sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

ILHAS DE SENTIMENTOS


Há dois tipos de pessoas no mundo. Os que trabalham e os que roubam e matam e destroem vidas alheias. Atualmente, políticos imbuídos de autoridade civil, religiosos que se arrogam paladinos da autoridade moral, preferem passar a mão na cabeça dos segundos, porque acreditam que isto seja mais agradável aos olhos de Deus e o mais correto perante a sociedade.
Políticos que se acreditam corretos e religiosos que imaginam falar em nome de Deus esquecem, todavia que cada ser humano é o resultado de suas escolhas, e para fazê-las, independe da fé que professe, da sua visão política (se a possui), da sua filosofia de vida. Não seria exagero afirmar que cada ser humano é um mundo em si mesmo. A viajar cada vez mais solitário e veloz pelo espaço infinito de sua mente e de suas possibilidades.
Atualmente, as tragédias se sucedem tão rápido quanto circulam as informações. Elas permanecem na mídia até que outra a substitua. E depois, são esquecidas. Funciona assim.
De modo que em uma sociedade doente porque baseada no sistema monetário e não no sistema de recursos naturais, os erros se repetem, os vícios se perpetuam, e, mantém intacta, a indiferença com a qual, aos poucos, foram conquistando a mente e o coração humano voltado somente para aquilo que pode produzir e deve consumir para satisfazer a necessidades que, em verdade, não possui, mas se acha desde o berço, convencido delas.
A capacidade de se indignar é fraca e perde espaço na consciência humana para o conformismo, com o disfarce bastante eficiente propagado pela mídia e mestres em auto-ajuda que exalta a capacidade de absorver rapidamente o impacto de acontecimentos trágicos, dolorosos e seguir em frente como se nada tivesse acontecido, abdicando do direito e da necessidade de aprender com estes acontecimentos, desenvolver virtudes, sistemas de autodefesa para que eles não se repitam. Mas, infelizmente, não é o que acontece. Nunca foi.
A realidade é que jovens, por exemplo, não deixarão de se divertir seja em boates, estádios de futebol ou parque de diversões porque duzentos e trinta e sete deles padeceram asfixiados pela fumaça acendida pelo fósforo da imprudência. E agirão assim não apenas porque a vida deve continuar, mas porque ninguém vai a tais lugares em busca da morte, mas da diversão e do prazer, justamente valores supérfluos que adquiriram status de direito imprescindível para o ser humano em uma sociedade programada para produzir e consumir, cada vez mais e sempre.
Enfim, o mesmo ocorre com todos nós, cidadãos comuns, orgulhosos eleitores, que, a cada quatro anos, somos obrigados por força de lei a escolher uma entre as opções que meia dúzia de dominadores e possuidores de poder político e econômico, nos oferece para que legitimemos, num gesto tido democrático, todavia, eivado, de cinismo aquilo que, na verdade já está escolhido por eles, ou seja, quem e como continuará mantendo as coisas como estão. Porque se houvesse solução para tudo, não haveria eleitores e muito menos políticos, que não podem, porque não foram treinados para isso, resolver problemas técnicos derivados dos serviços públicos, pagos pelo cidadão contribuinte.
O que pesa no mundo e o que determina a sua desgraça, não são fatos isolados feitos a tragédia de Santa Maria, que comove e desperta a atenção de quase todos, que ganham espaço na mídia, porque, em Jornalismo, a regra é clara, como diria Arnaldo: o cachorro morder o homem não é notícia, mas o homem morder o cachorro, sim, é notícia.
O que realmente faz diferença para a tragédia da sociedade humana é a ignorância fruto do desinteresse por uma prosperidade espiritual, moral, intelectual, relegadas à condição de insignificância. São os dramas individuais, resultados dessa indiferença, que acontecem longe dos olhos da maioria das pessoas e da mídia. E eles se repetem cada vez mais e de modo mais intenso porque o ser humano, ao contrário do que está convencido a acreditar, se sente só, apesar de estar conectado com as pessoas e o mundo à sua volta o tempo todo.
 Acontece, porém, que essa relação virtual que a internet, através do computador, e telefones celulares lhe proporcionam não satisfaz suas necessidades de afeto e compreensão. Desliga-se um e outro aparelho, e o que existe em volta, senão a solidão, o angustiante sentimento de estar, longe, isolado, e sendo tragado para um abismo, um buraco negro, de onde se imagina que jamais se sairá de tão assustadora que é essa possibilidade.
Seres humanos hoje são ilhas ligadas umas às outras por fios invisíveis que proporcionam a certeza da existência da vida e aguçam para o bem e para o mal os seus sentidos, mas que não alimentam o espírito da sua maior necessidade: o Amor.

Nenhum comentário:

Postar um comentário