quarta-feira, 26 de março de 2014

O INTERMEDIÁRIO NA TV CLARET RIO CLARO


Nossa participação no programa Direto da Redação da TV Claret de Rio Claro, em entrevista concedida a jornalista Valéria Spinelli. Veja a partir de 1 minuto e 40

terça-feira, 11 de março de 2014

O PORTEIRO


Duas da tarde; quinta-feira; e ele se apresentou para a entrevista de emprego. Bem vestido, respostas na ponta da língua. Nada difícil. Nada que lhe exigisse muito para obter uma vaga de porteiro. Tinha alguma experiência, pouca, mas o suficiente para controlar a entrada e saída de pessoas, por uma porta, um portão, de um prédio qualquer, hospital, fábrica, motel, tudo anotadinho na prancheta.
Salário igual ao que ganhava no seu velho emprego. Mais horas trabalhadas, porém, ou seja, tirar mais vezes que o habitual a bunda da cadeira, vez em quando, para recepcionar alguém com aquele sorriso treinado, encantador, apalermado. Nem tanto. 
Subiu uma vez a escada em caracol. Respondeu perguntas. Desceu a escada. Subiu de novo. Lembrou do Mario que estava à procura de emprego fazia tempo. Letras, músicas e emprego; geralmente não funciona. Artista que o valha deve ser vadio. À disposição do ócio criativo, dos anjos e demônios, do céu e do inferno. Porque nunca se sabe quem baterá à porta. Quem? Pode entrar! Que seja qualquer um. Que seja!
Por isso é que não acreditava nenhum pouco que tivesse vocação para porteiro. Mas o amigo querido, amigo de infância, longa data, havia dado uma força, indicado, aquelas coisas que se faz por um amigo. E a moça do RH havia telefonado e confirmado a entrevista e o havia recebido muito bem, só não lhe servira café. Talvez viesse a servir se ele um dia se tornasse o chefe dos porteiros daquela conceituada empresa. Sabe-se lá...
A segunda vez que subiu a escada de caracol foi definitiva.
Com licença? Pode entrar. Obrigado. Parado diante da mesa, naquela posição formal de porteiro, pés unidos, mãos para trás, fronte elevada. Pode sentar-se. Obrigado.
Então se deu o diálogo:
O salário é... x reais. Doze horas trabalhadas. Esquema rotativo 4 por 2. Ou seja: Dois dias trabalhados de dia, mais dois de noite e folga dois dias. Entra às 6 da manhã, até às 6 da tarde. Ou às 6 da tarde, até às 6 da manhã. Pagamento até o quinto dia útil. Vale todo dia 23, nem antes, nem depois. Por enquanto você será reservista. Ou seja, vai para o posto que for necessário. Chega ao posto e toma ciência da situação. Confere o material de trabalho. E qualquer alteração anota no livro de ocorrências. E se não constatar ocorrência, anote do mesmo jeito. Uniforme limpo, passado, cabelo cortado, barba aparada. Se necessário, será advertido verbalmente, a segunda vez, por escrito, a terceira suspensão e a quarta, rua. Da quarta, não passa.
E a moça loira dizia isso com uma autoridade quase fascista, acompanhada do chefe, um sujeito bigodudo, que a tudo confirmava com absoluta convicção.
Ok. Pode se retirar. Obrigado. E desce a escada de caracol, e pára no balcão com a moça do RH. Uma lista de documentos a trazer no dia seguinte: RG. CPF, foto, atestado de antecedentes criminais, exame médico admissional. Enfim, horas depois, tudo pronto. Tudo na pastinha vermelha, bonitinha. Cabelo cortado parecendo um militar, barba feita, roupinha passada, sapatinho brilhando. Só restava apresentar-se às 8 da manhã, do dia seguinte, em ponto, pra pegar o uniforme e começar vida nova. Finalmente. Vida nova. E teria sido não houvesse ele despertado pelo gato intrometido da vizinha, lambendo-lhe a testa naquela manhã de quarta-feira de cinzas, o telefone a tocar...
Geraldo J. Costa Jr. é escritor. Autor de “A Tarde Demora a Passar” e “O Intermediário, ambos pela editora Lexia http://www.editoralexia.com/a-tarde-demora.html