quarta-feira, 15 de outubro de 2014

UM HOMEM DE FÉ

Conta-se que nos arredores de Jerusalém, havia uma família de camponeses, formada pelo marido, a esposa e o filho.
A esposa adoeceu, e o menino, comovido com o sofrimento da mãe, durante certa noite, vendo-a chorar e gemer de dor, disse a si mesmo que se lhe fosse permitido pedir algo a Deus, pediria que lhe desse o poder de curar todas as doenças do mundo de modo que ninguém mais viesse a sofrer.

Uma ocasião, o menino ouviu a conversa de alguns mercadores, sobre os feitos maravilhosos de um profeta que, naqueles dias, estava em Jerusalém. Segundo aqueles mercadores, era um homem bondoso que tratava a todos com respeito e educação, e tinha o dom de curar as pessoas. E nisso viu o menino, cheio de esperança, a possibilidade de por termo aos sofrimentos de sua pobre mãezinha.
Durante vários dias o menino tentou convencer o pai, em vão, ir à procura desse profeta que atendia pelo nome de Jesus.
O pai, temendo ser ridicularizado e que seu filho fosse tido como louco, pediu a este, encarecidamente, que não dissesse nada a ninguém a respeito desse assunto. E o menino, mesmo contrariado, assim o fez, porque não queria trazer mais problemas ao pai.
Um dia, ao cair da noite, o pai, que já havia tentado tudo para salvar a esposa e despendido todos os seus recursos com esse objetivo, comoveu-se com a obstinação do filho e decidiu que faria o seu gosto. Não daria permissão ao filhinho, de apenas 11 anos de idade, a sair à procura do profeta Jesus que curava os doentes. Iria com ele, porque se já não tinha mais dúvidas de que perder a esposa era questão de tempo, não queria que o filho pequeno tivesse o mesmo fim, porque, caso isso acontecesse, não se perdoaria nunca, nem saberia o que seria sua vida dali por diante.
Então, pediu que a cunhada, que morava ali perto, olhasse a irmã, dizendo que, num último recurso para salvar a esposa doente, iria à procura de um mago que em Jerusalém operava curas milagrosas. Indagado pela cunhada a respeito de quem seria o mago, o homem preferiu omitir o nome, não lhe revelando de quem se tratava.
E assim, pai e filho foram a procura de Jesus, o profeta que curava os doentes, num desesperado e último recurso para salvar a mulher que tanto amavam.
Foi uma jornada longa, difícil, eles mal haviam levado o que comer durante a viagem e apenas água o bastante para saciar a sede.
Chegaram a Jerusalém, cansados, doloridos, sujos, famintos e depararam-se com uma multidão de pessoas acompanhando a via dolorosa de um condenado à crucificação que, penosamente, entre quedas e humilhações seguia para o Gólgota. Souberam que se tratava de Jesus, o qual tinham ido à procura.
O pai desiludido ordenou que o filho abandonasse aquela ideia descabida e o seguisse de volta para casa. Como poderia um condenado á crucificação curar a esposa doente. Mas o menino, decidido, negou-se a fazê-lo. Queria acompanhar os passos de Jesus e ao menos aproximar-se dele, porque tinha certeza que se isto fizesse, seria o bastante para que sua mãe ficasse curada.
Não foi possível, entretanto, que o menino tivesse êxito em seu propósito. Os soldados romanos e a multidão enraivecida não permitiram que eles sequer se aproximassem. Mesmo assim, houve um instante em que o menino pode ver quando uma mulher interrompendo o cortejo enxugou o rosto de Jesus com um pano.
Então inesperadamente, a mulher tomou a direção onde se encontravam o menino e seu pai, colocando-se entre eles, a chorar. O menino olhou para o pano, que havia enxugado o rosto de Jesus, e que continuava nas mãos da mulher, e o tocou sem que ela percebesse, mas como lhe fosse um objeto sagrado e para o qual declinava a sua devoção.
Tentou uma última vez livrar-se das mãos ásperas e rígidas do pai que o detinham, mas não teve forças.
Seguiu o cortejo e foi-se a multidão. E ele e o pai retornaram para casa. O pai contrariado, o menino, cheio de esperança, sorrindo a maior parte do tempo, durante o percurso.
Que tanto sorri, menino? – disse-lhe o pai – Como pode? Sua mãe está à beira da morte e nós a abandonamos à procura de uma ilusão.
O menino olhou para o pai, finalmente, então respondeu:
“Uma certeza, meu querido pai. Não uma ilusão”.
“Que está dizendo? Não sabe o que está dizendo! Podemos chegar a nossa casa e sua mãe já poderá ter morrido”.
“Pai! – disse o menino, sorrindo, meio jocoso, tamanha a sua convicção”.
“Não brinque! Isto é sério! Não tem ideia do que será sua vida sem a sua mãe”.
“E quem disse que irei perdê-la?”
“Não sei de onde você tira tanta certeza de algo tão improvável”.
“Da minha fé, pai! – respondeu – E do amor daquele que veio ao mundo para nos salvar”.
“E que não salvou nem a si mesmo. Como pode salvar agora a sua mãe ou qualquer outro, se está morto?”.
“Pai! Ele não está morto. Ele vive!”.
“Vive? Onde?”
“Pai! Seja compreensivo ao menos! Por Deus!”
“Deus? Onde? Diga-me? Onde está Deus? Desde que tinha sua idade e mesmo antes clamo por ele em vão!”.
“Quando chegarmos a nossa casa, pai, você verá que Deus nunca esteve ausente de sua vida”.
Continuaram a viagem e não mais trocaram palavra alguma.
Era mais ou menos três da tarde do dia seguinte quando retornaram. E foram diretamente ao leito da esposa e não a encontraram. Saíram então à procura da mulher a cujos cuidados a mãe do menino havia ficado. E a encontraram varrendo os fundos da casa.
“Onde está...? disse o marido, com o coração na boca; aflito, temeroso, que sequer conseguiu terminar a frase, e nem pode perceber que o filho havia se retirado para longe.
A cunhada, então parou de varrer o chão, e olhando para ele muito seriamente, respondeu-lhe:
“Sua esposa não está mais naquele quarto”.
Os olhos do marido brilharam e foram tomados por lágrimas.
“E onde ela está?”
“Não sei. Mas deve ter saído pra buscar água”.
“Como assim? Ela não pode. Não tem força nem para caminhar. Está muito doente!”.
“Estava”.
“O que você está dizendo, mulher?”.
“Há cerca de hora e meia, chegou aqui um homem dizendo-se presente a seu pedido, para cuidar de sua esposa”.
“E o que você fez?”
“Mesmo contrariada, cedi que ele a visse, porque mal conseguia olhar nos olhos dele tamanho o poder que exercia sobre mim a sua pessoa. Ele me disse para que não temesse, apenas que tivesse fé e tudo estaria bem. Então de repente me lembrei do mago que você disse ter ido à procura, e senti-me confiante, achando que pudesse ser ele”.
“E o que ele fez desde então?”
“Nada demais. Aproximou-se do leito de sua esposa. Ajoelhou-se e deve ter orado por ela. Depois, ao levantar-se, pediu apenas que eu desse água a ela. Mas que o fizesse com fé e pensando em Deus misericordioso que é todo amor e bondade. E assim eu procedi. Mas quando voltei com a água, ele já tinha partido, sem deixar vestígio de sua presença”.
“Como era esse homem? Descreva-o!”.
“Não sei exatamente. Não pude olhar diretamente nos olhos dele. Mas exalava um perfume muito agradável de seu corpo. Suas vestes eram brancas feito as nuvens. Estava descalço. Tinha a cabeça coberta”.
“E ele... este forasteiro – perguntou o angustiado homem – acaso lhe disse como se chamava?”
“Sim! Ele disse. Disse que se chamava Jesus”.
O homem então caiu de joelhos, e foi amparado pela esposa e o filho que chegavam trazendo água.



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