sexta-feira, 20 de junho de 2014

O SOL SE PÕE

De Geraldo J. Costa Jr.
Iniciado em 17/09/2011 –  às 17h02.

O lugar tinha a alcunha de A Cidade Azul, embora eu não entendesse o motivo.
Havíamos chegado aos bandos, estropiados, doentes, famintos. E tais desgraças fizeram com que muitos de nós, em um breve espaço de tempo sucumbíssemos à uma atmosfera de marasmo, inércia, que, feito vírus letal foi se espalhando por nossa consciência, nossos sentidos, nos envolvendo num torpor que, aos poucos, ora nos tragava para um abismo sem fim, uma escuridão assustadora; ora, nos conduzia à contemplação submissa de retratos, réplicas de situações e construções, eternizados diante de nossos olhos; como se o tempo não passasse, as pessoas e as coisas não se movessem, a vida não existisse ou estagnada estivesse por algo maior e mais poderoso que a própria vontade de Deus.
Todas as manhãs eu descia aquela rua até chegar ao outro lado do vale, a parte alta, onde ficava o lugar que mais se parecia com um hotel decadente. Cruzar a longa avenida sinuosa, em cujo canteiro central escondia-se um córrego canalizado não era problema. E saber disso, foi o primeiro momento de satisfação, o único depois de muito tempo, que experimentei desde minha chegada àquele lugar.
No hotel decadente, muitos não passavam da porta de entrada, não por falta de mérito, mas por absoluta falta de fé, de acreditar que as coisas poderiam começar a ser diferentes, melhores.
Acostumado a toda má sorte e humilhação, infortúnio e penúria, mesmo assim eu me comprazia daqueles homens e mulheres, jovens e velhos, crianças. Vindos de toda parte. Atraídos pela energia amorosa, restauradora, aconchegante, atraente e irresistível que envolvia aquele lugar, tão imenso para os nossos olhos, tão imenso, alto demais, que parecia não ter fim, apesar de sua única porta de tamanho apropriado para o acesso de uma girafa caso fosse necessário.
Porém, antes de conhecer aquele abençoado lugar, casa de oração, pronto socorro dos falidos na fé e no amor, conheci outros, naquela mesma cidade, e não muito distantes daquele. O mais assustador e deprimente ficava na direção em que o sol se levanta. Não era habitado ou sequer visitado pela espécie humana havia muito tempo, mas tinha vida. Era um lugar em que os raios de sol para alcançar o chão precisavam com toda determinação só perceptível aos poetas que declinam no papel as suas dores, rasgar as copas das árvores altas e de troncos enormes, que nem uma dezena de homens conseguiria abraçar. O lago, escondido pela neblina de cada manhã, tinha ares de abandono. Em seu leito, perdiam-se enormes galhos de paus d’água, arrancados pelo vento, geralmente ao final de tarde e com mais frequência durante a noite, quando o vento tornava-se mais forte como se soprado fosse pela desilusão de muitos transformada em revolta.
Tomei a estrada distante dos demais e segui caminhando, sozinho, tentando não pensar em nada, afugentando de mim aquelas lembranças que ganhavam uma atmosfera de medo e incerteza à medida que se aproximava a noite.
Minutos se passaram sem que eu me desse conta, observando apenas a claridade entre os eucaliptos que iam aos poucos abandonando o chão jamais pisado pela espécie humana.
Em dado momento durante o percurso um córrego ali perto, próximo à margem da estrada despertou-me atenção e senti-me tentado a tomar o atalho entre os eucaliptos que me levaria até ele.
Resisti. Porque o medo se fizera maior. O medo de deparar-me de novo com a morte. Porque diante de meus olhos estava a cena que me acompanhava desde criança. Meu pai, usando de todos os recursos disponíveis que a medicina lhe permitia, e com desespero, força, suor e determinação, o máximo de sua fé, tentava trazer ao mundo aquele bebê índio, filho de um casal, muito estimado amigo seu.
Vi o impossível para a minha fé inabalável. Vi meu pai perder a batalha, O bebê veio ao mundo, sem chorar, sem se mexer, sem vida.
Nada pude senão em silêncio conter as lágrimas. Mas a tristeza, a falta de esperança e iniciativa do índio amigo de meu pai, e pai do natimorto permanecem até hoje na minha lembrança. O momento em que ele, o índio, deixou a cabana onde vivia com sua família, e retirou-se para dentro da mata, indo perder-se à margem de um córrego onde sentou e permaneceu até o cair da noite, sem ao menos perceber a minha presença à distância, a observá-lo, ouvindo seu lamento, que, embora longe, ia penetrando minha alma, torcendo-a como um novelo de linha, daqueles que minha mãe usava para fazer seus trabalhos de tricô e crochê.
Eu tinha 9 anos de idade, talvez um pouco menos.
Quê importa isso agora? Nada.
Aos 9 anos de idade, eu tinha um caminho a seguir  e que me levaria de volta para casa. E essa é toda a diferença, entre aqueles dias, e os dias de hoje.
Mesmo assim, evitei o atalho que me levaria ao córrego, e segui adiante, por aquela estrada, forrada por folhas de eucaliptos.
Ao alcançar a ponte, parei um instante, e fiquei a observar as águas do rio, vencendo as pedras, contornando os obstáculos, sobrepujando os troncos das árvores, levando consigo as algas, para longe. E acreditei por um momento que poderia me precipitar naquele rio, por onde, talvez, com um pouco de sorte, poderia encontrar o rumo de casa.
Mas todas essas ideias eram vencidas facilmente pela realidade, algoz impiedosa da esperança.
Já era noite e eu ainda não havia vencido o longo percurso que me levaria à área urbana da cidade.
Podia ouvir os chacais ao longe, e deveria por esse motivo alcançar logo o obelisco e, em seguida, logo em seguida, o pátio da estação ferroviária, desativada, morta, esquecida, mas que nos servia de refúgio e esconderijo.


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