quarta-feira, 25 de setembro de 2013

IT, MISSA EST

Percebi que ele já se fazia distante. Se não em pessoa, ao menos em espírito. Porque se tornara distante o seu olhar, eram sucintas as suas palavras, comedidos os seus gestos, de modo que ele parecia desejar que sua presença se passasse despercebida. Eu ainda estava de joelhos, as mãos unidas, os cotovelos apoiados no encosto do banco da frente. Confesso que preferia manter os olhos fechados, não porque isso proporcionasse melhor ambiente à oração à qual, naquele momento, eu me esforçava por me dedicar. Mas é porque naqueles dias, não ia lá muito bem o meu relacionamento com o Nosso Mestre, de modo que olhar para o altar e subir os olhos calmamente até a presença do meigo Senhor, me causava certa incomodo.
Porém, uma perturbação maior me causava a possibilidade da vida me privar da convivência do meu melhor amigo, fiel e confessor, cúmplice e irmão de fé,  por um motivo tão estúpido quanto a maldita guerra.
Naquela hora, que se parecia a derradeira, não me furtei ao direito de lhe questionar:
“Nos vemos?”. – eu disse assim mesmo, contrariando a boa norma gramatical, para a qual jamais dera muita importância.
Ele me olhou, antes de esboçar qualquer menção de resposta. Olhou-me de novo, demoradamente, mansamente, como era de seu feitio, e enfim, me respondeu:
“Sim. Nos vemos”.
Mas não disse quando, nem como, nem onde. E esse fora o nosso último contato, porque na manhã seguinte, enquanto eu cuidava de minhas obrigações, ele se fora, com todos os seus pertences, ou seja: seu breviário, suas duas ou três mudas de roupas, seus livros preciosos de um certo educador francês; enfim,  sua esperança, eu creio, de que, de algum modo, sua bondade e conhecimento pudessem dissipar um pouco a miséria que uma guerra representa na vida das pessoas, que a ela se vêem envolvidas sem saberem por qual motivo, se é que existe algum.

CONTINUA...

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