sexta-feira, 25 de outubro de 2013

FACE or BOOK

Qual o pretexto que o faz ir para frente do computador? Trabalho? Estudo? Aquela música que você jamais encontrará de novo nas rádios, exceto se você, feito eu, ouvir o Programa do Jota Flores pela Rádio Clube de Rio Claro AM 850, viajando... viajando...
Vá lá, Vsa., voltemos ao computador. Essa máquina monstrenga, gigantesca e inacessível há pouco mais de 30 anos, e que hoje, se a gente bobear, acaba cabendo na palma da mão. E vai mesmo. Logo, logo. Duvida?
Bem, há outros motivos menos dignos para ligar o computador. E acho que não preciso tecer maiores comentários a respeito, não é mesmo?
Fiquemos então com as redes sociais. Não que elas se constituam motivos mais dignos que os redtubes, tubegalores e as brasileirinhas da vida. Claro que não. Mas acontece que ali, no face to face das redes sociais, nem tudo é verdade, ou é o tanto que o mundo virtual permite. Mesmo assim, para o bem e para o mal, você pode expressar sua opinião, expor preferências, compartilhar afinidades, e destruir reputações. E fiquemos com o lado bom da história: construir sonhos, que duram enquanto dure a sua navegação.
Perder emprego por causa das redes sociais? Sim, também é possível. Viram o que ocorreu ao inofensivo funcionário da Casa Branca, recentemente? Pois é. Foi falar o que não devia. 
Vê-se que o espaço virtual não é tão assim democrático, como apregoam alguns mais empolgados. É que ele é manipulado pela mente e coração humano, que ainda não tolera certos comportamentos que, direta ou indiretamente, de alguma forma contribuam para o abalo do Sistema. Trocando em miúdos: não tolera interesses contrariados. Ainda mais quando tais interesses estão carne e osso envolvidos com poder: o político e o econômico.
Os tabletes prometem enterrar os computadores de mesa. Já abalaram terrivelmente a sempre boa reputação dos livros impressos. Imagine o tamanho da tragédia. Um país feito o nosso, constituído de gente (sim, é verdade!) que em sua maioria é absolutamente avessa ao livro, que repudia a leitura, a menos que ela seja sobre sacanagem, receita de bolo, bilhete da loteria e palavra cruzada... Ah, horóscopo, ia me esquecendo, e resultado da rodada do final de semana, do futebol, claro. Capítulo de tele-novela? Chega de tragédia.
Sim, caro leitor, gerações perdidas para a falta de hábito da leitura de um bom livro. E olhe que eles não faltam. Nunca se publicou tanto neste país. Autores nacionais e estrangeiros. Tem de tudo. Do mais ilustre ao menos conhecido. Do melhor ao pior. Salgado o preço do livro, você pode estar pensando, enquanto o bonitão aqui, se esforça para encontrar argumentos que o estimulem a tirar a bunda da cadeira, os olhos do maldito computador e sair à cata de um bom livro. Acho que não vou conseguir. Mas enquanto você se decide, finado leitor, eu persisto na minha hercúlea e inglória batalha.
Já decidiste? Vou lhe dar uma sugestão. Você não precisa de um livro novo. A menos que seja um A Tarde Demora a Passar ou O Intermediário, ambos do papai aqui. Por R$15,00 você leva qualquer um deles. Aproveite, preço de promoção. Vou lhe dar meu telefone... Depois, mais adiante, ao final do texto, prometo.
Muito bem, meu caro e paciente leitor, como ia lhe dizendo, para se entregar ao fascinante mundo da leitura que um livro impresso pode lhe proporcionar, você pode optar por uma biblioteca municipal. Faz a fichinha, retira o livro, e o devolve na data aprazada. Não vai fazer feito alguns sujeitinhos metidos a cronistas e que sempre acabam atrasando a devolução. Perdoe-me, Madalena! Prometo que será a última vez.
Outra boa opção são os sebos. Que cidade não os tem? Geralmente bem instalados, e onde trabalham pessoas que de fato gostam e entendem de livros, digo, histórias, poesias e autores.
Tá, finado leitor, agora me diga que você pode baixar pela internet uma infinidade de livros que se acham em domínio público.
Pois vou lhe dizer uma coisa. Estou com Pergunte ao Pó do colega umbralino John Fante, no disco rígido do meu velho, virulento, próstata fundida, diabético assim, feito eu, e receio que assim feito eu, cupinizado da cabeça aos pés, pelo inseto letal da família, mais conhecido como câncer. E olha, deixa eu lhe dizer uma coisa, uma grande novidade, uma bombástica surpresa: até agora, coleguinha, não li uma linha sequer do fossilizado Ask the Dust. Porque todo livro transformado nos pdf’s da vida, para mim, é como um livro fossilizado.
Aproveitando, inclusive, se alguém tiver Pergunte ao Pó, ou qualquer outro livrinho do Fante, no formato tradicional, impresso, e quiser doar-me ou emprestar-me, por favor, estou às ordens. Vou lhe informar meu endereço, boa alma. Mais adiante. Ao final do texto.
Livros tradicionais são ótimos, entre outras coisas, porque independem de senhas, logins, spywares, avast’s da vida, e energia elétrica e alguma paciência para conviver com modorrentas conexões. Basta uma boa luz, um cantinho, silêncio e solidão.  Tudo o que a gente menos tem hoje em dia, né? Pobre livro!
Minha ideia inicial era, acho que já deu pra perceber a mancada, comentar sobre a influência e dominação do maldito computador e das redes sociais em nossas vidas, cada vez menos nossas. Já não vou muito com a cara desse sujeito de nome PC, e depois que durante a narrativa, deparei-me com o estrago que ele anda causando no hábito da leitura de livros que o brasileiro, sabe-se lá desde quantas gerações ainda não possui, fiquei mesmo “P” da vida.
Todos os dias, acordo no cafofo nojento e pequeno onde moro, e a primeira coisa que vejo é a esfinge eternizada em um bonito quadro pela minha amiga do coração, Rosana F. E depois, os livros na velha estante. Livros que adquiri, roubei (confesso, e pra isso tenho cem anos de perdão, espero); livros que emprestei e não devolvi; livros que foram de meu pai; é sua valiosa herança. Não me deu riqueza, mas me ensinou a pensar, a não aceitar o que está escrito e o que dizem as pessoas, por meio da palavra escrita, sem antes checar as fontes, os interesses contidos por trás daquela informação que tanto pode estar em um romance, uma novela, um poema, como em uma matéria jornalística, um tratado, um depoimento, um ensaio. Nunca demais lembrar o que dizia o poeta austríaco Hugo von Hofmannsthal (1874-1929): Nada se torna realidade na política de um país se antes não está presente, como espírito, na sua literatura”.
De minha parte, e computadores fora, acredito que a tragédia humana mais significativa dos nossos tempos, é que os livros, não importam onde estejam ou sob a guarda de quem se tornaram, infelizmente, sem que nenhum esforço contrário houvesse de nossa parte, como cadáveres insepultos. Da ignorância que sua ausência em nossas vidas nos causa, é que se iniciam a injustiça em todas as suas faces, é que determina essa alienação atroz que deforma a mente e torna o coração insensível e os olhos cegos.


PS : Ah, o meu endereço e telefone? Xi, esqueci. Faz assim leitor: Aguarde até a próxima crônica, por esses dias. 

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