quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

O SR. MILLER VAI AO PARAÍSO

Ao menos para Alfred Miller um novo espetáculo estava em cartaz todos os dias.

O velho cine teatro estava aos escombros, sujo, deteriorado, mas para o Sr. Miller, não. Aos olhos daquele bom homem e dedicado trabalhador o ambiente era o mais agradável possível. O prédio parecia novinho em folha, estava perfumado, as poltronas intactas, os tapetes dos corredores limpinhos, como que recém comprados. Não havia trinca nas paredes, os banheiros pareciam aqueles que se encontra na suíte presidencial de um hotel cinco estrelas, e os lustres recém saídos de algum salão nobre da era vitoriana diretamente para aquele lugar, que Alfred Miller embora, apenas um dedicado empregado, considerava também um pouquinho seu.
Os mais chegados a ele, diziam que mesmo depois de morto, Miller certamente continuaria ali, feito alma penada, que se recusa a enxergar o óbvio. Alguns de seus amigos sabiam que o envolvimento do Sr. Miller com aquele lugar, vinha desde os tempos que naquele prédio, depois reformado para abrigar o cine teatro, funcionara uma fábrica de tecidos, onde, não por acaso, Alfred Miller tivera na mocidade o seu primeiro emprego.
Todas as noites, às 8 em ponto, as luzes escapavam da platéia e refugiavam-se, fosse no palco, fosse na grande tela, e, aos olhos do público via de regra, impaciente e ansioso, desnudava um mundo no qual sonho e realidade, passado e presente se confundiam.
Mas a situação real era bem diferente. Não havia filme sendo projetado na tela, nem peça de teatro, ópera, orquestra ou espetáculo de dança se apresentando no palco. Não havia. E já se fazia muito tempo. Muitos anos, a bem da verdade.
Mas o dedicado Sr. Miller, alheio à poeira que se acumulava pelos cantos, aos estragos que o tempo causara àquele lugar, continuava mesmo assim, abrindo e fechando o estabelecimento todas as noites, e, durante o dia, cuidando da manutenção e da limpeza do lugar, da propaganda colocada em grandes e sugestivos painéis à entrada do prédio, também dos ingressos da bilheteria, que, em hipótese alguma poderia faltar. Do troco que a Srta. Luciene sempre reclamava, nas horas mais inapropriadas. Cuidava do conforto dos músicos, atores e atrizes, cantores e cantoras, dançarinas e dançarinos, comediantes, que, nos camarins, deliciavam-se com as frutas fresquinhas, a água gelada, os doces e salgadinhos que Alfred Miller tratava de providenciar com bastante antecedência, para que tudo corresse bem e na mais perfeita ordem, porque como lhe ensinara o seu experiente e generoso patrão, o Sr. Mancini, artistas e públicos deveriam estar bastante satisfeitos. Os primeiros para que desempenhasse bem o seu trabalho, sua arte. E os demais, para que retornassem sempre, se possível todas as noites, trazendo-lhes o abençoado e tão necessário dinheiro, o combustível indispensável que fazia toda aquela engrenagem funcionar. E, é claro, mais público. E mais público... Até que o Sr. Miller, olhando para o seu patrão dissesse: “Senhor, onde iremos colocar tanta gente?”.
Foi assim que encontramos Alfred Miller, sentado na primeira fileira à direita do palco, olhando para o mesmo, inebriado e absolutamente envolvido pela cena derradeira do 3º. Ato de A Tarde Demora a Passar, aquela em que o jovem escritor, derrotado pelo álcool, caminha trôpego pelo corredor do hotel, segurando uma garrafa, em direção à portaria, então invadida pelas primeiras luzes da manhã. Miller sentia-se um pouco aquele jovem escritor, podia mesmo reconhecer-se naquele olhar, em determinados momentos. Por isso não percebeu nossa presença. Estava emocionado, a cena parecia lhe dizer qualquer coisa de familiar, que durante muito tempo, ele se recusara a admitir. Causava-lhe certo incômodo, um nó na garganta, uma ligeira dor nos braços, uma agonia, um desconforto. Seus olhos marejados deixavam-lhe a visão embaçada, ora turva. Seus pés pareciam procurar o chão, e ele sequer sentia o assento e o encosto tão confortáveis que o veludo vermelho da elegante poltrona lhe proporcionava. Estava arcado para frente, apoiando-se com um braço, o direito, na vassoura, que ele desconhecia o motivo de tê-la apanhado em algum lugar que não saberia dizer qual.
Resolvemos dar-lhe tempo para que absorvesse aquela emoção, até que por iniciativa própria se desse por conta da nossa presença. E levou alguns minutos até que o fizesse. E quando o fez, sorrindo em nossa direção, disse emocionado:
“Não é lindo?”.


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