sábado, 30 de março de 2013

FRAGMENTOS DA MANHÃ DE SÁBADO


Passa o tempo
Caminha-se do mesmo modo
Mas olha-se cada vez mais para o chão

Dentro do Jardim
Pessoas indo e vindo
Pena que não sejam Fernandos
Mas Joões, Josés e Marias

Fora do Jardim
A vida acontece
Dentro, perece a vida
Os minutos vêm e ficam

O soslaio olhar de Élis
Não me encontra
Passo ao largo
Em direção à banca de jornal
Vou à procura de papel e lápis
O banco vazio
E, quando retorno
Percebo que eu havia abandonado
Não o banco
O poema que se foi

Volto para casa pensando
Quem libertará o Anjo?
Quem devolverá a terra ao Índio?
Eu, não.
Satisfeito, já ocupei o meu tempo
Desejando escrever o poema


sexta-feira, 22 de março de 2013

VIDA e ARTE


Muito daquilo que as pessoas admiram como obras de arte talvez jamais teriam havido não fossem o álcool e as drogas, o sexo e a promiscuidade. Difícil saber o que vem antes e o que vem depois. Mas para efeito de entendimento do que se pretende aqui expor isso pouco importa.
Importa é admitir ou refutar, que para atingir a dimensão de liberdade plena o ser humano necessita ir além da sua zona de conforto e segurança. Algo extraordinário para as pessoas simples que encaram a vida com responsabilidade e praticidade, e algo absolutamente normal para os artistas de gênio, por exemplo.
 Não pensem, entretanto que essa genialidade se obtém gratuitamente. Ela tem um preço. Geralmente impagável. Mas essa troca “dou-lhe meu coração e minha mente e terás minha alma”, é uma relação tão indecente, possessiva, é algo tão sórdido, mesquinho, destrutivo que jamais termina com final feliz.
É um jogo de espelhos o fenômeno da criação para o artista. Ele é a vontade e o instrumento, mas sozinho, pouco ou quase nada pode. Ele precisa ir além, ultrapassar a lucidez de sua consciência, ampliá-la, cruzar a fronteira entre a lucidez e a loucura, onde nada possui forma, embora tudo esteja à disposição da vontade de quem feito o artista deseja se expressar.
Ora, então porque a opção pelo uso do álcool e das drogas? Simplesmente porque tais substâncias alteram o estado de consciência humana, amplia seus horizontes, faz o ser humano ver além dos olhos e sentir além do coração. É um degrau a mais, talvez o patamar mais alto da escada da percepção. E, portanto, o mais perigoso e o menos recomendável para quem teme e não deseja conhecer o Inferno.
Pergunte-nos então leitor, sobre a inspiração. Ela seria a mensagem, o símbolo, o código decifrado, que é trazida espontaneamente por alguém ou alguma coisa que deseja se manifestar ludicamente? Ou que é buscada por alguém disposto a emprestar sua individualidade, ceder seu território, e, portanto, sua liberdade de ação e escolha e domínio de si mesmo, porque para viver ou para suportar a existência precisa dar a ela, a existência, algum sentido, conhecido como Arte? Quem terá as respostas?
 Pobres são os artistas de gênio. Sacrificam-se em nome do Nada. E quando percebem isso já estão escravizados, submissos, dependentes dessa necessidade de se expressar, tanto quanto estariam ou talvez já estejam dependentes do álcool e das drogas.
Todavia, essa afinidade de pensamento, vontade e ação, entre lucidez e a loucura, entre a realidade e a fantasia, proporciona uma sintonia e essa, a realização do fenômeno criativo.  Animismo, mediunismo, inspiração, dêem a isso o nome que quiserem a natureza sobre tal fenômeno criativo e porque razão exatamente ele ocorre longe está de ser obtida. 
Desejar entender esse fenômeno é compreensível e talvez se torne possível algum dia. Querer defini-lo em palavras, dar-lhe forma, absorve-lhe o conteúdo, provavelmente jamais. Seria uma tola tentativa como aquela que pretende identificar qual a matéria-prima da Criação. E essa comparação, deve-se admitir é bem ridícula.
Em se tratando dos artistas de gênio, ou a maioria, talvez a verdade consista no fato de que sem o álcool e sem as drogas, não haveria os salmos do Rei Davi, o homem Vitruviano de Da Vinci, não haveria os afrescos de Michelangelo, os dramas de Shakespeare, ou melhor, Lord Francis Bacon; os poemas de Baudelaire, de Rimbaud... de Rilke. Nem as melodias eternas e cada vez mais bonitas e interessantes dos Beatles, nem tão pouco as de Elvis Presley. Não teríamos conhecido as almas nuas de Modigliani, as telas de Picasso, de Caravaggio, as cenas de Copolla, Chaplin, Spielberg, Lucas. Jamais conheceríamos Sal Paradise, Dean Moriarty, não sentiríamos pena de Kerouac, Bukowski... Não admiraríamos Fitzgerald, nem teríamos inveja de Faulkner, e muito menos raiva de Ginsberg. Continuaríamos sem saber por quem os sinos dobram. Clarice não existiria, tão pouco Lima, muito menos Graciliano. Angústia! Que seria isso, Renato? Enfim, Dante não visitaria o Inferno. E Pessoa não nos traria Tabacaria.
Talvez, num pretensioso exercício de futurologia, não haveria o outro modo de sonhar que a arte genial proporciona, porque o ser humano, o artista de gênio, à custa da vontade e de um copo d’água é geralmente incapaz de sair do chão, de sentir, de enxergar um palmo além dos seus olhos, de buscar o que existe além da sua mente e do seu coração, e o que e porque se manifesta, e de que modo.
Por isso, se admiramos a arte em suas diversas formas de expressão, principalmente quando ela extrapola a mesmice e se torna imensa, extraordinária ao nosso entendimento e aos nossos sentidos, não custa pensarmos muito bem antes de criticarmos e ironizarmos, de submetermos a equivocados juízos de valor, de acusarmos precipitadamente, os artistas de gênio, que sacrificam suas vidas em nome do Nada.
Porque, de modo espontâneo, ou levados a isso, eles abdicam do seu direito de ser feliz e de viver como qualquer outro ser mortal, para que a maioria de nós, possa sonhar e apreciar a beleza, a força, a graça, o destemor e todas as surpresas e nuances que a vida pode nos oferecer, desde que estejamos dispostos a isso. Com uma vantagem: sem que nada nos custe senão tempo e algum dinheiro. Algo, entretanto, só possível na dimensão da fantasia.

domingo, 3 de março de 2013

ONDE ESTÃO AS FORMIGAS? PARA ONDE FORAM?


Tentava. Jamais se poderia dizer que não. Mas, às vezes, se tornava difícil para ele transpor a distância entre o que separa o pensamento da emoção; transpor o exato limite onde nasce o pensamento daquele onde nasce a emoção.
Não que lhe faltasse vontade para esse entendimento, faltava-lhe força. Capacidade para prender a respiração por dois ou três segundos, uma hora, dez minutos, o tempo necessário, enfim, até que o processo de ação, movido pelo estímulo quer fosse de um pensamento lógico ou de uma simples, pura emoção, se estabelecesse por completo.
Tinha 44 anos, fase da vida em que os bons atingem o ápice da sua performance, e ele, cônscio e conformado, sabe-se lá por quais motivos, descia a escada interminável que leva ao porão da ineficiência. Descia. Sem tirar os olhos do horizonte, e o horizonte para ele era o chão.
Talvez neste chão, ele se deite e adormeça, e permaneça envolvido pelo sonho mais desejado, aquele que nunca termina.
É uma sala enorme a que ele se encontra nesse instante. Não há vozes, não há rostos, nada se movimenta, ninguém se manifesta. As teclas da máquina de escrever vão e vem, às vezes param, e é quando o seu olhar se perde em uma direção qualquer à procura de não se sabe o quê.
Agora ele vê formigas. É uma grande descoberta às 15 para cinco da tarde, precisamente.  Sim, a tarde demora a passar, e até hoje ele não descobriu se isso é bom ou ruim. As formigas, que até agora a pouco estavam a passear sobre a mesa, agora passeiam desinibidas sobre o seu braço, sem saber exatamente, as formigas, para onde vão. Que engraçadinhas!
Não são dessas formigas que picam, mordem, sugam o sangue, provocam dor, alucinações, dor, vermelhidão, não. Mas incomodam. Desviam a atenção.
Bem entendido: atenção, para o que acontece na outra dimensão, aquela em que o pensamento e sua filha dileta, a lucidez, dama ingênua, tola, amorfa,  corrompida pelo senhor desejo e sua dama, Sra. Insanidade, disputa espaço e preferência com a emoção. A batalha da vida real, onde reside o espírito, dono, único dono do pensamento, da vontade e da ação.
Porque dessa vida abjeta, cujo barro da criação são as formas tangíveis e os limites tiranos, absolutistas, deve-se aquele que escreve abstrair-se quando escreve. E ele, o poeta por minutos, o homem comum por todas as horas, quase todas,  compreendera finalmente isso, enquanto descia a escada, olhos impregnados em seu horizonte: 
Lembrava-e do que dizia Charles, o beberrão: processo criativo é aquela maldita máquina de escrever quando está em movimento. Tác, Tác, Tác.
Percebeu ele que a máquina de escrever tinha vida. E se rendera novamente. Era uma puta mundana aquela maldita máquina de escrever. Todavia, mais barata que uma cortesã.  Enfim, uma preciosidade. A maldita máquina de escrever não tem conexão com o Facebook.
Onde estão as formigas, ele se perguntava. Elas já se foram. E ele terminava ali mesmo a sua tarefa de mais um dia. Ponto final.