quarta-feira, 9 de abril de 2014

LÁGRIMAS SILENCIOSAS, RISADAS CONTIDAS

Se você se propõe a escrever nunca se esqueça de colocar algumas folhas ao lado da máquina, porque tão longa e cansativa possa ser a viagem que, elas, as incorruptíveis folhas, rasas, profundas, brancas, coloridas, talvez saltem feito doidas da mesa para o carro da máquina sem que você perceba e suas mãos sintam.
Reprodução
Se escrever é de fato o que você deseja, nunca se esqueça de alguns maços de cigarros, guardados estrategicamente nas gavetas da mesa (recomendo a mais próxima possível das mãos) e, algumas caixas de fósforos, é claro. Ou então, se você não é dado a fumaça e muito menos ao cheiro quase sempre repugnante de uma erva tóxica sendo queimada, sugiro balinhas de hortelã.
Não se esqueça da garrafa de uísque (do bom, lógico! Mais ou menos não serve), ajuda a tornar as coisas mais claras pra você isso fará toda a diferença durante o processo criativo, proporcionando ao leitor o benefício incomparável da prazerosa leitora.
Mas se você não tem dinheiro o bastante para uma cavalar dose de uísque, talvez duas ou três doses, sejamos generosos à senhora inspiração, tudo bem, vale o chazinho da vovó que depois de umas duzentas, trezentas laudas rabiscadas fará o mesmo efeito.
Café? Nada disso! Respeite a sua saúde, café uma grande porcaria. Matou Balzac, e só serve para nos manter acordado. Mas isso de modo algum representa façanha, porque o grilo também serve. E também o gato intrometido da vizinha boazuda; que passa suas noites fazendo orgias no telhado, da sua casa. Da minha, melhor dizendo.
Mas isso tudo, meu caro, se você realmente – insisto – deseja escrever.
Ia me esquecendo de algo importante; muito importante: Você deve ter alguém no coração. Alguém para amar ou para odiar. Mas deve ter. E isso é algo precioso, raro, e tão difícil de ser conseguido. Principalmente no que diz respeito à primeira alternativa.
Porque, de outro modo, será impossível você justificar perante a sua megera consciência toda a fúria indômita que o faz atacar as teclas da máquina enquanto você vê, sente, cheira, respira e escreve.
Em geral, essa aventura é um processo longo, enganoso, penoso, laborioso e destrutivo que lhe custará pelo menos alguns anos de lucidez e aquela vidinha comum, amorfa, estática, suficientemente simples e resolvida, aparentemente bela, coloquial, que a maioria de nós, embora não confesse, deseja.
Porque meu amigo pense bem, se o que você deseja é realmente escrever prepare-se para o pior. Porque você terá de criar um mundo somente seu, com altos muros intransponíveis, e sua casa mental se chamará solidão, seus dias, fracasso, até que você em algum instante sentirá aquele gozo, prazer descomunal que geralmente vem acompanhado de lágrimas silenciosas e risadas contidas, aquele instante único que você se depara com a sua obra, a nascer, ganhar fôlego, gritar suplicante e submissa, sublime.

E você, ausente de seu corpo, como que pairando no espaço, acima de sua cabeça, ao lado de suas mãos que continuam a atacar as teclas da máquina, você percebe, sente, cheira e respira os acontecimentos, as emoções, o seu sangue em forma de suor a escorrer de sua face, confundindo-se diante de seus olhos com a fumaça do cigarro. E vê... as pessoas, as emoções, os objetos, os lugares e até os pensamentos alheios transformaram-se em palavras. E você com um pouco de sorte então se sentirá Deus, na medida em que você pode sê-lo; na exata medida: um poeta, um escritor.

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