiros de antigamente eram todos lentos. Só esqueceu-se de mencionar que se jogasse hoje, Pelé teria um condicionamento físico muito melhor do que tinha à época em que jogava. Porque ao contrário do seu bibelô, Pelé treinava muito, muito mais que todos os outros seus companheiros, ainda que dentre todos, ele era o melhor. Encarava todos os adversários com respeito e seriedade, jogava até no gol se precisasse, atacava e defendia, chutava com eficiência com o pé direito e o pé esquerdo, era exímio cabeceador, fez mais de mil gols. Certamente faria outros mil se jogasse hoje com essas chuteiras e bolas modernosas, esses gramados que parece um tapete da sala de visitas de sua majestade a Rainha da Inglaterra, esses uniformes fabricados com a mais moderna tecnologia, levinhos, e que não pesam sobre o corpo quando molhados pela chuva ou pelo suor. Aliás, Sr. Ribeiro, já está na hora do senhor explicar ao seu bibelô o que é suor, talvez ele não saiba.
Em seu tempo, muitas vezes, Pelé saltava, digamos assim, de um avião para o outro com seus companheiros para cumprir a agenda sempre lotada do time santista, e não tinha à sua disposição os sofisticados treinamentos regenerativos. Imagina!
Aos 17 anos Pelé já encarava adversários europeus e superava a todos eles com habilidade e raça. Igualzinho ao seu bibelô, Sr. Ribeiro que toda vez que se defronta com um desses enfia o rabicó no meio das pernas e fica escondidinho na ponta esquerda, esperando que seus companheiros retomem a posse de bola e a entreguem redonda para ele.
Pelé fazia da sua profissão um fim e não um meio. Talvez por isso nunca tenha clareado ou espetado o cabelo. E se algum dia reclamou da arbitragem foi com razão e não na vã tentativa de justificar sua pífia atuação.
Pelé foi aquele que, certa vez, em Piracicaba, no interior de São Paulo, ouviu sonoras vaias no primeiro tempo em que seu time perdia o jogo, e, no intervalo, na ida para o vestiário, fez apenas um sinal para a eufórica e hostil torcida adversária para que esperasse um pouco. E veio o segundo tempo, e veio Pelé, e vieram jogadas maravilhosas, não uma ou duas, várias, vieram os gols incríveis, a goleada, a vitória, e a rendição do time adversário e de sua torcida. Igualzinho ao que fez o seu bibelô, em Campinas/SP, no último final de semana, não é mesmo Sr. Ribeiro?
Pelé é tão inferior ao seu bibelô, que ele parava guerras para que as pessoas pudessem ir assisti-lo jogar. O senhor pertence àquela estirpe de ser humano que, espertos e oportunistas se aproveitam de uma dessas muitas injustiças que a vida comete ao dar dinheiro e oportunidades em abundância para gente que não presta.
Ao pensar em sua conduta, ignorante, mal-educada e geralmente antiética, e nessa sua cara arrogante e antipática, eu me lembro de outro ser desprezível dessa mesma laia que sugou Elvis Presley até o final de sua decência e dignidade, e o fazia se sujeitar ao ridículo de vestir aquela fantasmagórica roupa de homem pássaro.
Poderia mencionar outros Vagners Ribeiros, afinal, a lista é imensa e parece mesmo interminável, seja no mundo do futebol ou do entretenimento.
Atletas como Pelé, entretanto, talvez jamais voltem a existir. Mas, para a infelicidade do futebol, empresários como o senhor, infelizmente, são como ervas daninhas.
Continue a cuidar de seu bibelô, e respeite, por favor, pessoas como Pelé que adquiriram o respeito e admiração alheia por aquilo que fizeram através do seu talento.
Por que daqui a cem, duzentos anos, talvez mil, as pessoas ainda falarão de Pelé. Entende?

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

DÊ-ME UM NOME


Se deseja marcar sua existência
Tornar-se diferente de todos
Faça coisas que farão as pessoas
Odiá-lo e amá-lo sem que saibam porque
Fale o que elas não irão entender
Mas irão aceitar
Ainda que seja em um canto
Escuro e escondido do coração

Se deseja ir além, desprenda-se do chão.
E voe, e leve consigo apenas o
Teu pensamento e a tua liberdade
Esqueça a bebida e o cigarro
Refugie-se no copo d’água
No silêncio e na solidão
Se deseja aventurar-se em outros
Mundos acessíveis aos que crêem
Esqueça tudo o que já leu e aprendeu, e fez
Pegue o lápis, a folha em branco
E comece tudo de novo, e
Recomece mil vezes e outras tantas mil
Se precisar
Apague as luzes e deixe o brilho
Do sol entrar pelas janelas e
Portas do teu coração

Se deseja marcar a sua existência
Crie e recrie, feito Deus, e reinvente-se
E morra de braços abertos, pendurado numa cruz,
O coração sangrando.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

ILHAS DE SENTIMENTOS


Há dois tipos de pessoas no mundo. Os que trabalham e os que roubam e matam e destroem vidas alheias. Atualmente, políticos imbuídos de autoridade civil, religiosos que se arrogam paladinos da autoridade moral, preferem passar a mão na cabeça dos segundos, porque acreditam que isto seja mais agradável aos olhos de Deus e o mais correto perante a sociedade.
Políticos que se acreditam corretos e religiosos que imaginam falar em nome de Deus esquecem, todavia que cada ser humano é o resultado de suas escolhas, e para fazê-las, independe da fé que professe, da sua visão política (se a possui), da sua filosofia de vida. Não seria exagero afirmar que cada ser humano é um mundo em si mesmo. A viajar cada vez mais solitário e veloz pelo espaço infinito de sua mente e de suas possibilidades.
Atualmente, as tragédias se sucedem tão rápido quanto circulam as informações. Elas permanecem na mídia até que outra a substitua. E depois, são esquecidas. Funciona assim.
De modo que em uma sociedade doente porque baseada no sistema monetário e não no sistema de recursos naturais, os erros se repetem, os vícios se perpetuam, e, mantém intacta, a indiferença com a qual, aos poucos, foram conquistando a mente e o coração humano voltado somente para aquilo que pode produzir e deve consumir para satisfazer a necessidades que, em verdade, não possui, mas se acha desde o berço, convencido delas.
A capacidade de se indignar é fraca e perde espaço na consciência humana para o conformismo, com o disfarce bastante eficiente propagado pela mídia e mestres em auto-ajuda que exalta a capacidade de absorver rapidamente o impacto de acontecimentos trágicos, dolorosos e seguir em frente como se nada tivesse acontecido, abdicando do direito e da necessidade de aprender com estes acontecimentos, desenvolver virtudes, sistemas de autodefesa para que eles não se repitam. Mas, infelizmente, não é o que acontece. Nunca foi.
A realidade é que jovens, por exemplo, não deixarão de se divertir seja em boates, estádios de futebol ou parque de diversões porque duzentos e trinta e sete deles padeceram asfixiados pela fumaça acendida pelo fósforo da imprudência. E agirão assim não apenas porque a vida deve continuar, mas porque ninguém vai a tais lugares em busca da morte, mas da diversão e do prazer, justamente valores supérfluos que adquiriram status de direito imprescindível para o ser humano em uma sociedade programada para produzir e consumir, cada vez mais e sempre.
Enfim, o mesmo ocorre com todos nós, cidadãos comuns, orgulhosos eleitores, que, a cada quatro anos, somos obrigados por força de lei a escolher uma entre as opções que meia dúzia de dominadores e possuidores de poder político e econômico, nos oferece para que legitimemos, num gesto tido democrático, todavia, eivado, de cinismo aquilo que, na verdade já está escolhido por eles, ou seja, quem e como continuará mantendo as coisas como estão. Porque se houvesse solução para tudo, não haveria eleitores e muito menos políticos, que não podem, porque não foram treinados para isso, resolver problemas técnicos derivados dos serviços públicos, pagos pelo cidadão contribuinte.
O que pesa no mundo e o que determina a sua desgraça, não são fatos isolados feitos a tragédia de Santa Maria, que comove e desperta a atenção de quase todos, que ganham espaço na mídia, porque, em Jornalismo, a regra é clara, como diria Arnaldo: o cachorro morder o homem não é notícia, mas o homem morder o cachorro, sim, é notícia.
O que realmente faz diferença para a tragédia da sociedade humana é a ignorância fruto do desinteresse por uma prosperidade espiritual, moral, intelectual, relegadas à condição de insignificância. São os dramas individuais, resultados dessa indiferença, que acontecem longe dos olhos da maioria das pessoas e da mídia. E eles se repetem cada vez mais e de modo mais intenso porque o ser humano, ao contrário do que está convencido a acreditar, se sente só, apesar de estar conectado com as pessoas e o mundo à sua volta o tempo todo.
 Acontece, porém, que essa relação virtual que a internet, através do computador, e telefones celulares lhe proporcionam não satisfaz suas necessidades de afeto e compreensão. Desliga-se um e outro aparelho, e o que existe em volta, senão a solidão, o angustiante sentimento de estar, longe, isolado, e sendo tragado para um abismo, um buraco negro, de onde se imagina que jamais se sairá de tão assustadora que é essa possibilidade.
Seres humanos hoje são ilhas ligadas umas às outras por fios invisíveis que proporcionam a certeza da existência da vida e aguçam para o bem e para o mal os seus sentidos, mas que não alimentam o espírito da sua maior necessidade: o Amor.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

A CULPA É DA IMPRENSA


O presidente petista Rui Falcão parece desconhecer as razões mais econômicas e menos políticas que levaram ao nazismo e ao fascismo.
Afirma que setores do Ministério Público e a Imprensa interditam a política brasileira. É de se perguntar se ele acredita mesmo que o cidadão e, portanto o eleitor brasileiro, esse sujeito letrado, culto e bem formado e informado, se baseia, para ter opinião, naquilo que a imprensa, por exemplo, escreve. Ou se ignora a importância da atuação do Ministério Público, imprescindível para a manutenção da ordem e o cumprimento da lei, e perante a qual todos são iguais, em uma sociedade que se supõe civilizada.
E mais, que tipo de política, Rui Falcão imagina ameaçada? Seria aquela que torna possível a prática odiosa e destrutiva para o país da corrupção, do clientelismo, do privilégio com que são agraciados os membros do PT, seus aliados e bajuladores? E em última instância da supressão do espaço político e cultural e mesmo social de seus adversários, calando-os, colocando-os no ostracismo e , quando não, aniquilando-os lentamente e deixando-os morrer à míngua, prática bem típica de déspotas e regimes totalitários para onde caminha o Brasil, se nele já não se encontra?
Quando Rui Falcão rejeita o que entende como a nefasta interferência da Imprensa e de certos setores do Ministério Público, e pretensiosamente ensina que a oposição política se faz através dos partidos, cabe a pergunta: quais partidos? O PSDB, que é nada mais que a direita da esquerda?
A pá de cal em qualquer aspiração oposicionista neste país foi jogada quando o então PFL hoje denominado DEM, em 2002, se absteve de apoiar o então candidato da situação, o ex-ministro da Saúde e senador, José Serra. Por que se absteve? Seria por que o PT e seus aliados garantiram aos membros mais importantes e influentes do finado PFL a preservação dos seus interesses que, convenhamos nada tem a ver com os interesses legítimos do cidadão comum ou daquele que pensa ou aspira uma salutar e necessária à Democracia alternância de poder político, que poderia surgir a partir de um movimento oposicionista no Brasil, que, não existe e longe está de existir?
É tão grande o cinismo do presidente petista que chega a afirmar que a regulamentação da mídia é legítima porque regulamentaria a Constituição. Como assim? Certamente o ilustre presidente desconhece a participação decisiva que a imprensa livre dos Estados Unidos da América teve para a consolidação da Democracia naquele país. E aqui, no Brasil, para a sua redemocratização.
Rui Falcão dá a entender que um cala a boca, um chega pra lá, digamos assim, na Imprensa e em alguns setores do Ministério Público, justificaria perante a opinião pública o estado de corrupção sem paralelo na política brasileira que o seu Partido, o PT, instituiu, aperfeiçoou e disseminou com as graças do governo esquerdista e com as bênçãos do povo, satisfeito com as migalhas de um pão consumido e vomitado que esse governo federal espalha pelo chão para o deleite dos miseráveis e satisfação dos alienados, que com o pouco e com o nada se contentam facilmente.
Melhor faria o presidente petista se admitisse o óbvio: nós já vivemos uma ditadura esquerdista no Brasil, desde o governo FHC, quando foi implantada em surdina e com vaselina, me perdoem a expressão, com a conivência e indiferença, como sempre, da maioria dos brasileiros.
E estaríamos certamente experimentando uma situação deplorável de supressão da liberdade, semelhante àquela verificada nos países da cortina de ferro, em Cuba e na própria União Soviética, não fosse atuação da imprensa e do Ministério Público, que, apesar de todos os seus erros e contradições, continuam sendo a voz e o braço forte do povo.
Há, sem dúvida, um cinismo intragável bem típico de tudo o que vem do PT no infeliz discurso do seu atual presidente. Algo que se já se tornou rotina.