domingo, 28 de abril de 2013

O INTERMEDIÁRIO


Um escritor é aquele que flerta ou duela com os extremos. Ama demais, procura demais, pergunta demais e caminha além do recomendável, alguns para o abismo. É aquele que sente antes de fazer sentir. É como o pelicano que tira da sua própria carne para alimentar a prole. O escritor vai além. Ele tira do seu próprio espírito, mesmo sabendo que aquilo que tira jamais poderá ser recolocado. O escritor é como o guardião do templo que batalha só. E mesmo depois de seu exército ter se rendido, ele continua a lutar. E vai baixando sua guarda, até se ver completamente indefeso. É quando sucumbe. E conhece a tragédia pessoal. Porque o escritor é feito dela.

O escritor é o rei que abdica do trono que é sua vida em favor da vida de outros que sequer conhece, mas que dele dependem para saciar a fome e a sede de seus espíritos.
Para mim, um escritor que desisti de si tem mil anos de perdão.
Trecho de “O Intermediário” – de minha autoria, ainda inédito.

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