terça-feira, 16 de abril de 2013

OS CORREDORES DO CHANCELER



Não sei se por obra da Providência Divina, a fim de curar minha ansiedade, ou me chatear mesmo, mas o fato é que as coisas sempre demoram absurdamente para acontecer na minha vida.

Iniciei na escola aos 7 anos de idade, já na primeira série, talvez porque minha mãe, sempre preocupada com a minha segurança, achasse perigoso  eu atravessar os 50 metros que me separava do portão de casa para o da escola.
Nada! Eram os remédios que eu tomava desde os 3 anos de idade e tomaria até os 12 que mal permitiam que eu parasse em pé, e foi assim até que meu organismo à eles se acostumassem o que levou um longo e penoso tempo. Foi o preço que tive de pagar aqueles anos todos pra não ter convulsões durante as quais eu me debatia, virava os olhos, mordia a língua, suava, tremia da cabeça aos pés. Imagine! Coitadinho! Aquele menininho lindo, loirinho de olhos azuis. Que pecado!
Mas não foi só isso. Fui ser pai aos 27 anos, o que para os da minha geração é um tremendo e imperdoável atraso. Publiquei meu primeiro livro aos 43. E a essa altura do campeonato o curioso leitor deve estar se perguntando sobre a primeira transa. Ah, sim, ia me esquecendo! Não conto.
Modos que, como diria o Didi, isso me faz recordar de um lugar onde eu deveria permanecer apenas 3 anos e fiquei quase 6. Um lugar enorme, com vários pavilhões, pavimento superior, cercado por muros. O lugar onde fui apresentado para o Sr. Destino, não me lembro ao certo se foi sentado numa das escadarias que, por assim dizer, funcionavam como parada obrigatória a quem percorresse, feito eu, aquele corredor que parecia interminável. E que naquelas manhãs de outono era atravessado pelos raios de sol, entre os vãos que havia entre uma coluna de sustentação e outra.
Lembro-me desses fatos e escrevo estas linhas com a melodia densa e penetrante, dolorosamente poética e infernal de Last Night I Dreamt That Somebody Loved Me.
Lembro-me de quando ali cheguei, graças obstinação de meu pai para que seu filho caçula vingasse os seus fracassos. Perdoa-me, pai!
Vindo do Monsenhor Martins, escola então estadual e que tinha até a 8ª. série, inclusive em período noturno, onde eu havia passado durante 8 anos as melhores manhãs de minha vida, eu chegava ao Chanceler Raul Fernandes onde seria apresentado ao Sr. Destino. De Monsenhor para Chanceler, sempre fui nojento, mesmo!
No primeiro dia em que botei os pés naquela escola, foi como se eu tivesse sido arrancado dos meus e sido jogado em um navio enorme, cheio de gente estranha e hostil. Gente que olhava para mim com mórbida curiosidade e como se eu tivesse pendurada ao pescoço uma sugestiva plaquinha onde se lia: Estrangeiro.
Aquele era um tempo em que estudar no Monsenhor era sinal de status, e os mais burrinhos iam tentar a sorte no Barão de Piracicaba. Percebam que sempre estive rodeado por gente importante. E depois da 8ª. série, restava o Chanceler, por falta de opção, mesmo, para os que não podiam pagar uma escola particular.
A primeira vez que me deparei com aqueles corredores? Não me lembro. Talvez, as tais lembranças se referem à segunda, terceira vez, não sei.
No intervalo, eu me juntava a alguns companheiros de classe, os quais jamais eu pude chamá-los de amigos, sentávamos em uma daquelas escadarias. Aquela dava acesso ao anfiteatro, a seguinte, a cozinha, digamos assim, onde era ministrado o curso de Nutrição. Minha classe ficava no térreo do primeiro pavilhão, logo à entrada, virando à direita. Era uma classe minúscula onde nos amontoávamos em carteiras desconfortáveis, menores ainda, nas quais era preciso encolher as pernas, virar o quadril a cada 5 minutos, e onde Dona Lurdinha, sem abrir mão do seu indefectível guarda-pó branco tentava com todo o empenho nos ensinar Matemática.
Eu odiava cortar o cabelo, meus tênis eram dos mais baratos, e minhas roupas adquiridas nas liquidações da loja Pelicano, ou eram sobras dos melhores dias do meu irmão mais velho.
A partir daquele ano, a bordo da minha veloz bicicletinha, comecei a ajudar meu pai no escritório, fazendo serviços de rua: clientes, bancos, repartições públicas. Ganhava uns trocos. Dava pra comer um lanche aos sábados à noite com o Nê o Tato, dois amigos de infância, depois do filme que assistíamos no finado Cine Excelsior.
Agora me dou conta no período em que freqüentei o Chanceler (se dissesse estudar estaria mentindo), moramos eu e meus pais em cinco casas diferentes.
Foi quando morávamos na última delas que o fato se deu. Fui a apresentado ao Sr. Destino. Eu já tinha 17 anos, frequentava as aulas à noite, e jamais passara pela minha cabeça certas insanidades como casar, ter filhos, namorar sério, escrever.
Chegava em casa, depois da aula, arranjava na cozinha algo pra comer, ia pra sala, ligava a tevê e ficava assistindo ao babaca do Amauri Jr. e admirando aquela gente idiota cheia de pose falando asneira e demonstrando felicidade apenas pelo fato de estar diante de uma câmera e um microfone. É como o finado Tomas Adler vive me dizendo “É boy, a humanidade realmente não tem cura”.
Alguns amigos já estavam na universidade, e outros, feito eu, ignoravam que o tempo haveria de passar, que não teríamos para sempre 17, 18, 19 anos.
Um dia, descendo a Avenida 40, em direção ao Chanceler, eu fui apresentado ao Sr. Destino. Cheguei à classe, ocupei minha carteira, abri o caderno e comecei a escrever. Foi assim. E as aulas transcorreram sem que eu me desse conta. A escrita fluía naturalmente sem que eu tivesse consciência do seu conteúdo. Algo que só fui saber, depois de chegar em casa, naquela noite, trancar-me no quarto, e ler uma dúzia de vezes o que havia escrito, enquanto ouvia no radinho de pilha, presente de minha mãe, a Last night I dreamt that somebody loved me, Tempo Perdido, e All my colours, sem saber que quem a cantava esta última tinha o mesmo nome do cara, igualmente vocalista e compositor, cuja triste história eu tomara conhecimento lendo um jornalão da capital na biblioteca do Centro Cultural, numa daquelas tardes vadias a me perder em pensamentos e paradas bruscas enquanto caminhava a esmo no entorno do Lago que ainda não era Azul, era uma taboca, hospedaria de sapos, rãs, grilos, besouros e pernilongos.
Lembro que se fez dia e naquela manhã eu deveria me apresentar na Junta Militar, que então funcionava na Rua 4 com avenida 8, no centro da cidade.
A partir de então, os corredores do Chanceler passaram a ter para mim outro significado.
Nos intervalos das aulas, solitário, ainda que em meio tanta gente, eu os percorria vendo coisas, ouvindo vozes, que, horas mais tarde se transformariam em palavras, frases, histórias, eternizadas no velho e deteriorado caderno de Matemática que deveria ter as matérias passadas pela Dona Lurdinha. Deveria.
Agora começo a entender porque levei 30 anos pra escrever esta crônica.

Um comentário:

  1. E eu começo a entender porque quando se encontra tempo para ler o primeiro é ir até onde se encontram as cronicas do Geraldo. Fluidez, gentileza, retrato correto e, principalmente, uma maneira harmoniosa de expressão. O que se pode dizer mais dessa cronica, somente que é a relação intima do escritor com a Natureza, da qual preza e expressa em cada linha e palavra. Parabéns. Abraços!

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