quarta-feira, 31 de julho de 2013

A VIDA QUE TU AMAVAS

A luz do banheiro permanecia acesa, como estivera a noite toda.
O rádio continuava ligado. E já se fazia três dias.
As moscas mantinham uma trajetória de idas e vindas, da cozinha para o quintal e vice-versa, passando desinibidas pela janela sobre a pia.
E era exatamente através dessa fresta para o mundo lá fora que a existência podia ser observada em suas doze horas de vida e suas doze horas de morte.
O cachorro, o único ser naquela casa que parecia interagir com a realidade, ora deitava-se à soleira da porta, ora, no sofá da sala, rasgado e sujo, de onde perdia alguns segundos da sua preciosa ociosidade, a observar indiferente aos programas de televisão, mas a se considerar o seu entusiasmo, ele certamente a desligaria, caso soubesse utilizar o controle remoto, esquecido ao seu lado.
E no banheiro, o homem olhava-se no espelho, tentando entender como foi que chegara àquela situação.
A sua cama desfeita, as suas coisas: livros, roupas, calçados, objetos de uso pessoal, em sacolas de plásticos, em caixas de papelão, das quais ele planejava dispor.
Os seus discos estavam na prateleira que deixara ali mesmo, no corredor, desde o dia em que se mudara para aquela casa.
Lembrava-se daquele dia sempre que uma angústia sufocava-lhe o peito e subia até a garganta, obrigando-o a fechar os olhos, como se no silêncio e na escuridão aquela vida que se tornara maldita deixasse de existir.
Mas não era assim. Jamais fora assim. Porque o sofrimento humano é algo que não se cura apenas com vontade.
E nesse momento, antes que essa dor o conduzisse à lembrança da morte da esposa, apenas dois dias depois que se mudara para aquela casa, o alarme do seu carro, esquecido na garagem disparou.
E aquela repetição infernal de som, o fez levar as mãos à cabeça e o colocou para fora do banheiro.
Quando o viu surgir na sala, o cachorro saltou do sofá e veio ao seu encontro. Mas como sempre, o dono preferiu ignorá-lo, e sentou-se no sofá, por sua vez, olhos voltados para a tevê, sem prestar atenção, todavia, no programa que era transmitido naquele momento.
Na camisa que o homem vestia faltavam dois ou três botões, mas isso parecia não incomodá-lo. A barba de uma semana sujava o seu rosto, evidenciava suas rugas, aumentava a sua idade, a tristeza do seu olhar, mas isso também parecia não incomodá-lo.
Nada, enfim, parecia incomodá-lo. A não ser o tempo e o seu próprio respirar do qual ele não conseguia desviar a atenção.
Não saberia precisar quantos dias que não colocava os pés para fora de casa, que não via outro pedaço de céu, além daquele que podia observar da janela da cozinha todas as manhãs, quando os primeiros raios de sol estouravam em seu rosto cansado, num esforço quase inútil para despertá-lo do torpor, da indiferença na qual se via envolvido ininterruptamente, para trazê-lo de volta do mundo das sombras onde escolhera viver.
Houve dias em que se preocupara com o modo como contaria ao filho distante que a mãe houvera falecido. Mas isso agora já não era motivo de preocupação, porque a distância, a falta de contato e notícias, a indiferença do filho para com ele haviam acabado por convencê-lo de que antes da mãe, estava ele próprio morto para o filho.
E não poderia culpá-lo por isso. Não poderia acusá-lo de nada, porque o filho jamais experimentara de fato, a fascinante experiência do que era ter um pai.
Mas aquele homem condoído em seu remorso, também não poderia se culpar. Não. Dera ao filho o que de seu pai recebera. Não conhecia as coisas de outra forma. Eis o motivo pelo qual jamais se dispusera ao diálogo porque não sabia como iniciá-lo, jamais tomara a iniciativa de expressar um gesto de carinho e atenção para com o filho agora distante.
Homens são fortes, homens não se dobram. Homens não choram. Homens suportam calados a solidão e a derrota. Homens não admitem dúvidas, erros, fraquezas, sentimentos. Seu pai lhe ensinara tudo isso. E ele acreditara fosse mesmo tudo verdade, e só tivera o trabalho de transmitir ao filho esses mesmos valores.
Aos 54 anos ele descobrira que tais valores não resistem à realidade da vida humana. Entendera com dor no coração e lágrimas nos olhos que a única maneira de se conhecer a si mesmo é quando a vida chama à derrota, coloca no chão, aniquila, de modo que ao olhar em redor, nada se encontra, e esse é o momento em que a única rota de fuga é em direção a si mesmo. E é quando se descobre o que se de fato é. E isso quase sempre decepciona terrivelmente, produz na boca um fel amargo demais, impossível de solver, uma dor no peito, irresistível, que põe de joelhos, fecha os olhos e faz suplicar por misericórdia.
E esta era uma experiência que aquele homem viúvo, derrotado no amor, fracassado nos negócios experimentava em toda a sua intensidade quase todos os dias, principalmente pela manhã, quando os primeiros raios de sol o despertavam para a realidade solitária, deprimente, angustiante, amorfa, que era sua vida. O tirava da cadeira em que passara a noite, sentado, dormindo e acordando tantas vezes que mal podia precisar quantas. E com grande esforço se submetia à necessidade de ir ao banheiro, encarar o espelho, lavar as mãos, o rosto que algumas vezes lhe custava acreditar que lhe pertencesse. E recomeçar a rotina de mais um dia. Aguardando o telefonema do filho distante, a carta da empresa atendendo ao seu humilhante pedido por readmissão.
Não. Já não eram sonhos, porque estes só fazem sentido quando nascem da esperança, algo que aquele homem jamais experimentara, desconhecia simplesmente, porque em toda a sua vida tivera a certeza de que apenas se obtém vitórias por merecimento.
Então ele ligou o seu aparelho de som e colocou seu disco favorito para tocar. Já eram 6 da tarde. E ouvindo aquelas músicas, o homem voltava a viver, porque se esquecia de si mesmo.
Lá fora, no terreno em frente sua casa, o vento balançava com ternura os galhos da velha e enorme paineira. Mas esta cena bucólica escapava aos olhos do homem.

FIM.
*Publicado na edição No. 114, Agosto/2013, do Jornal Aquarius.

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