quarta-feira, 29 de outubro de 2014

MATRIX

Esqueça as ilusões, não se alimente delas; ainda mais quando já aprendeste que nem mesmo a realidade é exatamente aquilo que a gente pensa.

DUALIDADE

A principal característica de um mundo da 3a. Dimensão como o nosso é a dualidade: O Bem e o Mal.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

NOSSA VIA DOLOROSA

Com muito esforço, eu diria mesmo que às duras penas e, com o peso, por vezes quase insuportável de nossas limitações, estamos trabalhando para despertar consciências, à luz do trabalho, do estudo, do bom senso, do discernimento e da intuição que nos fala ao nosso Eu Interior. Isso, é natural, gera perseguição. Mas, nós vamos em frente. Porque essa é a melhor decisão, é o que deve ser feito.

UP...

Se você caiu, levante. Você precisa ter ainda dois pés apoiados no chão para caminhar neste mundo. Porque se tentar voar vai quebrar a cara, já que sequer aprendeu ainda a caminhar com os pés apoiados no chão. Pois, se tivesse mesmo aprendido, não cairia. Portanto, levante.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

E QUE NÃO DEMORE...

Quando não houver reeleição. Quando os candidatos tiverem o mesmo tempo e condições para apresentarem “suas” propostas, não durante meses, mas, durante uma semana. Quando os marqueteiros não participarem mais do processo eleitoral. Quando apenas uma pesquisa, a de boca de urna, for divulgada. Quando nem presidente da república, nem governadores, nem, prefeitos, nem deputados, nem senadores, forem remunerados e gozarem de privilégios para exercerem seus mandatos, aí os maus se afastarão naturalmente da política, e os bons, naturalmente, dela se ocuparão. E então, começará a ser democracia. Por ora, é essa aberração que as pessoas lúcidas vêem impotentes e estarrecidas. E só mesmo o Nibiru pra dar jeito nisso... 

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

À ESQUERDA

E se nada for como se pensa
E se realmente você, eu, todos nós
Apenas uma lembrança, desejo
De algo maior, dominador, senhor
Cá viemos...
Entre um passo e outra
Ao cair da noite, final de tarde
Início, hora extrema
Daquele sonho, aquele, pesadelo que se repete
Eu, você, todos nós, em fuga
Vindos não se sabe de onde
Indo... Até quando... Por que...

E se de repente, como num truque de mágica
Nada for como se imagina
Nada definido, nenhum sentimento
Nada de tamanho, formato, direção
Eu, você, todos nós, uma luz
Em meio à escuridão.


ALMAS MORTAS

Distante no tempo, você vê as bandas inglesas dos anos 80/90, e percebe que o pessoalzinho do Brasil da mesma época, era a molecada do jardim da infância perto daqueles. Mas, tudo bem, valeu mesmo assim. Com carrinho de madeira também se brinca. 

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

UM HOMEM DE FÉ

Conta-se que nos arredores de Jerusalém, havia uma família de camponeses, formada pelo marido, a esposa e o filho.
A esposa adoeceu, e o menino, comovido com o sofrimento da mãe, durante certa noite, vendo-a chorar e gemer de dor, disse a si mesmo que se lhe fosse permitido pedir algo a Deus, pediria que lhe desse o poder de curar todas as doenças do mundo de modo que ninguém mais viesse a sofrer.

Uma ocasião, o menino ouviu a conversa de alguns mercadores, sobre os feitos maravilhosos de um profeta que, naqueles dias, estava em Jerusalém. Segundo aqueles mercadores, era um homem bondoso que tratava a todos com respeito e educação, e tinha o dom de curar as pessoas. E nisso viu o menino, cheio de esperança, a possibilidade de por termo aos sofrimentos de sua pobre mãezinha.
Durante vários dias o menino tentou convencer o pai, em vão, ir à procura desse profeta que atendia pelo nome de Jesus.
O pai, temendo ser ridicularizado e que seu filho fosse tido como louco, pediu a este, encarecidamente, que não dissesse nada a ninguém a respeito desse assunto. E o menino, mesmo contrariado, assim o fez, porque não queria trazer mais problemas ao pai.
Um dia, ao cair da noite, o pai, que já havia tentado tudo para salvar a esposa e despendido todos os seus recursos com esse objetivo, comoveu-se com a obstinação do filho e decidiu que faria o seu gosto. Não daria permissão ao filhinho, de apenas 11 anos de idade, a sair à procura do profeta Jesus que curava os doentes. Iria com ele, porque se já não tinha mais dúvidas de que perder a esposa era questão de tempo, não queria que o filho pequeno tivesse o mesmo fim, porque, caso isso acontecesse, não se perdoaria nunca, nem saberia o que seria sua vida dali por diante.
Então, pediu que a cunhada, que morava ali perto, olhasse a irmã, dizendo que, num último recurso para salvar a esposa doente, iria à procura de um mago que em Jerusalém operava curas milagrosas. Indagado pela cunhada a respeito de quem seria o mago, o homem preferiu omitir o nome, não lhe revelando de quem se tratava.
E assim, pai e filho foram a procura de Jesus, o profeta que curava os doentes, num desesperado e último recurso para salvar a mulher que tanto amavam.
Foi uma jornada longa, difícil, eles mal haviam levado o que comer durante a viagem e apenas água o bastante para saciar a sede.
Chegaram a Jerusalém, cansados, doloridos, sujos, famintos e depararam-se com uma multidão de pessoas acompanhando a via dolorosa de um condenado à crucificação que, penosamente, entre quedas e humilhações seguia para o Gólgota. Souberam que se tratava de Jesus, o qual tinham ido à procura.
O pai desiludido ordenou que o filho abandonasse aquela ideia descabida e o seguisse de volta para casa. Como poderia um condenado á crucificação curar a esposa doente. Mas o menino, decidido, negou-se a fazê-lo. Queria acompanhar os passos de Jesus e ao menos aproximar-se dele, porque tinha certeza que se isto fizesse, seria o bastante para que sua mãe ficasse curada.
Não foi possível, entretanto, que o menino tivesse êxito em seu propósito. Os soldados romanos e a multidão enraivecida não permitiram que eles sequer se aproximassem. Mesmo assim, houve um instante em que o menino pode ver quando uma mulher interrompendo o cortejo enxugou o rosto de Jesus com um pano.
Então inesperadamente, a mulher tomou a direção onde se encontravam o menino e seu pai, colocando-se entre eles, a chorar. O menino olhou para o pano, que havia enxugado o rosto de Jesus, e que continuava nas mãos da mulher, e o tocou sem que ela percebesse, mas como lhe fosse um objeto sagrado e para o qual declinava a sua devoção.
Tentou uma última vez livrar-se das mãos ásperas e rígidas do pai que o detinham, mas não teve forças.
Seguiu o cortejo e foi-se a multidão. E ele e o pai retornaram para casa. O pai contrariado, o menino, cheio de esperança, sorrindo a maior parte do tempo, durante o percurso.
Que tanto sorri, menino? – disse-lhe o pai – Como pode? Sua mãe está à beira da morte e nós a abandonamos à procura de uma ilusão.
O menino olhou para o pai, finalmente, então respondeu:
“Uma certeza, meu querido pai. Não uma ilusão”.
“Que está dizendo? Não sabe o que está dizendo! Podemos chegar a nossa casa e sua mãe já poderá ter morrido”.
“Pai! – disse o menino, sorrindo, meio jocoso, tamanha a sua convicção”.
“Não brinque! Isto é sério! Não tem ideia do que será sua vida sem a sua mãe”.
“E quem disse que irei perdê-la?”
“Não sei de onde você tira tanta certeza de algo tão improvável”.
“Da minha fé, pai! – respondeu – E do amor daquele que veio ao mundo para nos salvar”.
“E que não salvou nem a si mesmo. Como pode salvar agora a sua mãe ou qualquer outro, se está morto?”.
“Pai! Ele não está morto. Ele vive!”.
“Vive? Onde?”
“Pai! Seja compreensivo ao menos! Por Deus!”
“Deus? Onde? Diga-me? Onde está Deus? Desde que tinha sua idade e mesmo antes clamo por ele em vão!”.
“Quando chegarmos a nossa casa, pai, você verá que Deus nunca esteve ausente de sua vida”.
Continuaram a viagem e não mais trocaram palavra alguma.
Era mais ou menos três da tarde do dia seguinte quando retornaram. E foram diretamente ao leito da esposa e não a encontraram. Saíram então à procura da mulher a cujos cuidados a mãe do menino havia ficado. E a encontraram varrendo os fundos da casa.
“Onde está...? disse o marido, com o coração na boca; aflito, temeroso, que sequer conseguiu terminar a frase, e nem pode perceber que o filho havia se retirado para longe.
A cunhada, então parou de varrer o chão, e olhando para ele muito seriamente, respondeu-lhe:
“Sua esposa não está mais naquele quarto”.
Os olhos do marido brilharam e foram tomados por lágrimas.
“E onde ela está?”
“Não sei. Mas deve ter saído pra buscar água”.
“Como assim? Ela não pode. Não tem força nem para caminhar. Está muito doente!”.
“Estava”.
“O que você está dizendo, mulher?”.
“Há cerca de hora e meia, chegou aqui um homem dizendo-se presente a seu pedido, para cuidar de sua esposa”.
“E o que você fez?”
“Mesmo contrariada, cedi que ele a visse, porque mal conseguia olhar nos olhos dele tamanho o poder que exercia sobre mim a sua pessoa. Ele me disse para que não temesse, apenas que tivesse fé e tudo estaria bem. Então de repente me lembrei do mago que você disse ter ido à procura, e senti-me confiante, achando que pudesse ser ele”.
“E o que ele fez desde então?”
“Nada demais. Aproximou-se do leito de sua esposa. Ajoelhou-se e deve ter orado por ela. Depois, ao levantar-se, pediu apenas que eu desse água a ela. Mas que o fizesse com fé e pensando em Deus misericordioso que é todo amor e bondade. E assim eu procedi. Mas quando voltei com a água, ele já tinha partido, sem deixar vestígio de sua presença”.
“Como era esse homem? Descreva-o!”.
“Não sei exatamente. Não pude olhar diretamente nos olhos dele. Mas exalava um perfume muito agradável de seu corpo. Suas vestes eram brancas feito as nuvens. Estava descalço. Tinha a cabeça coberta”.
“E ele... este forasteiro – perguntou o angustiado homem – acaso lhe disse como se chamava?”
“Sim! Ele disse. Disse que se chamava Jesus”.
O homem então caiu de joelhos, e foi amparado pela esposa e o filho que chegavam trazendo água.



terça-feira, 14 de outubro de 2014

À LUZ DA RAZÃO

Não julgueis, pois, para não serdes julgados; porque com o juízo que julgardes os outros, sereis julgados; e com a medida com que medirdes, vos medirão também a vós. (Mateus, VII: 1-2).

Como todas as demais, esta máxima do Cristo encerra um grande ensinamento.
A Doutrina Espírita tem apenas 157 anos de existência. E seus princípios básicos que são: a existência da Deus, a imortalidade da alma, a lei de causa e efeito, a reencarnação, a comunicabilidade dos Espíritos, a fé raciocinada, a evolução (ao infinito), a pluralidade dos mundos habitados e a moral de Jesus, até hoje, não foram completa e exaustivamente estudada e compreendida, nem mesmo pela maioria dos seus adeptos. Quanto mais por aqueles que dela tomam conhecimento superficial e acreditam equivocadamente estarem aptos para compreendê-la e julgá-la.
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Um engano cometido por as pessoas e as instituições que no Espiritismo vêem ameaçados a sua fé e os seus interesses, respectivamente, é tentar entendê-lo de modo superficial ou através de informações obtidas da tradição oral, baseados em “achismos”, e a partir desse entendimento pequeno, limitado, frágil e sem base nenhuma, atacá-lo, seja como obra do “demônio”, seja como obra da mentira, tomando por fundamento, apenas o que transmitem os médiuns, os palestrantes, e os livros, sobretudo os romances, de cunho espírita, em especial. As informações que vem ao conhecimento do público interessado por meio desses canais de comunicação revelam apenas a ponta do iceberg. Destacam pontos isolados do Espiritismo. Podem ser de muito bom proveito, mas não tudo.
Vê-se, por exemplo, pessoas contestando as informações trazidas a nós por André Luiz, através da psicografia de Francisco Cândido Xavier, sob argumento de que jamais um espírito que se admite ter passado tanto tempo em situação difícil no mundo espiritual, motivado por suicídio involuntário (aquele que decorre via de regra do descuido que cometemos com a nossa saúde expondo-a a todo tipo de viciações e maus hábitos, dentre eles o fumo, o álcool, o excesso desnecessário de ingestão de alimentos, a irritação por coisas banais, etc.) teria evoluído moral e intelectualmente no mundo espiritual, de modo tão rápido a ponto de atingir a capacidade de entendimento e de transmissão de inúmeras informações, de cunho moral e científico, compartilhadas por ele em seus livros, a saber: Nosso Lar, Os Mensageiros, Missionários da Luz, Obreiros da Vida Eterna, No Mundo Maior, Libertação, Entre o Céu e a Terra, Nos Domínios da Mediunidade, Ação e Reação, Evolução em Dois Mundos, Mecanismos da Mediunidade, Sexo e Destino, e, E a Vida Contiua... .  
Pergunta-se: tais contestadores tiveram ao menos o trabalho de lerem essas 13 obras literárias de André Luiz, e estudá-las atentamente, e procurado entendê-las desprovidas de ideias e conceitos pré-estabelecidos, a ponto de baseados em seu entendimento, terem argumentos o bastante para rechaçá-las?
O mesmo diz respeito àqueles que contestam o Espiritismo como doutrina, baseado no que outros disseram e que talvez venham de encontro aos seus interesses e convicções, que, mais do que esclarecer, lhes acomodaria a inquietação de seus pensamentos e suas dúvidas.
Ainda aqueles que acusam o Espiritismo de ser obra do Mal; e daqueles que o confundem com outras denominações religiosas, meramente mediúnicas, ou filosóficas. Deram-se esses todos ao trabalho de lerem as obras básicas do Espiritismo, que são: O Livro dos Espíritos, O Livro Dos Médiuns, O Evangelho Segundo o Espiritismo, O Céu e o Inferno e A Gênese, pelo menos, estudando-as profundamente, comparando-a com outras, já existentes e conhecidas há milhares de anos? E não apenas isso, mas ao estudarem, compararem, aplicarem em suas vidas a proposta Espírita para a reforma íntima do ser humano, a partir dos ensinamentos cristãos, visando o seu aperfeiçoamento moral, portanto, a conquista da sua paz interior e da sua felicidade possível. Demandaram-se os acusadores gratuitos do Espiritismo a esse trabalho, antes de atacá-lo sem conhecimento de causa?
Alguém em sã consciência, que ao menos sabe discernir o bom do ruim, o bem do mal, a felicidade da tristeza, a paz da tormenta, tenha argumentos suficientes e embasados na razão, na fé raciocinada, para atacar os esclarecimentos e as consolações do espírito Emmanuel, mentor espiritual de Chico Xavier, ou de Joanna de Angelis, mentora espiritual de Divaldo Pereira Franco, em cujas obras literárias, não se acha uma única só palavra, frase, período que não tenha por objetivo esclarecer e consolar o ser humano, fortalecendo-lhe a fé em Deus, o amor à vida, despertando-lhe a esperança, o bom ânimo?
Aos que não desejam aderir ao Espiritismo, por interesses pessoais quaisquer que sejam isto lhes é de direito. Também nós, um dia, estivemos entre eles. Até porque, o Espiritismo não faz proselitismo de arrastamento, porque sabe que cada pessoa vê e entende, assimila e pratica o que pode. Caminha numa velocidade conforme suas forças, e dá o passo conforme o tamanho de suas pernas.
Mas, acaso se dêem ao trabalho de, antes de tudo, fazerem o que aqui lhes é sugerido, assumem, por consequência, o dever moral de respeitá-lo. Porque o Espiritismo em sua essência e totalidade é todo amor. É um sol na vida humana, ainda muito distante de ser suportado e entendido por almas tão pequenas e frágeis como as nossas que habitamos este planeta maravilhoso onde fomos acolhidos pelo Cristo.

Dentre tantas, e todas elas admitamos, tentativas de Deus para nos mostrar um caminho que nos leve à perfeição e a felicidade que é o seu propósito para conosco, o Espiritismo é mais um porta que se abre ao ser humano. Mas, reconheçamos, é uma porta estreita, que solicita boa vontade, humildade e esforço daquele que por ela deseja passar. Porque revive em toda sua plenitude os ensinamentos do Cristo, conforme o próprio houvera prometido ao anunciar o novo Consolador.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Barcelona, 09 de Outubro de 1861

Atualmente, fanáticos religiosos, desprovidos de mínima coerência e racionalidade, acreditam queimar espíritos maus, na verdade espíritos ignorantes, desinformados e ludibriados que, em troca de alguma vantagem, atormentam a vida de encarnados, por sinal, nenhum pouco santinhos, como se imaginam.

O assunto merece reflexão se considerarmos que, no século XIX, queimavam-se, apenas livros. Em Barcelona, em 09 de outubro de 1861, cerca de 300 livros com temática espírita foram queimados, em praça pública, por ordem e graça do Bispo de Sevilha, episódio que passou à história como o Auto-de-fé de Barcelona.
Eram 10 e 30 da manhã, quando se deu o fato, na presença de, além do Bispo, um padre, um notário, um escrevente, e três funcionários da alfândega (onde os livros foram apreendidos), acompanhados de uma pequena multidão, que, para o desgosto de sua Eminência vaiava a todos estes, aos gritos de “Abaixo a Inquisição”.
O tiro saiu pela culatra, porque tal estupidez acabou despertando um interesse ainda maior das pessoas pelos assuntos espíritas dos quais tratavam os livros.
Sobre o episódio merece registro o livro Auto-de-fé de Barcelona de Florentino Barrera, onde é possível encontrar a citação do poeta alemão Henrich Heine de que “Onde se queimam livros acabam se queimando homens”. Caso da Espanha, em cujo solo se verificou cenas dramáticas e repugnantes durante o Tribunal do Santo Ofício da Inquisição no período de 1478 a 1834.
A Espanha, por sinal, é um país bonito, de cultura milenar, e que herdou à humanidade gênios das artes como Goya, Picasso e Cervantes, mas parece ter a sina de protagonizar aberrações do comportamento humano como, por exemplo, as touradas, onde animais ingênuos são sacrificados sob os olhares do público extasiado, e, ainda, a festa de São Firmino, em que embriagados correm pelas ruas de Pamplona, perseguidos por touros ensandecidos, não porque esta seja a natureza animal – dos touros – mas, porque foram induzidos pela ignorância humana a se comportarem desse modo.
Episódio semelhante ao grotesco Auto-de-fé de Barcelona seria protagonizado na Alemanha, por Adolf Hitler, que, motivado pela insensatez que lhe era peculiar, mandou acender uma fogueira de livros, em Berlim, numa tentativa de, talvez, demonstrar a soberania intelectual da raça ariana.
Também merece registro um texto do dramaturgo e poeta alemão Berthold Brecht, intitulado “A Queima dos Livros”, onde ele escreve sobre um autor que vendo vários livros serem empilhados para formar uma fogueira, descobre que entre esses não se encontre os seus e assim se exprime indignado, conforme a tradução de Paulo César de Souza: “Queimem-me! Não me façam uma coisa dessas. Não me deixem de lado. Eu não relatei sempre a verdade em meus livros? E agora me tratam como um mentiroso! Eu lhes ordeno: Queimem-me!”


Como se percebe, a humanidade parece viver atormentada por demônios de toda espécie, mesmo que na forma de livros. Mas os livros existem para esclarecer as mentes e não o contrário. O triste episódio do Auto-de-fé de Barcelona demonstra isso. Hoje, os livros com temática espírita estão entre os mais procurados e lidos e servem como base para obras cinematográficas de grande repercussão.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

UNS e OUTROS

Nós costumamos dizer que Jesus dividiu o calendário entre antes e depois dele, e é verdade. Mas ele fez algo mais impressionante. Ele inverteu o sentido de uma determinada operação matemática, quando, através do seu Evangelho ensinou que dividir é multiplicar. E é de fato o que acontece, quando dividimos, compartilhamos amor entre nós. Em todas as faces, que são muitas, que o amor possui: o bem que fazemos ao nosso semelhante, o esquecimento da ofensa que por acaso ele nos dirija, a dor alheia que amenizamos, quando não a curamos, a dor do corpo e a dor da alma.

E quando nós fazemos estas coisas, nós vamos que acendendo luzes neste mundo, e ajudamos a melhorar o ambiente astral do mundo, na medida em que nós fazemos brotar ou renascer a esperança no coração de cada um de nossos semelhantes aos quais nos dispomos a servir.
A natureza, ela facilita muito o nosso entendimento da vida. Vejam: o mar, por exemplo, ele se assemelha muito à nossa vida cotidiana. No mar, há os momentos de calmaria e os de tormenta. De fartura, joga-se a rede ao mar e ela retorna abarrotada de peixes. E de escassez, joga-se a rede ao mar, e ela retorna vazia. Mas o que faz o pescador diante da dificuldade? Desiste? Ou continua seu trabalho, sua luta? Ele continua, porque sabe que daquela pesca depende a sua sobrevivência. Então ele tenta novas rotas, e continua jogando a rede ao mar, até que sua perseverança lhe traz a recompensa.
Assim são nossas vidas, há momentos de tranquilidade e de perturbação, momentos em que tudo parece conspirar a nosso favor, e momentos em que tudo parece conspirar contra nós. Mas, algumas vezes, diferentemente do pescador, nós desanimamos frente às dificuldades, nos deixamos levar por elas, nos sujeitamos àquela do “deixa a vida me levar vida leva eu”, e a vida leva, mas sem direção, em alta velocidade, sem o nosso controle, nos expondo a riscos e é inevitável que nestas condições acabemos trombando com um poste.
Outro exemplo da natureza que vem a nos demonstrar que Jesus estava realmente certo quando nos ensinou que dividir é multiplicar. Imagine uma laranja, corta-se ela em duas. E miseravelmente em cada tampa da laranja encontram-se três ou quatro sementinhas. Talvez, seis ou mais, com um pouco de sorte. E se então pegarmos cada uma dessas sementinhas e plantá-las separadamente, e cuidarmos delas, elas germinarão, e se continuarmos cuidando, chegará tempo em que cada uma daquelas sementinhas se tornará uma árvore que dará dezenas, centenas, milhares de outras laranjas, que servirão de alimento para milhares de outras pessoas.
Assim somos nós. Uma pessoa ajuda dez pessoas. E dez ajudam cem pessoas e cem pessoas ajudam mil pessoas. O Bem, uma vez colocado em movimento irradia e agrega tudo o que alcança e por toda parte.
Vejam: Nós nos dedicamos a nossa educação intelectual, porque precisamos dela para ter uma ocupação na vida, uma profissão, que nos remunere de modo que possamos cuidar de nós e de nossa família. E para isso precisamos do quê? Interesse de nossa parte, boa vontade, disciplina e perseverança.
Agora, pensemos: Da mesma forma podemos fazê-lo para a nossa educação moral, que nos trará benefícios que tão somente a educação intelectual, por si só, não nos poderá oferecer: que são: a felicidade possível neste mundo e a paz interior.
E o procedimento é o mesmo: interesse de nossa parte, boa vontade, disciplina, perseverança.
E tudo isso está ao nosso alcance, porque sabemos que o céu ajuda quem se ajuda. E que Jesus nos ensinou: pedi e terás, procure e acharás; bata à porta e ela se lhe abrirá. Chico Xavier dizia: Jesus não nos pediu nada impossível, acima de nossas possibilidades. Não disse que teríamos de subir ao Monte Everest. Disse apenas que tivéssemos boa vontade e nos esforçássemos em sermos pessoas melhores.
Lembremos que nós somos todos filhos do mesmo Pai, que é Deus, e irmãos em Cristo.
Não existe outra humanidade neste mundo. A Terra não foi invadida por extraterrestres. Mas, imaginemos essa possibilidade, aquele povo todo estranho vindo dividir espaço conosco, trazendo sua tecnologia, seus hábitos e costumes, suas leis, seus padrões morais, diferentes do nosso.
Um vizinho nos incomoda, um parente, uma visita fora de hora.
E tais coisas não deveriam acontecer. Nós deveríamos ser unidos, fraternos uns com os outros. Porque em geral temos as mesmas dificuldades. Estamos todos no mesmo barco da salvação em cujo comando está Jesus. Mas há um motivo maior, soberano, que deveria nortear nossas ações nesse sentido fraterno da convivência humana: Somos todos irmãos.
Deus nos fez não para a solidão, mas para vivermos em sociedade, e quando ele fez isso seu propósito era de que nos ajudássemos uns aos outros. De modo que nossa evolução pudesse ser mais fácil. Mas ao invés disso, competimos uns com os outros, geralmente por coisas banais, mundanas, transitórias, descartáveis, perecíveis ao tempo e à força das circunstâncias.
Podemos pensar que nos bastamos a nós mesmos.
Mas então, vamos nos imaginar absolutamente só no mundo. Num primeiro momento podemos até apreciar a ideia. Mas depois, nos depararíamos com a realidade: quem iria cuidar de nós quando ficássemos doentes? Quem iria pagar o nosso salário ou comprar a nossa mercadoria? Quem iria construir a casa onde moramos? Ou quem iria confeccionar a roupa que vestimos?
 Não precisamos ir além destas hipóteses. Pensemos que se não houvesse na rua onde moramos, os nossos vizinhos, se não houvesse as pessoas que por ali passam, se todas as residências e casas de comércio estivessem fechadas, abandonadas, e não víssemos uma alma viva sequer e nem ouvíssemos a voz de ninguém. No primeiro ou segundo dia até poderíamos achar isso ótimo, mas já no terceiro dia, acharíamos péssimo. Porque não fomos feitos para viver em solidão. Mesmo aquela pessoa que mais repudiamos, ignoramos, ou detestamos por alguma razão, ela é importante na nossa vida: porque ou é a nossa recompensa ou é o remédio amargo que nossa alma doente precisa tomar para curar-se. E não percebemos isso. Porque estamos presos ao nosso próprio umbigo, nossos interesses pessoais e mesquinhos, nosso egoísmo. Porque nós ainda achamos que essa vida humana de começo, meio e fim, é tudo. E não é. É tão somente uma etapa, mais uma página, um capítulo da nossa imortalidade.
Não adianta vencermos ao nosso semelhante, temos que vencer é a nós mesmos.
Derrubamos uma pessoa aqui, e lá na frente, nós mesmos teremos de levantá-la. Não adianta.
Não adianta carregar nas costas um saco de ouro e prata se o saco estiver furado.
Agora, a única coisa que haverá de nos sustentar na hora da dificuldade que certamente virá é a nossa fé em Deus e o nosso amor à vida.
Deus é o nosso Pai. Ele nos fez. Já sabia da nossa vida antes que nos decidíssemos por ela. E ele nos fez a todos para a felicidade e a perfeição. Então, se nós sofremos, não é porque Deus quis ou se esqueceu de nós, é porque nós, livres que somos para tomarmos nossas decisões e escolhermos nossos caminhos, estaremos colhendo o que plantamos. Agimos e contribuímos decisivamente para que aquele momento de desequilíbrio, de instabilidade em nossas vidas ocorresse. Mas, o autor é aquele que melhor pode modificar a sua obra, porque ele a conhece desde o princípio e em toda a sua profundidade. Então, cabe a nós, recuperarmos o equilíbrio, a harmonia em nossas vidas, de modo a cessar o sofrimento que nós mesmos criamos para nós.
Mas então é possível que alguém pense: Ah, mas eu me esforço, faço tudo certinho, e mesmo assim comigo dá tudo errado.
Saiba que há remédios cujas dosagens são mesmo mais forte que o habitual. E o seu uso, mais demorado. Eu mesmo, dos 3 anos de idade até os 12 anos, eu tomei um remédio todos os dias, às 10 da noite em ponto, pra evitar convulsões cerebrais. Hoje, estou curado, graças a Deus e a dedicação, o amor de meus pais que jamais faltaram comigo. Nove anos, todos os dias, sem exceção de nenhum tomando o bendito remédio. E hoje sequer me lembro disso. Nem me lembro que um dia fui um menino bonitinho (bem, ainda sou...) e doente.
Passou... Porque tudo passa. E por isso mesmo, não devemos nos desesperar. Emmanuel nos fala que dificuldade é convite ao crescimento.
O Espiritismo nos ensina que somos espíritos ainda aprendizes, imperfeitos, vivendo em um mundo maravilhoso que nos provê de tudo o que necessitamos desde que trabalhemos para tanto, e onde temos a oportunidade de nos redimirmos perante nossas consciências e de, ao mesmo tempo, irmos aprimorando nossas virtudes, corrigindo nossos defeitos.
E Jesus, há mais de dois mil anos nos disse que teríamos da vida o que déssemos a ela. Disse para nos perdoarmos a nós mesmos e ao nosso semelhante quantas vezes fossem necessárias. Disse que trabalhássemos pelo nosso sustento e o de nossa família, porque ele e Deus jamais haviam descansado. Disse que todos nós independente de cor, raça, nacionalidade, familiaridade, parentesco, crença, somos todos irmãos, e por esse motivo, devemos e podemos nos ajudar uns aos outros, nos amarmos, na forma de respeito e bondade, e sem restrições. E ainda que, miseravelmente por gratidão, devemos amar a Deus, sobre todas as coisas.
Não fomos feitos para a solidão, não fomos feitos para a tristeza. Fomos feito para a felicidade e a perfeição. E estas dependem apenas de nossa boa vontade e de nosso esforço. Quando nos empenhamos por nosso progresso espiritual, os bons espíritos reconhecem nosso esforço e nos ajudam ainda mais do que normalmente já nos ajudam. Porque Deus não desampara a ninguém e incumbe seus prepostos para desempenharem as suas obras de amor e bondade.

Esclarecer as pessoas sobre a lei de causa e efeito, e estimulá-las ao perdão, ao trabalho em favor do próximo e de si mesmo, é dever de todos nós, que já nos esclarecemos a respeito dessas coisas.

Tudo o que a casa espírita nos oferece de bom temos que levar aos nossos lares, ambiente de trabalho, de estudo, de modo a contribuirmos para a melhora do mundo que, necessariamente só será possível se nos melhorarmos a nós mesmos, e ajudarmos que os outros também se melhorem.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

A PONTE


“Um pouco de comida, pelo amor de Deus!” – dizia o homem, mas ninguém parecia escutá-lo. Na verdade, todos que passavam por ele, pareciam ignorá-lo, como se ele não estivesse naquela calçada, sentado, maltrapilho, mal cheiroso, pés descalços, sujos e machucados, barba por fazer a muitos dias, cabelos desgrenhados, e nos olhos, tudo o que possuía estava nos olhos, porque nestes, apesar da revolta indisfarçável na sua voz, havia nos seus olhos esperança.
Foto reprodução
Decidiu o pobre homem que suplicaria uma última vez, uma derradeira tentativa naquele dia que já avançava para o cair da noite.
Quem sabe, ele pensou, uma boa alma, escute a minha súplica.
Repetiu então a sua velha frase: “Um pouco de comida, pelo amor de Deus!... Um pouco de comida para este pobre homem.
Mulheres, jovens, homens, passaram todos, e ninguém se dignou ao menos recusar-lhe uma ajuda. Simplesmente o ignoravam. Era mais fácil, cômodo, exigia menor esforço. Ignorar fazia menor estrago ou estrago nenhum à consciência daquelas pessoas.
Até que de repente, um cavalheiro bem vestido, de modos comedidos e aparência agradável perdeu um minuto de seu precioso tempo para dar atenção àquele homem miserável, despido de orgulho, e esquecido pela bondade humana. Dele aproximou-se, de modo que pudesse melhor escutá-lo:
“Por favor! Nada tenho que mate a minha fome. Já pedi por todos os cantos e a todas as pessoas com as quais encontrei. Sentei-me aqui porque já não tenho forças nem mesmo para caminhar... à espera de uma boa alma que tenha compaixão de mim e me dê algo de comer”.
O cavalheiro manteve o olhar no pedinte como se o estudasse atentamente. Apanhou de seu bolso uma única moeda e deu a ele:
“Levante-se e vá trabalhar – disse-lhe ainda – Vá ganhar sua vida com dignidade e não desse modo humilhante”.
O pobre homem que já se abeirava da velhice, magro, boca ressequida, olheiras profundas, vincos no pescoço, na testa, onde se via uma pequena cicatriz um pouco acima do olho esquerdo, apanhou a moeda do chão, aonde o cavalheiro boníssimo a havia deixado cair diante de sua hesitação em apanhá-la.
“Obrigado – respondeu o pedinte, mesmo assim – E peço a Deus que você aproveite muito bem a sua oportunidade”.
O cavalheiro que já se retirava deteve-se por um instante, e voltou-se na direção daquele que acreditava acabara de ter auxiliado com uma lição de moral e uma única moeda
“Por que está me dizendo isso?” – indagou.
Ao que o pobre homem lhe respondeu:

“Porque na vida, ora passamos pela ponte, ora estamos debaixo dela. Onde alguns permanecem... ainda que não queiram”.

* Crônica publicada no Jornal Diário do Rio Claro, à pág, 2 da edição de 08/10/2014.

MUITO ALÉM DO JARDIM

Quando se imagina que chegou finalmente a hora de colher as flores do jardim da vida, cultivadas com tanto zelo, amor e carinho, eis que vem a tempestade e arrasa com elas. Então, só resta começar tudo de novo,  porque o desejo de ser feliz é maior que tudo, e só o trabalho, do corpo e da alma, concede o direito de vivê-la: a felicidade. – g.j.c.jr. – 06/10/2014

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

A PALESTRA

Todas as sextas-feiras, à noite, sentava-se no último banco a partir do corredor, na última fileira, daquele amplo auditório, perfumado, encerado, vistoso, as paredes pintadas de azul da cor do céu. E ali, entre outras pessoas, passava meia hora de sua vida, olhos atentos nas orientações que tão bondosamente, alguém, escolhido a dedo, se dispunha a trazer.
Foto reprodução
Eram minutos aqueles em que tudo parecia bem resolvido diante de seus olhos ainda que sua mente, insana incerta, destemida, viajasse em injúrias e perquirições nem sempre descoladas da realidade. Tudo parecia bonitinho e no seu devido lugar. Tudo. Até mesmo o ar que parecia lhe faltar, agora suspirava aos seus pulmões, num trabalho incessante; trocara de turno com a dona dor, que inexplicavelmente desaparecera. Nada ficava faltando, nada era demais.
Era alguma coisa tão diferente dos seus dias, do seu mundo lá fora, aquele mesmo que o sufocava com o passar das horas, quando, aos poucos, muito lentamente, embora de modo não menos doloroso, as coisas iam se mostrando daquele jeito soturno, tirano, que só mesmo a realidade é capaz de conceber.
Ali naquele auditório reinava o bem, a harmonia, a perfeição, porque, coisa ruim não passava pela porta, pelos guardas, melhor dizendo, lá embaixo, a menos que viesse trazido por ordem, mandado superior. Trazido bem acompanhado, melhor me expressando, porque, convenhamos, aquele  auditório era um lugar para poucos. Porque como já dizia o sábio poeta vêem os que têm olhos de ver. E só encontra quem procura.
Justamente naquele dia em que passara pensando e envolvido na saudade do seu amigo morto há 26 anos, o palestrante da noite falava sobre perdas inevitáveis. Mas logo desconfiara que o argumento era tão somente pretexto  para entrar com tudo, de sola e supetão, no tema da palestra.
Aquele era um palestrante diferente dos demais. Até os cinco ou dez primeiros minutos percebia-se que era ele próprio quem falava, dali por diante, nem sempre, na verdade, quase nunca, tomado por inspiração o ilustre professor aposentado, humanista, cristão, realista, prudente e sábio, vez em quando, poeta, porque letrado sempre o fora, cedia um espaço de sua mente e abrindo parênteses tantos quantos fossem precisos dissertava sobre o amor, a caridade, o perdão, a fé raciocinada, as muitas moradas da casa do pai, as idas e vindas, e os toma lá da cá da vida com uma naturalidade assustadora. Ao menos para os menos avisados que, pela primeira vez em suas vidas, houvesse arriscado botar os pés naquela casa de oração e sujeitar os seus ouvidos limpinhos, sua mente pura, doce, ingênua às verdades que tanto incomodam a todos nós.
Nosso observado lá se encontrava e ao que parece lá pelas tantas quando o palestrante proferia a prece final, levantou-se, sem escapar dos olhares curiosos daqueles que compartilhavam assentos próximos ao seu.
Fora ao banheiro. O líquido precioso escapou a tempo para dentro do vaso sanitário, para o seu alívio, e o da faxineira.
Deu a descarga, suspendeu a calça, limpou as mãos com água e sabonete líquido; enxugou-as olhando-se no espelho, e só então se deu conta de que havia ganhando uma aparência mais jovial, com aquele novo corte de cabelo mais curto, que embora muito do seu agrado, nenhum pouco agradara sua paquera daqueles dias, que o reprovara por todos os meios.
Subiu as escadas, algo imprudente no seu jeito de caminhar, desafiando os degraus com os calcanhares e retornou ao auditório, mas, a palestra já havia terminado e as pessoas, em fila, encaminhavam-se para a segunda e não menos importante, embora, por desconhecimento de causa, a maioria daquelas pessoas, a considerassem dessa forma, atividade daquela noite.
Sem muita delonga, tomou o final da fila e ficou a esperar a sua vez. Naquele lugar sentia-se muito bem, porque as pessoas o olhavam sem distinção, não lhe faziam perguntas indiscretas, como por exemplo, onde trabalha e quanto ganha. Apenas perguntavam como se sentia, se precisava de algo; não, não precisava não, ele respondia. Mas naquela noite, se lhe perguntassem, a resposta seria outra. Bem outra.
Então, de uma sala escura, iluminada um pouquinho, um pouquinho só, por uma lampadinha de cor azul, saíram as últimas pessoas antes que ele e o que restara da fila de espera adentrassem ao recinto.
Ele sentou-se em uma cadeira dentre as tantas disponíveis, fechou os olhos, elevou o pensamento a Deus, como de hábito, e alguém dele se aproximou, colocando as mãos sobre ele, mas sem encostá-las em sua cabeça, e ele então, de repente, tendo buscado o que podia haver de melhor dentro de si começou a sentir uma energia gostosa, agradável que penetrava pelo alto de sua cabeça e, aos poucos ia envolvendo todo o seu corpo, a cabeça, os braços, as mãos, as pernas, todo o seu corpo, transmitindo-lhe uma sensação de paz, de contentamento, de satisfação, fé e esperança, como ele jamais sentira.
Então, depois de um tempo que pareceu uma eternidade, a pessoa que havia colocado as mãos sobre ele, mas sem tocá-lo, estava de pé, parada diante de si, a sorrir-lhe. Compreendeu que seu tempo havia terminado, e que só restava ele a deixar a sala.
Um tanto encabulado olhou para quem estava a sua frente como se lhe pedisse desculpas, e exatamente por isso, além do sorriso ganhou um aperto de mão.
Foi acompanhado até a porta, despediu-se uma última vez da pessoa que o havia assistido e antes de descer a escadaria, resolveu registrar no caderno de intenções o nome de um ente querido falecido naqueles dias.
Anotou, e quando ia se retirar deparou-se com a última frase do texto que corria na tela do auditório acompanhado de uma música linda, suave, aconchegante. Dizia o texto escrito por um tal Emmanuel: “Na vida, não vale tanto o que temos, nem tanto importa o que somos. Vale o que realizamos com aquilo que possuímos e, acima de tudo, importa o que fazemos de nós.


Voltara para casa aquela noite, sabendo finalmente o que deveria fazer.