segunda-feira, 6 de outubro de 2014

A PONTE


“Um pouco de comida, pelo amor de Deus!” – dizia o homem, mas ninguém parecia escutá-lo. Na verdade, todos que passavam por ele, pareciam ignorá-lo, como se ele não estivesse naquela calçada, sentado, maltrapilho, mal cheiroso, pés descalços, sujos e machucados, barba por fazer a muitos dias, cabelos desgrenhados, e nos olhos, tudo o que possuía estava nos olhos, porque nestes, apesar da revolta indisfarçável na sua voz, havia nos seus olhos esperança.
Foto reprodução
Decidiu o pobre homem que suplicaria uma última vez, uma derradeira tentativa naquele dia que já avançava para o cair da noite.
Quem sabe, ele pensou, uma boa alma, escute a minha súplica.
Repetiu então a sua velha frase: “Um pouco de comida, pelo amor de Deus!... Um pouco de comida para este pobre homem.
Mulheres, jovens, homens, passaram todos, e ninguém se dignou ao menos recusar-lhe uma ajuda. Simplesmente o ignoravam. Era mais fácil, cômodo, exigia menor esforço. Ignorar fazia menor estrago ou estrago nenhum à consciência daquelas pessoas.
Até que de repente, um cavalheiro bem vestido, de modos comedidos e aparência agradável perdeu um minuto de seu precioso tempo para dar atenção àquele homem miserável, despido de orgulho, e esquecido pela bondade humana. Dele aproximou-se, de modo que pudesse melhor escutá-lo:
“Por favor! Nada tenho que mate a minha fome. Já pedi por todos os cantos e a todas as pessoas com as quais encontrei. Sentei-me aqui porque já não tenho forças nem mesmo para caminhar... à espera de uma boa alma que tenha compaixão de mim e me dê algo de comer”.
O cavalheiro manteve o olhar no pedinte como se o estudasse atentamente. Apanhou de seu bolso uma única moeda e deu a ele:
“Levante-se e vá trabalhar – disse-lhe ainda – Vá ganhar sua vida com dignidade e não desse modo humilhante”.
O pobre homem que já se abeirava da velhice, magro, boca ressequida, olheiras profundas, vincos no pescoço, na testa, onde se via uma pequena cicatriz um pouco acima do olho esquerdo, apanhou a moeda do chão, aonde o cavalheiro boníssimo a havia deixado cair diante de sua hesitação em apanhá-la.
“Obrigado – respondeu o pedinte, mesmo assim – E peço a Deus que você aproveite muito bem a sua oportunidade”.
O cavalheiro que já se retirava deteve-se por um instante, e voltou-se na direção daquele que acreditava acabara de ter auxiliado com uma lição de moral e uma única moeda
“Por que está me dizendo isso?” – indagou.
Ao que o pobre homem lhe respondeu:

“Porque na vida, ora passamos pela ponte, ora estamos debaixo dela. Onde alguns permanecem... ainda que não queiram”.

* Crônica publicada no Jornal Diário do Rio Claro, à pág, 2 da edição de 08/10/2014.

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