segunda-feira, 5 de agosto de 2013

DO OUTRO LADO DA RUA, MORAM OS FORTES

Após o terceiro pôr do sol, eu interrompi a contagem dos dias. O cenário à minha volta era desolador. Escombros, poeira, cheiro de morte, cinzas e fumaça. E isso era o de menos. O que mais chamava atenção, entretanto, era imaginar que aquele lugar até alguns dias fora um bonito e animado restaurante com música ao vivo. Antes da destruição era frequentado por gente importante, de posses, essas pessoas que se destacam na multidão, pessoas que, quando observadas, exalam ares de poder e ambição desmedida. Mas depois que seu proprietário fora levado pela milícia e o local expropriado em nome da revolução, o ambiente já não era mais o mesmo, a clientela também não. De modo que as coisas, simplesmente, já não eram mais as mesmas, sob nenhum aspecto, e, naquele momento, do qual agora me recordo escondido que estou atrás do balcão do que um dia fora o caixa do estabelecimento, agora transformado em um imenso refeitório popular e nada mais que isso.

Membros da milícia a serviço do movimento revolucionário em curso, músicos desqualificados, ainda que cheios de garra e imbuídos de boa vontade, mas que para a ignorância disfarçada de generosidade daquela gente que os aplaudiam com entusiasmo e os veneravam como deuses descidos do Parnaso, adquiriam o status de gênios, e o mesmo se aplicava aos poetas, escritores do nada, ilusionistas do pensamento, malabaristas políticos, e toda a forma de especialistas em aderirem à causa da maioria e a vestirem sem nenhum constrangimento a camisa do time que está ganhando.
Aqui uma observação: nessa reunião inusitada de grandes filhos da puta destacavam-se os jornalistas, os artistas da moda, do teatro (com o devido perdão ao teatro) e da tevê. E os jogadores, digo, atletas do futebol profissional, sempre dispostos a um sorriso diante das câmeras dos fotógrafos.
Como era possível que essa gente se preocupasse com tais coisas era muito fácil de entender. A destruição, a morte, o medo, a privação, tudo era necessário em nome da causa maior que, em outras palavras, significava apenas o interesse correspondido de alguns e a satisfação efêmera de muitos.
Porém, adianto-me à pergunta que o atento leitor certamente fará mais adiante: Com os quais destes eu me identificava, me reunia, estava enfim envolvido? Nenhum. Alguns meses depois da empolgação inicial de empunhar metralhadoras, eu já não lutava por meu país, mas, por minha cidade, que era onde eu vivia. Afinal, o país nunca soubera de minha existência, mas a cidade, de alguma forma sim, ainda que não desse muita importância para isso.
Em verdade, eu lutava mesmo era pela única coisa que me restava após ter perdido em meio àquelas atrocidades estúpidas, os meus pais, irmãos, amigos, e desafetos, sem os quais não se encontra certos motivos para continuar a luta inadiável por nossos sonhos cuja única finalidade, quero crer, é justificar nossa existência em um mundo imbecil e doente feito este. O certo é que eu lutava apenas por mim mesmo. Era esta e nenhuma outra a camisa que eu vestia.
Por isso já me causava alguma preocupação o fato de, preso àquele lugar, não ter o que comer, e muito menos água (cujo fornecimento havia sido interrompido) para matar a sede.
Os orgulhosos preferem a morte à falta de dignidade. Eu, porém, estava disposto a esperar pacientemente a chegada inevitável da distinta dama para enfim conhecer a sua feição. Se de fato causava medo, se era tão repugnante quanto declamada em verso e prosa. Se tinha mãos gélidas, esquálidas, olhar sereno, fixo, introspectivo, fatal.
Passava as noites a pensar se eu poderia vencê-la. Meu plano era atraí-la para junto de mim, colocá-la ao meu alcance, então veríamos quem de nós era o mais forte. À parte a estupidez deste pensamento, era ele que me mantinha de olhos abertos, e que me fazia não esquecer de respirar, após longos minutos, horas talvez, olhando para o nada ou para alguma coisa sem a menor importância ou significado, geralmente um objeto, que depois de tanto observado, deformava-se adquirindo feições repugnantes, ora de pessoas humanas, ora de animais, algo que de certa forma me consolava ante a perspectiva de que mesmo naquele inferno, eu não estava só, completamente só.
Mas então algo espetacular aconteceu por volta do quinto dia, sim, eu presumo, o quinto dia.
Por algum motivo que a Ciência ainda haverá de explicar o sol não se levantou.
C O N T I N U A ...


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