domingo, 3 de março de 2013

ONDE ESTÃO AS FORMIGAS? PARA ONDE FORAM?


Tentava. Jamais se poderia dizer que não. Mas, às vezes, se tornava difícil para ele transpor a distância entre o que separa o pensamento da emoção; transpor o exato limite onde nasce o pensamento daquele onde nasce a emoção.
Não que lhe faltasse vontade para esse entendimento, faltava-lhe força. Capacidade para prender a respiração por dois ou três segundos, uma hora, dez minutos, o tempo necessário, enfim, até que o processo de ação, movido pelo estímulo quer fosse de um pensamento lógico ou de uma simples, pura emoção, se estabelecesse por completo.
Tinha 44 anos, fase da vida em que os bons atingem o ápice da sua performance, e ele, cônscio e conformado, sabe-se lá por quais motivos, descia a escada interminável que leva ao porão da ineficiência. Descia. Sem tirar os olhos do horizonte, e o horizonte para ele era o chão.
Talvez neste chão, ele se deite e adormeça, e permaneça envolvido pelo sonho mais desejado, aquele que nunca termina.
É uma sala enorme a que ele se encontra nesse instante. Não há vozes, não há rostos, nada se movimenta, ninguém se manifesta. As teclas da máquina de escrever vão e vem, às vezes param, e é quando o seu olhar se perde em uma direção qualquer à procura de não se sabe o quê.
Agora ele vê formigas. É uma grande descoberta às 15 para cinco da tarde, precisamente.  Sim, a tarde demora a passar, e até hoje ele não descobriu se isso é bom ou ruim. As formigas, que até agora a pouco estavam a passear sobre a mesa, agora passeiam desinibidas sobre o seu braço, sem saber exatamente, as formigas, para onde vão. Que engraçadinhas!
Não são dessas formigas que picam, mordem, sugam o sangue, provocam dor, alucinações, dor, vermelhidão, não. Mas incomodam. Desviam a atenção.
Bem entendido: atenção, para o que acontece na outra dimensão, aquela em que o pensamento e sua filha dileta, a lucidez, dama ingênua, tola, amorfa,  corrompida pelo senhor desejo e sua dama, Sra. Insanidade, disputa espaço e preferência com a emoção. A batalha da vida real, onde reside o espírito, dono, único dono do pensamento, da vontade e da ação.
Porque dessa vida abjeta, cujo barro da criação são as formas tangíveis e os limites tiranos, absolutistas, deve-se aquele que escreve abstrair-se quando escreve. E ele, o poeta por minutos, o homem comum por todas as horas, quase todas,  compreendera finalmente isso, enquanto descia a escada, olhos impregnados em seu horizonte: 
Lembrava-e do que dizia Charles, o beberrão: processo criativo é aquela maldita máquina de escrever quando está em movimento. Tác, Tác, Tác.
Percebeu ele que a máquina de escrever tinha vida. E se rendera novamente. Era uma puta mundana aquela maldita máquina de escrever. Todavia, mais barata que uma cortesã.  Enfim, uma preciosidade. A maldita máquina de escrever não tem conexão com o Facebook.
Onde estão as formigas, ele se perguntava. Elas já se foram. E ele terminava ali mesmo a sua tarefa de mais um dia. Ponto final.

Nenhum comentário:

Postar um comentário