segunda-feira, 10 de junho de 2013

O MUNDO DE FRANCIS

Filme recém lançado, reacende o interesse pela vida e obra do escritor norte-americano Francis Scott Fitzgerald

Em cartaz nos cinemas do Brasil (ao menos nos melhores) o filme O Grande Gatsby, título homônimo do romance do escritor norte-americano Francis Scott Fitzgerald (1896-1940), publicado pela primeira vez no longínquo 1925, durante o período que passou à história como os Anos Loucos.

Esse período alucinante do século 20 que teve início logo após o término da 1ª. Guerra mundial, inicialmente tratou de sepultar de vez a velhota e decadente Belle Epóque que mais nada podia oferecer de bom e de belo aos amantes das artes, agora sedentos por novidades tecnológicas e fortes emoções, e dispostos à exaltação do “eu” a todo a custo, num evidente egoísmo exacerbado que, compartilhado por muitos, principalmente aos que habitavam os grandes centros como Paris, Londres, Berlim, New York e Chicago davam a esse comportamento um falso ar de naturalidade.
Ao som do poderoso e carismático jazz, tais pessoas lotavam cassinos, salões de dança e cabarés. As mulheres, geralmente sorridentes, ousavam como nunca mexer os quadris e colocar tornozelos e pescoços à mostra, para o deleite dos homens, que, em troca de tórridos momentos de amor, não se importavam de expor sua intimidade e comprometer suas existências nas mesas de jogos, restaurantes e nas camas de bordéis, acumulando dívidas jamais pagas.
O que a sociedade vê hoje com certo repudio, mas não menos interesse, já naquele tempo era costume. Homossexualismo, prazer a qualquer custo, mulheres bebendo muito, homens sonhando muito mais ainda e realizando pouco.
Os Roaring Twenties (Anos Loucos) terminaram em uma estrondosa queda de cara no chão, tão bem conhecida por aqueles acostumados com uns muitos goles a mais. Pra ser mais exato, em 1929 com o episódio conhecido como o Crash da Bolsa de Valores New York que fez muitos sonhadores e outros tantos irresponsáveis retornarem à triste realidade do cotidiano em que a felicidade, exatamente por ser o bem mais precioso, sorri para bem poucos.

Mas para o autor de O Grande Gatsby, a felicidade – se a conheceu mesmo –  talvez tenha terminado um pouco antes, como sugere o também escritor e seu contemporâneo Ernest Hemingway no bastante apreciável Paris é uma Festa. No aspecto tragédia da biografia de ambos, a diferença é que a via crucis de Hemingway teve uns quilômetros a mais.
No tempo em que esses escritores conviveram em Paris, Fitzgerald confidenciara a Hemingway que seu romance O Grande Gatsby, apesar de apreciado pela crítica especializada não ia lá muito bem de vendas. Coincidentemente o mesmo se dá com o filme em cartaz. A mais recente das muitas versões que a obra literária teve para o cinema, a mais conhecida até aqui, a de 1974, com Robert Redford e Mia Farrow nos papéis principais.
Em seu tempo, Fitzgerald se dividia entre o seu talento natural para escrever histórias, muitas delas publicadas em revistas como a Saturday Evening Post, e os porres homéricos de sua esposa Zelda, em cujo grau de paridade ele não ficava nem um pouco atrás. Algo mais sobre esses episódios recomenda-se a leitura do delicioso O Leitor Apaixonado, de autoria de Ruy Castro, Cia. das Letras, 368 págs.
A trama central do romance O Grande Gatsby gira em torno do desejo e conquista de Jay Gatsby em amealhar fortuna e ascender socialmente na esperança quase uma certeza de que isto lhe dê as credenciais para conquistar Daisy que o rejeitara no passado, quando ainda jovens, ele, um ex-combatente, exímio atirador, durante a primeira guerra mundial, ela, uma fina e recatada (até a página 2) senhorita da alta sociedade.

Como todo bom romance há histórias paralelas interessantes em O Grande Gatsby. É tocante, por exemplo, a cena em que o pai do personagem principal vai ao encontro do filho no final da narrativa.
Francis Scott Fitzgerald, oriundo da classe média alta, ex- aluno de Princeton, ex-combatente da primeira guerra mundial, era um refinado estilista da palavra. Para Ernest Hemingway, o talento de Scott era tão espontâneo como o desenho que o pó faz nas asas de uma borboleta. Da lavra do autor de O Grande Gatsby, saíram outros bons romances, como Este Lado do Paraíso (This Side of Paradise, 1920), Belos e Malditos (The Beautiful and Damned, 1922), Suave é a Noite (Tender is the night, 1934) e O Último Magnata (The Love of the last tycoon, 1940), este último inacabado, mas que a exemplo de O Grande Gatsby, levado às telas do cinema, em 1976, reacendeu o interesse pela obra literária do escritor.
Numa analogia bem simplista pode-se dizer, que Philip Roth, considerado o melhor romancista norte-americano das últimas décadas, seria por assim dizer um Wolkswagen, 1969, se comparado ao Lincoln Continental que foi Francis Scott Fitzgerald, o melhor ficcionista de sua geração, melhor até mesmo do que o Nobel (1954) Ernest Miller Hemingway. Nem tanto no quesito imaginação, no qual se equiparavam já que muito do que escreveram fora autobiográfico, mas, principalmente, no fino trato com a palavra escrita e suas inúmeras possibilidades nas construções de frase e períodos. Onde Hemingway parava, ou seja, nas frases curtas, afirmativas, na narrativa geralmente linear, Fitzgerald ia além.
Mais uma vez mal comparando, a escrita de Hemingway, principalmente os diálogos onde ocorre boa parte da ação, tem o ritmo frenético do jazz, e a de Fitzgerald a cadência envolvente e apaixonante do passo dublê, de rosto colocado, quando se fecha os olhos e se deixa levar pela emoção e se delicia com tudo aquilo que de bom esta emoção pode proporcionar.

Baseado em seus dramas pessoais, que não foram poucos, Francis Scott Fitzgerald retratou como ninguém os anos loucos de sua época. Melhor saiu-se nos contos que nos romances, como se pode constatar em Contos da Era do Jazz (Thales of the jazz age, 1922) e The short stories of F. Scott Fitzgerald, 1989.
No final da vida, já derrotado pelo álcool tentou redimir-se perante o público e perante sua própria consciência, trabalhando anonimamente como roteirista em Hollywood. Mas já não era mais a mesma coisa, cinema não é literatura, e ele já não era mais o mesmo.
Curioso, entretanto, é observar que o mundo pintado com palavras por Fitzgerald, tem muito a ver com o mundo de hoje, dominado por pessoas egoístas, que projetam nos outros sua própria felicidade, ainda que para isso tenham que dominá-los e possuí-los. Mundo das modernas tecnologias que, se proporcionam conforto ao invés de aproximar distancia as pessoas. Mundo onde a dança ainda provoca frêmitos, ainda que ao embalo de músicas menos inteligentes e menos interessantes. Mundo onde o prazer maior da vida parece mesmo ser o sexo e o deleite em entornar garrafas e mais garrafas, não exatamente de um bom uísque, um bom vinho, um inebriante champagne, mas uma cervejinha bem gelada.

Enfim, como há quase cem anos, vive-se apenas para o hoje, não se tem certeza de absolutamente nada, embora se se acredite saber de tudo. A noite continua sedutora, os romances uma fuga, e o amor, terrivelmente decepcionante e destruidor. Como se vê nada mudou. O mundo de Fitzgerald e os de sua geração, de lá para cá, não saiu de cena.

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“Não se escreve por se querer dizer alguma coisa, escreve-se porque se tem alguma coisa para dizer” – F. Scott Fitzgerald.

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