domingo, 18 de agosto de 2013

A FOME COMO DISCIPLINA

Minha filha querida,
Aos 16 anos, eu ainda não trabalhava, para os outros. Eu ajudava meu pai no escritório e, quando não, ajudava minha mãe, já doente, nas tarefas do lar.
Eu ainda não namorava, não havia beijado ninguém com aquele sentimento que faz acender em nós o fogo serpentino.
Eu também ia à escola, mas não aprendia nada, porque, não entendia simplesmente o que era ensinado, porque, diferentemente de hoje, lamento dizer, era sim ensinado.
Aos 16 anos, eu jogava futebol, que era o que todo moleque na minha idade fazia, nas horas ociosas, que, naqueles dias, por sinal, eram muitas.
Eu não escrevia. Sério! Nada mesmo, nem sabia o que era isso. Não sabia que era possível.
E minha primeira overdose, e única, foi de Baudelaire.
Hoje, creio impossível descrever objetivamente o que eu era aos 16 anos. Porque nem eu sei o que eu era. Se é que eu era: alguma coisa.
Os dias eram assim: Nada.
Passavam simplesmente, cuja única ação que se justificasse perante a razão humana (assim espero) era juntar moedinhas, trocos da padaria, do supermercado, pra comprar aquele tênis mais barato que durava tão pouco, aquela camiseta da liquidação da Pelicano, que encolhia e descorava na primeira lavada, e fazer aquele maldito e desejado corte de cabelo, que o barbeiro lá do bairro jamais acertava.
Ela se chamava Raquel, o meu amor escondido, jamais declarado, mas ela nunca soube disso. Porque ela nunca soube, na verdade, acho que jamais se interessou em compreender o meu olhar em sua direção, e o que ele dizia, tentava ao menos dizer.
Aos 16 anos, filha, eu nem me importava porque nem sabia o que era ser feliz.
Mas eu espero, é a única coisa que ainda desejo nesta vida, que você saiba.
Beijinho.

PS: Agora vou almoçar. É domingo. Já passa do meio dia.


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