sexta-feira, 19 de setembro de 2014

SERENATA

Sozinho, e frágil,
Cansado, ébrio de solidão
Os passos vacilantes, a direção
A gota poderosa que penetra os olhos
Não é tão eficiente e certa
Quanto a que sai
Vibram as cordas do violino
Papel e caneta sobre a mesa, esquecidos
Abandonadas as palavras, evitadas, deixadas
Ao nada
A janela aberta e,
Indefeso, o olhar
Percorre a varanda
Do começo ao fim
Os pássaros silenciam
Abandonam as árvores, folhas
Feito folhas
Um a um
Esconder-se – reflete – que adianta?
Revelar-se não alivia
O peso só aumenta
E o ar sufoca o silêncio,
Aprisiona, o silêncio,
O silêncio...
Onde estará o abraço,
O olhar piedoso de Carlos...?
Os traços de Maria, que viu primeiro
Nasceram a cada final de tarde
Sem que ela percebesse
Cobrem as águas em fúria
As pedras
Cavalos em disparada


quinta-feira, 18 de setembro de 2014

OFEREÇA UMA FLOR

Você despediu-se da sua esposa pela manhã com um beijo? Ligou pra namorada no caminho ao trabalho pra lhe desejar um bom dia e lhe dizer que a ama muito? Pensou naquela pessoa que você tanto gostaria de ter ao seu lado, enquanto escovava os dentes ou penteava o cabelo diante do espelho? Lembrou da primeira namorada enquanto abotoava a camisa? Sim, a primeira namorada, aquela do beijo inesquecível. A mesma que implicava quando você vestia camiseta, jeans e tênis, pra ir ao baile, à festa, ao cinema, porque ela passara toda tarde de sábado preparando especialmente pra você aquele vestido lindo, sensual, cujo figurino ela copiara da revista de moda que a mãe dela comprara na banca de jornal?
Nada disso? Então, meu caro, me perdoe, mas você não é um sujeito romântico. Agora me pergunte o que você perde com isso. Perde o que poderia ser os melhores momentos de sua vida.
Houve tempo em que a primeira coisa que rapazes e moças aprendiam pra ter uma vida social agradável e participativa era dançar. Todos os ritmos possíveis. No meu tempo, tudo bem, exigia-se menos. Nos anos 1980 e qualquer coisa, eram os dois passos pra cá e dois pra lá, das músicas lentas, indispensáveis pra não passar em branco nas discotecas dos clubes sociais da cidade. E uns passinhos de Michael Jackson, Boy George... Nada mal!
Bastava. Porém, foi o início da decadência do romantismo. Porque toda a sabedoria desse aspecto indispensável da vida humana que herdáramos de nossos pais, no que diz respeito a ser gentil, elegante, social, agradável, educado, galanteador, não absorvemos, não cultivamos, apressadinho que éramos e, portanto, não passamos adiante aos nossos filhos.
O romantismo é um valor que precisa ser resgatado por nós. Até pra tornar o mundo mais humano e menos violento. Não se trata de sofrer por um amor não correspondido. Nada disso. Trata-se de valorizar e viver em toda a sua intensidade os momentos íntimos, lúdicos, doces, da vida, ao lado ou mesmo distante da pessoa que amamos. Não se deve exigir de nossa parte ou da parte do outro que esse amor dure para sempre. Talvez dure uma semana. O meu, se devo confessar, durou 30 dias, e faz tempo. Vinte e seis longos anos. É daquelas coisas que se vive uma vez e nunca mais.
Eu tinha um amigo que dizia que deve se viver os momentos bons da vida intensamente. E ele não escrevia livros, nem se chamava Jack Kerouac. Tão pouco morreu feliz. Mas acredito que marcou a vida de cada uma de suas namoradas nos seus 21 anos de existência.


Porque, de fato, é isso o que importa: ser importante na vida de alguém, de modo que essa pessoa, quando de nós se lembrar possa oferecer um sorriso ao seu passado. Talvez ofereça uma flor. 

* Crônica publicada no Jornal Diário do Rio Claro, edição de 21/9/2014, à pág. 2

terça-feira, 16 de setembro de 2014

AQUELAS LUZES ACIMA DE NOSSAS CABEÇAS

Pense que vai tudo bem
Fique com seus dramas
Escondido no quarto escuro
De todas as noites
Deixe à penumbra as suas vistas
E à solidão o seu coração
Viva cada instante de agonia
Ultrapasse o limite, o porto seguro,
O elo imaginário
Liberte-se das últimas amarras
Solte-se mais além, percorra
Vá buscar o que lhe prometeram
O que não lhe deram e lhe pertence
Por direito e dever
De quem ousou fazê-lo existir
Contudo, interregno súbito se faz
Cai um papel e
Uma lágrima se mantém
Longe do chão
A bailar na órbita incerta
De todos os medos vividos
Desejos contidos
Acumulados, prescritos
Na escuridão do quarto a cada noite
Cela e solidão, quatro paredes,
Às vezes, cinco,
O chão imundo onde se pisa
Não se conta
Vá buscar o que lhe pertence



sexta-feira, 12 de setembro de 2014

COLISÃO

Quando éramos puros
E bailávamos feito folhas ao vento
Pelo espaço infinito e desconhecido
Inimaginável, inatingível
Não sabíamos o que era certo ou errado
E nem precisávamos disso
Livres, vivíamos
Ainda que fossemos tão somente
Uma ideia, um sopro da Criação
Uma aspiração
Mas, alguma coisa, de algum modo,
Éramos
E bastava
Não sabíamos o que era luz, nem trevas
Desconhecíamos palavras
Olhares nenhum nos atingia
Vivíamos no meio termo
Entre a matéria e o nada
Energia pura, incontrolável, éramos
E viajávamos no tempo e no espaço
Sem conhecer solidão
Dor não havia, medo se desconhecia
E tudo era belo, e perfeito
A natureza, qualquer que fosse, era parte de nós
Qualquer forma de vida em uníssono
Compartilhando umas com as outras
Livres, donas de si mesmo, partícipes do Universo
Em comunhão
Até que alguém disse sim
E outro, disse não


quarta-feira, 3 de setembro de 2014

FAÇA O BEM!

A finalidade da existência humana é o aperfeiçoamento moral. Isso não faria nenhum sentido, caso inexistisse a crença na vida futura. E acreditar ou desacreditar na vida futura faz toda a diferença no modo como encaramos a vida presente e traçamos os nossos objetivos.


A instintiva busca pela felicidade inerente a todos nós seria indicativo de que algo nos espera. Acreditar que a vida se resume no tripé nascer, viver e morrer é um facilitador na medida em que nos isenta de responsabilidade perante a própria vida. Mas colocam por terra todos os valores que permitiram que a espécie humana se transformasse em civilização, como o senso de justiça, o instinto de preservação, a necessidade do progresso através do trabalho e da busca pelo conhecimento, o direito e o dever, a prática do bem, e o amor a si mesmo e ao semelhante.
Preservar esses valores exige de nossa parte o aperfeiçoamento moral, ou seja, a eliminação gradativa dos defeitos e o aprimoramento das virtudes. Isso só é possível através da prática do bem. E só pratica o bem o indivíduo que já possui uma visão ampla da vida onde ele é apenas mais um entre tantos. É aquele sujeito que agradece a Deus pelo alimento que recebe, mas também se lembra de todos aqueles seus semelhantes que dedicaram tempo, esforço e conhecimento, para que aquele alimento pudesse chegar à sua mesa. E pede à vida, que jamais permita que lhes falte alimento semelhante. O indivíduo que pratica o bem é aquele que cede em favor do outro, porque sabe que a vida, naturalmente, lhe restituirá no momento oportuno. Enfim, é o bom samaritano que sabe que a sua felicidade e paz de espírito plena só é possível quando a do seu semelhante também se realiza.
Somos indivíduos, mas vivemos em sociedade, e a vida assim nos fez, não para que competíssimos uns com os outros, mas para que nos ajudemos uns aos outros. Quando um de nós está caído, perdido, derrotado, é ele que requer a nossa atenção e os nossos melhores esforços. O remédio se ministra a quem está doente. Não há outro meio de tornarmos o mundo melhor senão recuperarmos para a vida e a felicidade, aqueles que, por algum motivo, se perderam em ilusões e enganos, cada vez mais comuns e sedutores em nosso meio. O primeiro passo para êxito dessa indispensável tarefa é reacender-lhes a esperança. Mostrar-lhes que há sim no mundo alguém que se importe com o seu sofrimento, que lhes quer ajudar e lhes quer bem.
Num mundo maravilhoso como este em que vivemos, somos os seres que pensam, sentem e agem, conforme sua capacidade, entendimento e vontade, portanto, responsáveis por nosso destino.
A dor e a fome são as únicas desgraças da vida humana que não esperam o melhor momento, a melhor ocasião, mas exigem pronto atendimento. As pessoas lúcidas compreendem isso e dedicam o melhor de seus esforços nesse sentido.
Nós precisamos nos ajudarmos uns aos outros. Precisamos nos aproximarmos uns dos outros. Precisamos valorizar os laços de família e de amizade.


As modernas tecnologias que permitem comunicação imediata não estão no mundo para nos distanciarmos, nos isolarmos. Não é essa a sua finalidade. Lembremos de Alberto Santos Dumont que não fez o avião para carregar bombas de destruição em massa, mas, para diminuir a distância entre os lugares e as pessoas. Lembremos dos chineses que faziam da pólvora fogos de artifício e não arma letal. A inteligência e o esforço humano viabilizam ferramentas de trabalho que conduzem ao progresso e preservação da espécie. O uso que dela é feito depende da vontade e sabedoria de cada um. A faca que corta o pão pode ser a mesma que mata. Somos livres, mas responsáveis por nossos atos, perante a nossa própria consciência que nos acompanha na nossa vida futura. Podemos ser melhores e tornarmos melhor o mundo em que vivemos, se nos respeitarmos e se nos ajudarmos uns aos outros, mas isso só será possível, quando enfim nos conscientizarmos que a vida segue, vai além, do nascer, viver e morrer.

* Artigo publicado no Jornal Diário do Rio Claro, edição de 09/set./2014, à página 2.