quinta-feira, 26 de setembro de 2013

MEU AMIGO CHARLES

Poesia é Vida: Primeiro a alma, depois o corpo. A primeira, nunca morre – Geraldo J. Costa Jr. – 26/07/2013.
 

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

IT, MISSA EST

Percebi que ele já se fazia distante. Se não em pessoa, ao menos em espírito. Porque se tornara distante o seu olhar, eram sucintas as suas palavras, comedidos os seus gestos, de modo que ele parecia desejar que sua presença se passasse despercebida. Eu ainda estava de joelhos, as mãos unidas, os cotovelos apoiados no encosto do banco da frente. Confesso que preferia manter os olhos fechados, não porque isso proporcionasse melhor ambiente à oração à qual, naquele momento, eu me esforçava por me dedicar. Mas é porque naqueles dias, não ia lá muito bem o meu relacionamento com o Nosso Mestre, de modo que olhar para o altar e subir os olhos calmamente até a presença do meigo Senhor, me causava certa incomodo.
Porém, uma perturbação maior me causava a possibilidade da vida me privar da convivência do meu melhor amigo, fiel e confessor, cúmplice e irmão de fé,  por um motivo tão estúpido quanto a maldita guerra.
Naquela hora, que se parecia a derradeira, não me furtei ao direito de lhe questionar:
“Nos vemos?”. – eu disse assim mesmo, contrariando a boa norma gramatical, para a qual jamais dera muita importância.
Ele me olhou, antes de esboçar qualquer menção de resposta. Olhou-me de novo, demoradamente, mansamente, como era de seu feitio, e enfim, me respondeu:
“Sim. Nos vemos”.
Mas não disse quando, nem como, nem onde. E esse fora o nosso último contato, porque na manhã seguinte, enquanto eu cuidava de minhas obrigações, ele se fora, com todos os seus pertences, ou seja: seu breviário, suas duas ou três mudas de roupas, seus livros preciosos de um certo educador francês; enfim,  sua esperança, eu creio, de que, de algum modo, sua bondade e conhecimento pudessem dissipar um pouco a miséria que uma guerra representa na vida das pessoas, que a ela se vêem envolvidas sem saberem por qual motivo, se é que existe algum.

CONTINUA...

domingo, 22 de setembro de 2013

TRUCO!

Eram assim todas as tardes, enquanto na cozinha, a mesa farta de pães e doces, e massas regadas a vinho de excelente procedência e qualidade, eles elaboravam as suas histórias, os seus golpes, e crimes, enquanto disputavam intermináveis partidas de truco.

Aldo não queria que eu participasse dos negócios da família. Não fica bem pra você – ele dizia – Não deve sujar-se tão cedo.
Ele não queria que eu perdesse a ingenuidade da infância. Não percebia talvez que isso não faria diferença com o tempo.
Você ainda não tem pelos no rosto, Édi – ele me dizia. – Portanto, não deve sujar as mãos, nem com o vermelho do sangue derramado, muito menos com o aroma asqueroso e desprezível de um pedaço de papel cobiçado por todos.
Diziam naquele bairro que Aldo era bom sujeito. Ele vestia-se com elegância. Com ternos impecáveis, sapatos brilhantes e gravatas das mais caras. Tinha o cabelo sempre bem aparado, embora para a frustração do seu virtuoso barbeiro, o bom e velho Toni, Aldo preferia manter o penteado escondido por modesto chapéu panamá, que destoava um pouco da sua bem cuidada aparência.
Ele sempre me dava roupas, porque dizia que um homem bem vestido é mais respeitado que seu próprio caráter e conhecimento. As pessoas julgam pela aparência, Édi – ele me dizia – E é assim desde que o mundo é mundo, e Deus cometeu o desatino de colocar o ser humano sobre esse chão abençoado pela natureza.
Aldo amava a natureza. Em tempo: Preferia os animais aos seres humanos. Uma árvore, com seu tronco forte e sua copa glamorosa, era capaz de comovê-lo muito mais que o choro de uma criança, o olhar de uma mulher à procura de atenção.
Eu me questionava se sempre fora assim. Sempre que passava minhas tardes sob a figueira, eu me questionava sobre estas e muitas outras coisas a respeito do padrinho.
Era ao menos trinta anos mais velho que eu. Mas não sei por que quando olhava para Aldo, eu me sentia como se olhasse para um meu irmão. Irmão de sangue – devo explicar – para que não paire dúvidas a respeito.
Lembro-me daquele dia em que os rapazes chegaram ao amanhecer. Havia grande agitação. Eles discutiam entre si. E, ao invés da cozinha, ocupavam a sala, onde geralmente se reuniam para dividir os lucros e festejar com as garotas o êxito de mais um trabalho. Mas naquela manhã não havia garotas e nem sussurros. Nem copos caindo no chão, nem garrafas estourando contra a parede. Porém, havia muita discussão. Ofensas e alguns disparos de armas de fogo em intervalos de tempo mais ou menos regulares. O primeiro deles contra o lustre que se espatifou espalhando sujeira por toda sala inclusive sobre o sofá. Porque foi o cenário que encontrei, quando finalmente tive coragem de sair do quarto para ver o que estava acontecendo, espiando pelo vão da porta.
Mas antes, enregelei-me todo, quando um dos rapazes disse lá da sala: “E o garoto? Que faremos com ele?”.

Pensei esconder-me no guarda-roupa, debaixo da cama, ou pular a janela. Foi o que pensei. Até me lembrar do que Aldo sempre me dizia: Quando você crescer, e enfrentar uma situação difícil, não pense o que Deus faria em seu lugar. Pense o que eu faria.
Foi por isso que deixei o quarto, naquela manhã, e caminhei até a sala, de encontro ao meu destino.
Alguns rapazes estavam caídos no chão, outros sobre o sofá e as poltronas. Alguns já entregues ao silêncio da morte, outros ainda gemendo. E pela primeira vez na minha vida eu seria incapaz de dizer o nome de cada um deles. Não porque não lembrasse.
Sangue havia por toda a parte. Sangue e destruição. Medo e morte. E estas  coisas adquirem outra dimensão, assustadora e insuportável quando se têm apenas 11 anos de idade.
Ocorreu-me falar com o padre Albino. Mas a linha do telefone estava cortada, e eu realmente já não tinha nenhuma certeza de que conseguiria deixar aquela casa. Olhei pelo grande janelão da sala, e percebi alguma movimentação no jardim. Era o silêncio envolvendo aos poucos todo aquele ambiente em uma atmosfera incômoda e excitante ao mesmo tempo de apreensão e medo.
Os cachorros não responderam ao meu assovio. Os criados não transitavam pelo gramado, não conversavam entre si porque lá não estavam para reclamar das atitudes do padrinho e sua costumeira falta de generosidade.
Pela primeira vez desde que Aldo me arrancara dos braços do meu pai e me levara consigo, naquela noite da qual não me esqueço, dominada pelo cheiro de pólvora tanto quanto aquela manhã, eu me vi só. Completamente só. E sem destino.
Faz hoje10 anos que a cada 17 de julho eu visito esse túmulo de mármore carrara onde não há nenhuma foto. Apenas um chapéu panamá e um charuto, ambos de bronze, no lugar do que seria uma inscrição.
Pensei que tanto tempo depois eu me lembraria de Aldo, seu olhar e seu sorriso, seu abraço forte e a força descomunal do seu braço direito que lhe permitia me levantar pela bunda com a palma da mão. Nem o seu olhar, nem o seu sorriso, nem a sua força e a sua generosidade, sua sinceridade, às vezes mal compreendida e jamais aceita pelos que o cercavam.
Mas o seu silêncio, a escuridão que tomou conta dele e de mim e de tudo à nossa volta, no instante em que fui o último a dirigir-lhe um adeus, momentos antes do agente funerário fechar o caixão de zinco por meio do qual o transportaria até a agência funerária.
Hoje, sua poltrona me pertence. E a sua caixa de charutos, eu guardo na mesma gaveta, fechada a chave, como ele fazia.



sexta-feira, 13 de setembro de 2013

EPIFANIA

Os amores possíveis não são verdadeiros. - g.j.c.jr.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

CERIMÔNIA. ACESSE E LEIA!

Reprodução
Caros amigos leitores. Disponibilizei por um tempo determinado a novela CERIMÔNIA de minha autoria para a apreciação de todos. Aproveitem! Basta acessar: http://cerimonianovela.blogspot.com.br/
Grato pela atenção, abraços!

Geraldo J. Costa Jr.

domingo, 8 de setembro de 2013

ESCOLHAS

Há poemas, contos, romances, novelas, músicas, telas, esculturas que se faz com a mente, e outras, com o coração, apenas. Com a primeira se conhece a realidade, com o segundo, o Inferno. Mas, mesmo deste, todos retornam, mais amplos, mais limpos, mais fortes, porque afinal, quem é que morre? - Geraldo J. Costa Jr. - 08/09/2013

domingo, 1 de setembro de 2013

LINDO SOL DE PRIMAVERA

Quando entrar setembro e a boa nova andar nos campos
Quero ver brotar o perdão onde a gente plantou juntos outra vez
Já sonhamos juntos semeando as canções no vento
Quero ver crescer nossa voz no que falta sonhar
Já choramos muito, muitos se perderam no caminho
Mesmo assim não custa inventar uma nova canção que venha nos trazer
Sol de primavera abre as janelas do meu peito
a lição sabemos de cor
só nos resta aprender...
Chega setembro e a música Sol de Primavera, de Beto Guedes, lançada em 1980, e cuja letra reproduzimos acima, é a primeira coisa que vem à mente. E traz consigo lembranças de um menino que aos 11 anos de idade, cursando a 5ª. série do Monsenhor Martins tinha como única preocupação na vida não ficar no vermelho em Matemática.
Reprodução
O menino cresceu e 33 anos depois, cansado de brigar consigo mesmo, busca o que todo homem na casa dos 40, imbuído de sensatez, procura fazê-lo: aquietar o seu espírito, equilibrar sua mente, valorizar apenas aquilo que a vida oferece de bom e de bonito.
E olha que são tantas coisas que passam despercebidas dos nossos olhos sempre voltados para aquilo que achamos interessante, novidade, e oportuno à nossa satisfação pessoal efêmera e pueril.
Afinal, não queremos, não podemos ficar para trás e esquecidos, mesmo que para isso tenhamos que deixar de ser humanos e sermos manequins para continuarmos expostos na vitrine da sociedade que exige cada vez mais de nós.
Mas não é isso que conta para a nossa felicidade. Se o inferno de nossas vidas são os outros, a felicidade está em nós. Esta é a boa notícia. Não dependemos de ninguém para sermos felizes. Ninguém. Dependemos apenas de nós mesmos.
Meu pai um dia escreveu que logo às sete da manhã recebia à sua porta o jornal, como a um amigo querido a visitá-lo todos os dias, contando-lhe as coisas desta vida, a confortar a sua ânsia de saber. Não se lembrava quando havia adquirido o hábito, talvez, na juventude, tanto tempo fazia, e que se acostumara toda manhã tomar o seu cafezinho com ele, o jornal, aberto ao lado, enquanto devorava as novidades antes de ir ao trabalho.
Novidades que hoje estão a um clique das teclas dos computadores que já trazemos nos bolsos. Não é preciso esperar pela manhã. E o cafezinho pode estar ao alcance das mãos, deteriorando-se e perdendo seu sabor em uma cafeteira elétrica.
Todos nós temos o nosso tempo. O nosso próprio tempo, como já dizia o Renato. E talvez a maior dificuldade que encontramos para sermos felizes é entendermos e aceitarmos isso.
Minamos a nossa saúde, sem ao menos percebermos, quando nos irritamos com a música que toca no rádio e não nos agrada, com a derrota do nosso time, como se os jogadores e dirigentes soubessem que existimos. Com o comportamento do colega de trabalho, de escola e mesmo de um membro da família, esquecendo-nos muitas vezes de que a justiça da vida consiste no fato de que colhemos o que plantamos.
Sim, não podemos ser indiferentes e omissos, mas também não devemos atrair para nós problemas e responsabilidades que não nos pertencem.
Acho que deixamos de ser felizes, quando desejamos viver aos 40 anos como se tivéssemos 20, quando exigimos que o mundo hoje, seja o mesmo de quando tínhamos 10 anos.
Deixamos de ser felizes, quando nossos olhos se voltam para a vida alheia e esquecemos olhar para dentro de nós mesmos, porque em nossa consciência está o registro inexorável de todos nossos acertos e erros. Os primeiros a nos estimular o aperfeiçoamento, os segundos, a nos exigir correção.
Precisamos ser um bom profissional, é claro, mas não podemos nos esquecer que antes de sê-lo, precisamos ter bom caráter, porque somos Espíritos eternos, antes de sermos humanos, antes ainda de sermos trabalhadores, professores, políticos, atletas e doutores.
Que o sol de Primavera, que é o mesmo sol de sábado, aquele jamais ausente como dizia o Seu Geraldo, por acaso nascido em Setembro, nos traga luz e esperança. Estímulo para plantarmos e semearmos o que é bom, o que realmente vale a pena, o que está em acordo com a nossa consciência, o único tribunal da vida que não podemos ludibriar.
Sejamos felizes com aquilo que somos e aquilo que temos, porque o que temos o tempo levará, e o que somos a nós pertence.

Afinal já choramos muito. A lição sabemos de cor. Só nos resta aprender.