terça-feira, 26 de agosto de 2014

MANHÃ DESPIDA

Talvez você acorde cedo
Faça um bom café, lave o rosto, vista as calças
E se depare com o seu trabalho de cada dia
Aquele que você tem que arrancar das entranhas
Dos seus mais sórdidos sentimentos
Que muito bem escondidos permanecem
Durante todo o dia, aos olhos das pessoas
Que julgam conhecê-lo
E durante a longa interminável noite
Enquanto os pernilongos
Consomem o pouco de sangue que lhe resta
Porque as coisas, as que realmente valem a pena
Acontecem quietinhas, tímidas, nervosas
Às primeiras luzes do dia, fraquinhas, indecisas, surgem
E quando você abre a torneira, torrenciais pensamentos vêm
Deste seu coração carcomido, lambido, lânguido
Vem... em turbilhão, nuvens, como se Thanatos rolasse os defuntos, escada, ladeira abaixo, entrementes
Sonhos, esperanças vêm na forma de ânsia
Em meio a espasmos de dúvida, movimentos insanos
De cabeça, incertos vácuos, membros,
Baratinhas e formigas procuram
Sobre a mesa e pelos cantos
Você esquece o café, forte, bom
A camisa que não vestiu
E se entrega à difícil tarefa de calçar os sapatos, amarrá-los
Porque, obediente que tu és
Uma tarefa mais difícil lhe espera às primeiras luzes do dia
No seu quarto solitário, menos bagunçado que antes, mas
Tão deprimente quanto; caótico, esquisito, nulo
Feito a maldita frase que bendita torna-se
Quando parida o papel atinge
E se eterniza

Aos teus olhos somente

domingo, 3 de agosto de 2014

RATOS DE TELHADO

Sumiram os papéis, as pessoas e as necessidades
Final de tarde, e neste domingo, lindo como nunca
Sentado à calçada, em frente de casa
Sob a mira do olhar distante de meu pai
Vejo os cavalos passarem na rua de chão batido
Que vai aos poucos ganhando paralelepípedos,
Luz própria
E distancio-me para longe, um lugar qualquer, uma cabana
O poço fundo do Joca onde se vê a lua
Paralaxe cognitiva
Pensando nos mantras do Olavo
Nas pernas da loira, melhores que a morena
Apenas um jeito delicado, de tripudiar o estúpido Marcius
E  só agora eu pude perceber isso
Ele me diz bom dia, o cavalo, o sujeito que passa
Todas as tardes, princípio de noite, empurrando
O seu carrinho abarrotado de papelões
Cartas na rua, Charles, você as encontrou?
Eu as deixei
Lugar incerto, bem vindo
Já é noite e cai
O intraduzível substantivo
Irregular é o verbo,
O trajeto percorrido até aqui
Incerto, sinuoso, descabido
Olho em redor, sem remorso, sem medo
Eu me acostumei aos poucos
Contemplar a vida: bom dia, boa tarde... boa noite, senhora!
Nossa! Como você é linda!
É luz de minha vida e tão bem me faz
Trancado, e do espaço que a parede mais alta
Me permite observar
Escrevo em pensamentos
Ganhei companhia dia desses
Ele não fala, mas canta melhor que eu
E neste silêncio, qualquer coisa que não seja a minha voz
Se torna poesia.
Percebeu?
Subjugue regras, inverta os papéis
Antes que eles desapareçam
Levados pelos ratos que escalam a parede e percorrem
As telhas do muro da casa
Ou o que dela restou
Não faz sentido, eu sei
Pra você não faz?

Imagine pra mim...

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

AGOSTO, MÊS DO DESGOSTO ou CRÔNICA MAL HUMORADA EM TEMPOS DE CACHORRO LOUCO

Foi num mês de Agosto que tomei o maior fora da minha vida. Mais exatamente no dia 25. E era uma quinta-feira, por volta de 8 da noite. Sim, naquele tempo a gente saia às 8 da noite pra voltar às 11. E ai se não voltasse, né Dona Alzira?
Reprodução
Vá lá, como dizia o francês da Rua de Matacavalos. Machadinho me desculpe! Estou sob pressão. Já explico. Ainda escrevo com lágrimas nos olhos devido ao passamento do ilustre João Ubaldo, mês passado.
Como ia dizendo sobre o mês de Agosto, outras coisas mais interessantes dizem respeito a este mês, que é aquele em que as cadelas no cio levam os cães à loucura, alguns ao suicídio! Deus do céu, até os cães tem direito à felicidade!
Mesma sorte não teve o poderoso Getúlio, presidente Vargas, que achou a morte em um terrível Agosto, como bem retrataria, anos depois, o Rubem Fonseca. Achou ou buscou a morte o Dr. Getúlio? Sabe-se lá! Essa dúvida, feito ele, saiu de cena bem escondidinha para entrar na história.
Até Gêngis Khan, o tirano, aprontou das suas no mês de agosto. É o que diz o calendário de acontecimentos auspiciosos que trago debaixo do colchão. Isto é, se a dedicada diarista, indicada pelo Dalvo já não se desfez do mesmo, movido por imperdoável engano. Paciência!
Sim, ia me esquecendo, o que diabos aprontou Gêngis Khan, você deve estar se perguntando, finado leitor. Bem, recorremos ao burrocionário. O virtual, é claro, é mais rápido. Anote aí: Foi o fim da linha para o Sr. Khan, aos 65 anos de idade, por causa da porcariazinha de uma febre alta. Quem mandou nascer em 1162, e na espelunca da Mongólia.
Ah, sim! Agosto também marca a estreia em grande estilo do carniceiro Jack, o Estripador. Pobre Mary Anne, a primeira das vítimas do misterioso assassino que alguns dizem ter sido o pintor Sickert. Bem, cara de assassino ele tinha!
Agosto, mês do desgosto. Duvida? Veja a imensa lista de celebridades que bateram com as caçoletas (que vem a ser isso afinal de contas, alguém me explica, por favor!) no mês de agosto. Crtl+CrtlV All right, Zé Guilherme! Lá vai!  Morreram: Graham Bell (bem, esse nem devia ter nascido, desgraçado!), Baudelaire, Caruso, Elvis Presley (é o que dizem), Carlos – havia uma pedra no meio do caminho, havia mesmo! – Drummond de Andrade; Gabrielle Colette, William Beatnik Burroughs; Pascal, Blake, Raul Seixas (um minuto de silêncio, por favor, caiu uma mosca na minha sopa!); Velázquez, Deodoro, o da Fonseca, Pollock Sugismundo, Paveze e, entre outros, Nieztsche, oh meu Deus! Nieztsche morreu!
Agora, a pior de todas as notícias desse mês de agosto. Essa crônica deveria ir mais adiante, mas, sob ameaça de morte, este cronista atendeu aos apelos educados (imagine!) do estimado Blue, o cachorrinho simpático da minha irmã e se limitou a umas 15 paupérrimas linhas. Bem feito, quem mandou nascer pobre e escritor, no amado país do Humbertinho de Campos. Bye, mulambada! Quando entrar setembro, Beto Guedes, a gente se vê... Quem sabe?

* Crônica publicada à pág. 10 da edição No. 125 do Jornal Aquarius, Agosto/2014.