quinta-feira, 15 de maio de 2014

LETRAS, PRA QUÊ TE QUERO?

Nunca acreditei que as pessoas realmente leiam o que escrevo. Se existem tais pessoas, elas se ocupam de fazê-lo aqui, neste espaço, mais que em qualquer outro onde eu já tenha publicado.
Muitas vezes já deitei o lápis após concluir a inglória tarefa e disse bastante convicto a mim mesmo: Chega! Eles não merecem o seu esforço. São seres humanos em sua maioria incultos, desinteressados, e mal educados. Eles preferem uma conversa fiada, uma cerveja gelada, um futebolzinho na tevê, do que perder cinco minutos do seu precioso tempo lendo, por exemplo, uma crônica de jornal, quanto mais um livro.
Não é preciso debruçar-se às grandes investigações para observar que, na era da imagem a linguagem escrita perde cada vez mais espaço. Tem sido assim na publicidade e na imprensa.
Artigo de autoria do tradutor Francis Lauer recentemente publicado no site Mídia Sem Máscara dá conta da agonia que vive os grandes jornais impressos dos Estados Unidos, que acusaram nos últimos cinco anos uma queda substancial de mais de 50% em suas receitas com publicidade. Não será preciso dedicar-se a um exercício de futurologia para vislumbrar cenário semelhante no Brasil, se já não ocorre.
Na busca por manter leitores e anunciantes e conquistar outros mais, os jornais ao longo do tempo, foram diminuindo o espaço ocupado pelo texto em favor da imagem, seja das fotografias que ilustram as reportagens seja dos anúncios publicitários veiculados.
Desde os tempos do canadense Toronto Star, regrinhas básicas das quais constituem o lead na produção de um texto jornalístico determinam, por exemplo, que as informações principais devem estar presentes no primeiro parágrafo, numa clara confissão por parte dos editores de que a maioria esmagadora dos leitores não chegará até a última linha da reportagem.
Na publicidade dos jornais e revistas ocorre o mesmo. Para justificar tal afirmativa, comparem-se os anúncios da década de 1970, 1980, por exemplo, com os de hoje. Mesmo aquelas peças publicitárias transmitidas na tevê, nos respectivos períodos.
Desde que inventada pelos sumérios, por volta de 4000 a.C., a escrita sempre foi sinônimo do poder, na medida em que por meio dela, se detinha a informação valiosa nas mãos de poucos. Pelo menos até Gutenberg.
A escrita permitiu ao ser humano ter conhecimento da História, ainda que contada pelos vencedores, e, portanto, distorcida. A orientar-se no âmbito religioso, a registrar as descobertas nos vários campos da Ciência. A consolidar ideias e ambições na área da política. A organizar a vida econômica e social da coletividade humana. E é claro, a possibilidade de viajar em sonhos e pensamentos através das histórias narradas por romancistas, poetas e filósofos.
A Literatura, capaz de produzir ainda volumosos livros (de ficção ou não), parece ser o último bastião de resistência para uma tendência que vai se tornando regra. Mas, fica a pergunta, esses livros de 800, 900 páginas, foram ou são realmente lidos? E por quem?
Quantos realmente leram Os Detetives Selvagens do finado Bolaño? Quem lê atualmente Ulisses, de Joyce? Ou Em Busca do Tempo Perdido, de Proust? A Montanha Mágica, de Thomas Mann, ou Os Miseráveis, de Victor Hugo?
Num país feito o Brasil, onde as pessoas geralmente são avessas à leitura, escrever com a pretensão de ser lido é utopia, e ser compreendido, é alucinação.
Salvo raras exceções, cuja iniciativa é da parte de abnegados professores e pais, e não de políticas governamentais, nenhum esforço se faz para habituar a criança ao hábito da leitura, despertando-lhe o prazer daí resultante.
Então, ao invés de se tentar levar Maomé à montanha, acha-se mais fácil despejar a montanha sobre a cabeça de Maomé (se me faço entendido), exigindo que escritores escrevam cada vez menos, ao mesmo tempo em que produzem um texto pobre literariamente, desde que seja de fácil entendimento, extraindo da Literatura a sua contribuição mais valiosa ao indivíduo que dela se ocupa que é o estímulo ao pensamento, sem o qual, ele não desperta a sua vontade, e, por conseguinte, a sua capacidade de agir, portanto, interferir no meio em que vive.
Sobretudo os romancistas da atualidade, independente de sua nacionalidade, e ainda que sob o pretexto de sobrevivência (porque geralmente bons escritores de fato não sabem fazer outra coisa), lamentavelmente resignados baixaram as guardas e se sujeitaram ao minimalismo paupérrimo em detrimento da verve criativa que valoriza a linguagem, única capaz de conduzir o leitor educado a uma dimensão fora da realidade que conhece e convive. Todo esse sacrifício, essa autoflagelação para conquistar leitores em potencial, e manter, ainda que a muito custe os preguiçosos e desinteressados, mas que ao menos ainda se dedicam ao contato com o livro, e a folhear umas páginas, ler uns períodos, um ou dois, quando muito três, de uma narrativa.
É muita pretensão de um escritor em conquistar leitores e obter o interesse e reconhecimento da parte destes, em uma época dominada por telefones celulares, automóveis, computadores, redes sociais, tevês a cabo.
A palavra escrita começa a ser aniquilada das necessidades, hábitos e costumes de uma sociedade formada por indivíduos cada vez menos pensantes e mais falantes. E, portanto, a Literatura e mesmo a imprensa escrita, (uma vez que qualquer cidadão munido de equipamento adequado pode registrar um fato, que será mais visto e comentado em redes sociais do que nos veículos de comunicação), inevitavelmente serão levadas de roldão por essa avalanche cada vez maior e mais destruidora.

Em princípio isso pode causar espanto, mas talvez seja os primórdios de novos hábitos e costumes, absolutamente estranhos para a nossa geração, e o mais natural possível para aqueles que virão nos substituir. Quem viver verá.

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