quinta-feira, 27 de novembro de 2014

BAIXO

Tudo colocado 
À sua disposição
Ao seu alcance
E lhe convencem
Sem maior dificuldade
De que tudo é possível
Eles o atraem para a cilada
Preparada desde o princípio
Contam-lhe uma estória de amor
De final feliz aonde se chega
Depois de muita dor
Afinal, a recompensa
Possível a todos convence
E então você sorri
Imaginando-se feliz
Vê, entretanto
Que o caminho longo
Sinuoso, esburacado, a seguir
Desconhece outro fim
Em um mundo redondo
Chega-se exatamente
Onde se começou
E mesmo assim você sorri
Acreditando-se feliz
Pouca coisa basta
E eles sabem disso
Pra lhe convencer
Mas então de repente, a chuva
E um clarão no céu
Que se abre em dois, depois
E vidas imaginadas, jamais vividas
Surgem: da terra, do alto, e por todos os lados
Desnudando a mentira
Negando a verdade, tida e havida, até então
Soam trombetas
E vestais de sabedoria revelam-se ímpios
Isopores em essência, argila, porcelana – chinesa não
Barro a ser forjado desconhece o fogo
Nuvens em movimento
Garoa
Vento frio, intenso
Sepultando almas mortas
Vísceras fecais
Ossos desnudos, descolados, partidos
Neurônios inanimados
Matéria pútrida
Cortina de fumaça saindo das entranhas
Do que antes era dúvida, prisão, talvez sim, talvez não
Paraíso imaginado para os de fora, os lúcidos, os sãos
Duas portas, porém, de repente, revelam-se adiante
Qual o caminho a seguir?
A terra é redonda, oca, sim ou não, tanto faz
Origem e destino convergem para o mesmo ponto
E esta é a ilusão, a qual escapam os que veem


quarta-feira, 19 de novembro de 2014

CARNE, LIVROS E IDEIAS

A maior dificuldade humana é atingir o ponto de equilíbrio em seu modo de pensar e em suas ações. A harmonia rege o Universo, e nós ainda não a atingimos. E esta é a origem de todos os nossos conflitos, portanto, de nosso sofrimento. As pessoas consideradas "Iluminadas" parecem ter entendido essa realidade, e saíram desta vida como vitoriosas, senão como seres humanos, certamente como espíritos, que, enfim, é o que importa. Em um mundo de terceira dimensão como este, a dualidade entre o Bem e o Mal é a maior característica e a mais contundente e sobre a qual se baseiam todas as crenças, filosofias, enfim, os modos de ver e viver a vida. Essa é a realidade que nos é possível. É a realidade que podemos suportar. É preciso mesmo muito cuidado com as palavras. Jesus abriu a janela de nossa consciência espiritual e nos mostrou apenas um pedaço do céu. Mas nós sabemos que o céu é muito maior que aquele que Jesus nos mostrou e o Espiritismo, enquanto ciência e filosofia nos vêm esclarecer isso. E Jesus mesmo disse que não nos mostraria tudo porque não suportaríamos.
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Pior que o consumo da carne animal, tema de discussão e controvérsia sempre atual e dos mais palpitantes, é o comércio que dela se faz. Mas o mesmo se verifica atualmente, e, infelizmente, na literatura espírita, considerando que as editoras, aquelas com fins comerciais principalmente, tem aceitado tudo o que vem dos espíritos (?), sem se preocupar muito, ao que parece, em separar o joio do trigo, prestando um desserviço à causa espírita, que, por meio de ideias mirabolantes, veiculadas nos livros, seja no gênero de ficção ou não ficção, iludem, enganam, confundem. Maior preocupação isso causa quando se percebe que instituições ícones do movimento espírita, têm dado amparo a essas iniciativas, sem o devido cuidado e discernimento que delas se esperaria. Divulgar a doutrina espírita, o evangelho de Jesus, sim, mas de que modo e a que preço, preciso se faz uma reflexão, porque é muito perigoso divulgar meias verdades, e mesmo mentiras, sob a chancela espírita, para atender a interesses meramente comerciais, portanto, escusos, se postos diante dos reais objetivos da literatura espírita, e que se constitui em diferencial perante às demais, que é justamente, a sua capacidade de esclarecer e consolar as pessoas, principalmente, aquelas que sofrem. 
Voltando a origem de nossa exposição, recordemos que tudo é energia no universo, e nós, espíritos, podemos manipulá-la conforme nosso conhecimento e sabedoria.
E se tudo é energia, a matéria, ou aquilo que se pode entender como tal, é uma de suas infinitas formas. Neste mundo de terceira dimensão, a matéria se apresenta na formas conhecidas até o momento: sólido, líquido, gasoso e radiante. A constituição da matéria é a química. Assim, a mesma substância química que faz um remédio, se modificada, pode fazer o remédio se tornar veneno para o consumo humano. 
Devido aos resquícios de nossa constituição orgânica, desde os primatas, que tinham na busca por alimento seu único objetivo de vida, a maioria de nós, ainda se alimenta da carne animal, sem a qual se enfraquece, adoece e morre se acometido de anemia, por exemplo.
Educar-se, a mente e a alma, nos parece ser o melhor caminho. Mas a educação esbarra no interesse econômico, ao qual o ser humano ainda permanece preso, devido ao sistema social, político e econômico que impera e o subjuga.
Neste século 21, que apenas se inicia as verdadeiras revoluções serão aquelas que exigirão da sociedade humana mudança de comportamento, isso resultará em confronto de ideias e interesses. Mas à medida que as novas gerações, mais evoluídas espiritualmente, portanto menos egoístas e mais altruístas, com uma visão de vida e de mundo que diferentemente da nossa, vai além do próprio umbigo, forem substituindo as atuais, essas desejáveis mudanças de comportamentos e de hábitos se tornarão possíveis e introduzidas pouco a pouco.
Cremos sinceramente que no futuro espíritos melhores habitando corpos físicos melhores (porque esta exigência se fará naturalmente, o que implicará em progresso, também nesse aspecto humano), não precisarão mais do consumo de carne animal para sobreviver.
Consideramos também desnecessário os ataques pessoais resultantes de opiniões a respeito desse tema como de qualquer outro. Pode-se muito bem expor ideias e opiniões sem levantar o estandarte pretensioso da verdade, que, por acaso, desconhecemos.
Consideramos ainda que, tomar por base o nosso parco entendimento dos ensinamentos do Cristo, para formularmos nossas teses, é atirar-se ao abismo sem fim. Ou tentar fixar o olhar no sol em pleno meio dia num céu de brigadeiro.
Seremos mais prudentes se nos preocuparmos em entendermos aspectos da vida humana baseados na realidade que nos é possível, ou seja, esta, porque, como nos disse Jesus, é aquela que por ora podemos suportar.

domingo, 16 de novembro de 2014

NICK PASSOU POR AQUI

Você lê uma vez, duas. Lê uma terceira vez, e não acredita que parece ser tão fácil de tão simples. E em verdade, não é. Com mais atenção, perceberá que se trata do resultado de grande esforço por tornar as coisas de um modo absurdamente claro e encantador. Parece mesmo que a construção das frases e dos períodos acompanha a respiração do leitor. De modo que a leitura não cansa. Em princípio, ela parece ser repetitiva, mas com um pouco mais de atenção percebe-se que talvez seja consequencia dos muitos ângulos de ver e entender uma mesma imagem. Algo como Cèzanne fazia. Não por acaso.
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Estou lendo “Contos” – volume I, de Ernest Miller Hemingway, editado pela Bertrand Brasil, que detém no país os direitos sobre a obra deste escritor norte-americano. É daqueles livrinhos que se tornam um ótimo companheiro para os raros tempos ociosos de que dispomos ou inventamos por necessidade de sobrevivência neste mundo tão exigente de tudo que é nada e de tudo que é transitório, e ao mesmo tempo tão estúpido.  Mundinho onde as pessoas acreditam fazer amizades e encontrar amores que valham a pena em redes sociais, tendo um maldito telefone celular às mãos. Admito que não é este o meu mundo. Prefiro aquele mundo onde ainda existem livros, jornais, revistas, vinhos, telas, esculturas, ideias para serem apreciadas, debatidas e contrariadas; caminhos a serem descobertos e seguidos, ainda que levem ao abismo, de onde, ao contrário do que muitos pensam, é possível sair sim, inclusive mais sábio, experiente e mais forte. Prefiro aquele mundo que apresenta uma ideia contra o vento, onde é possível ir à cidade sábado à noite. E onde ainda há boas ideias para guardar de reserva, esperando quem sabe um novo e irresistível pretexto para perder cinco minutos da vida preciosa, escrevendo coisinhas como estas.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

OBRAS DE MODIGLIANI BATEM RECORDES EM LEILÕES

Se os restos mortais do artista italiano Amadeo Modigliani (1884-1920) descansam em paz no cemitério de Père Lachaise, em Paris, suas telas e esculturas continuam muito vivas e dando o que falar.
Recentemente, a escultura “Téte”, de sua autoria, produzida em 1911, foi arrematada em leilão, realizada pela Sotheby’s, de Nova York, pela bagatela de 70 milhões de dólares, algo inimaginável na Paris do início do século 20, quando o pintor era esnobado pelos entendidos, leia-se marchands, críticos de arte, artistas contemporâneos e a elite intelectual dominante que não souberam entender o espírito libertador, sensual ao extremo, delirantemente obsessivo, por vezes, mas indubitavelmente genial de Modigliani.
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Nos dias de hoje, em que pese dúvidas que pairam sobre a autenticidade de alguns trabalhos considerados de sua autoria – há quem diga que Modigliani morto tem produzido mais que quando vivo, e, além disso, por conta de dívidas o pintor desfez-se sem acusar autoria de várias de suas produções – têm batido recordes atrás de recordes em disputados leilões que reúne a nata dos endinheirados amantes da cultura, dispostos a torrar alguns milhares de dólares em obras de arte.
Em fevereiro de 2013, um retrato de sua amante Jeanne Hebuterne, por ele pintado, foi vendido em Londres, na Casa de Leilões Christie’s pela sugestiva importância de 42 milhões de dólares.
Três anos antes, outro quadro seu, “A Bela Romana”, produzido em 1817, alcançou as cifras de quase 69 milhões de dólares, em leilão promovido pela Sotheby’s, em Nova York.
E já em 2012, a tela “Jeunne Fille aux Cheveux Noirs” atingiu o valor de 1,3 milhão de dólares.
Anunciar uma obra de Modigliani disponível para ser arrematada em leilão é causar expectativa nos colecionadores e formigamento nas mãos de quem se dispõe a diminuir o seu acervo cultural.
Contemporâneo de Picasso, que o admirava, embora não admitisse em público, diferentemente do espanhol, por quem destilava ódio, o italiano produzia envolvido pela febre da inspiração ou da necessidade.
Em vida, Modigliani produziu aquém da sua capacidade, e vendeu pouquíssimos trabalhos. Pintava e esculpia com a mesma genialidade. Fora um artista além do seu tempo, de temperamento obsessivo, e um homem que não conseguiu se adaptar às circunstâncias de uma vida a qual já começou perdendo de goleada.
Seu nascimento foi inusitado. A mãe dividia a cama com os pertences da família, o que segundo a lei vigente impedia que as autoridades tirassem dos arruinados Modigliani o pouco que lhes restava
Quando menino era muito doente, e este foi o motivo principal que fez a família mudar de Livorno, sua terra natal, para Paris em busca de melhores ares, e alguma luz, talvez.
Modigliani fora amante da poetisa russa Ana Akhmatova, mas teve na jovem Jeanne, a sua musa inspiradora. Do seu jeito doidão, meio irresponsável, resultante do alcoolismo e das drogas das quais era dependente, com Jeanne enfrentou a incompreensão dos pais dela que não aceitavam o relacionamento de ambos, ele era judeu, promíscuo, alcoólatra, inconsequente por vezes, e ela uma prendada moça católica, até conhecê-lo. Tiveram um filho, tirado do convívio do casal, pelas autoridades, por influência dos pais de Jeanne.
Coube ao seu amigo, o poeta polonês Leopold Zborowski prestar-lhe algum reconhecimento em vida viabilizando-lhe uma exposição individual na afamada Gallerie Berhe Weill, que durou apenas um dia, por causa das telas onde se destacam os nus (uma das características de sua obra) expostos na vitrina.
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*ARTIGO PUBLICADO NA EDIÇÃO No. 129, DEZ./2014, DO JORNAL AQUARIUS.
 

A dramática vida pessoal e artística do pintor ganhou as telas do cinema em 2004, em filme dirigido por Mick Davis que também assina o roteiro. Andy Garcia está no papel principal. E a cena que inicia o filme dá bem conta do que era Amedeo Modigliani.

domingo, 9 de novembro de 2014

MAL ENTENDIDO

O bar ficava no centro velho da cidade, e ali costumavam se reunir desde que eram adolescentes pra tomar refrigerante e comer amendoim, e depois, lá pelos 19, 20 anos, pra beber algo mais forte e proibido para menores. Há desforras que levam tempo demais até serem obtidas.
Eram bons amigos, cúmplices, e cuja convivência, geralmente prazerosa, já havia sido maior. Também a cumplicidade, e a confiança entre eles. Mas à peneira natural da vida, que elimina o inútil e o descabido, eles haviam sobrevivido de parte a parte. Não se poderia dizer que se tratasse de uma conquista, talvez um consolo, quando muito.
“Tem visto Alice?” – perguntou Renato, enchendo pela quarta ou quinta vez, naquela noite, o copo de Vitor, que, incrivelmente, estava sempre vazio.
“Não – respondeu Vitor – Recentemente, não – e olhando para o copo e o fazendo girar sobre a mesa – Faz alguns meses, vários, na verdade, eu a vi, saindo de uma agência bancária. Parecia feliz”.
“Você nunca me contou exatamente a derradeira conversa que tiveram”.
“Poupe seu tempo”.
“Eu insisto. É importante para as minhas pesquisas. Prometo guardar segredo”.
Vitor ainda ponderou dois ou três segundos, enquanto Renato, cordial e interessadamente completava-lhe o copo uma vez mais.
“Eu disse a ela: Alice olhe bem para mim, querida. O que você pensou? Que eu fosse pedi-la em casamento? Eu só queria a sua companhia, a sua atenção, o seu olhar, vez em quando, voltado para o meu. O seu abraço, nas horas em que mais eu me sentia só, nas minhas horas mais difíceis. Porque a isso me propus. Porque sabia desde o início, e mesmo antes do início – se é que você me entende – eu sabia que seria assim. Mas você confundiu, estragou tudo. Se afastou de mim, e me evitou como se eu fosse portador de um mal terrível, tivesse uma doença contagiosa. Ou fosse teu pai doente à beira da morte, que você não tivesse coragem de cuidar. E você nunca, em momento algum, me disse o por que desta sua atitude. Não considerou que eu merecesse pelo menos isso: uma palavra, uma justificativa da sua parte. E pior que você achou tudo isso normal. Ou o teu desprezo, ou o teu medo, sei lá o quê, fosse alguma coisa que o tempo levasse e a distância curasse, fizesse esquecer”.
Até então, ela o escutara pacientemente. Sem esboçar nenhuma reação. Nem fizera menção de interrompê-lo a qualquer momento. Contudo, antes fechou os olhos, e depois disse, acreditando que tais palavras pudessem servir de resposta ou de bálsamo para uma ferida aberta há tantos anos. A aflição do seu olhar transformou-se de repente em desespero na sua voz, sempre bem colocada:
“Eu não queria vê-lo morrer pouco a pouco!”.
“E eu morri, mesmo passado tanto tempo?”.
“Não! Mas dava a entender naqueles dias que iria sim. Sempre deu a entender isso... Ao menos para mim”.
“A você?”
“A mim, aos outros... a todos que o conheciam”
“E de que forma fiz isso, pois não me recordo”.
“Suas palavras, sua reações, seus procedimentos”.
“ Alice você não gosta mais de mim, encare o fato.  Nunca gostou como poderia. Mas não tem nenhum problema, sabe. Por esse motivo é que não vou morrer”
“Não mesmo” – disse ela, desviando o olhar dele, voltando-o para o chão, em seguida.

Vitor deitou o lápis sobre a mesa, onde rabiscava um guardanapo de papel, e sem se dar conta, deixou escapar o pensamento, enquanto o amigo o observava.
“Se este é o desfecho da história, Vitor, você acaba de encontrar um pretexto para escrever um novo conto. Quem sabe um novo livro”.
“Cujo final eu ainda não sei”.
“Nunca mais a viu?”
“Nem me pus a procurá-la”.
“Redes sociais, os lugares onde freqüentavam...?”
“Não”.
“Ela ainda está envolvida com o movimento?”.
“Sinceramente não sei”.
“E você, está?”
“Acho que nunca estive como eles gostariam que eu estivesse”.
“Desculpe minha franqueza, mas você sempre fugiu às responsabilidades, para as quais, inclusive, estava preparado”.
“Estava?
“Ora, nunca soube de alguém que duvidasse disso além de você?”.
“Qual o problema”?
“Eu não sei. E acho que nem você mesmo o sabe. Mas, me incomoda essa mania que você tem de encontrar problema em tudo. As pessoas o invejam por sua inteligência, e você a despreza, sabe-se lá por qual motivo. Talvez...”.
“Conclua”
“É mais cômodo pra você não enfrentar a luta” – prosseguiu o amigo, ajeitando-se melhor na cadeira.
“Sim, alguém me disse um dia que sou acomodado”.
“E você é?”
“Não para o trabalho no qual acredito e faço”.
“Qual trabalho?”.
“O meu”.
“Mas o seu trabalho, este ao qual você se dedica obstinadamente, jamais o recompensou por seu esforço e por sua inteligência”.
“Chegará o dia”.
“Quando?”
“Deus sabe”.
“E se não chegar?”
“É porque então Deus não existe”.
“Ele existe? Deus?”
“Não sei. Não posso provar. Mas eu existo”.
“Não é o bastante”.
“Pra você. Pra mim é mais que suficiente”.
“Já pagou o aluguel este mês?”
“Não”.
“Vê! Não é o bastante”.
Levantou-se o amigo, deixando algum dinheiro sobre a mesa.
“Esqueça a fantasia, Vitor. Volte-se à realidade. Não subestime a vida. Porque o tempo traz uma fatura de valor alto demais para ser pago. E se continuar neste caminho perdulário de moral e sentimentos, você não terá lá na frente como pagar a fatura”.
“Talvez não haja lá na frente”.
O amigo, que já ia, voltou-se:
“Essa é uma possibilidade. Mas não passa disso. E jogar com a vida não torna ninguém um herói, mas um derrotado”.
“Torna um covarde – disse Vitor, corrigindo o amigo – Soa mais bonito”.
“Como quiser, meu caro. Mas seu destino continua em suas mãos”.
Naquela noite, Vitor voltou para a casa, trôpego de bêbado. A roupa puída, velha e amassada. Seu aspecto era semelhante aos velhos papéis do arquivo onde costumava pesquisar, quando conseguia por caridade de amigos influentes, arranjar um free-lance pra ganhar uns trocos e dar conta da sua sobrevivência, ou seja, seus livros, sua bebida e seu maço de cigarros. Mulheres, às vezes, quando a necessidade se impunha.
Deitou-se na cama e o mundo girou muitas vezes, em seu redor. As paredes do quarto, dele aproximavam-se e, depois, distanciavam-se. Era como o vai e vem das ondas do mar, que visitava pelo menos a cada dois anos, na baixa temporada, quando as despesas tornavam-se menores.
Levantara-se algumas vezes para ir ao banheiro durante a noite. Mesmo as paredes do banheiro pareciam ora grandes demais, ora pequenas demais. Não sabia em qual vaso deveria expelir a urina. Porque de repente eram muitos vasos, alguns à esquerda e outras à direita, e ele não se lembrara de ter feito alguma reforma na casa. Ora, não era mais aquela a sua casa, de repente, lembrou-se experimentando um gosto amargo na boca, que para seu pai, era como o do cabo de guarda-chuva.
Foi para a cozinha por volta de três da manhã. A velha rotina. Fez o café, que, como de hábito, não ficara muito bom. O calor era insuportável naquele novembro. Então botou a cara diante do ventilador, que ficava geralmente sobre a geladeira, mas que ele conseguira daquela feita colocar sobre a pia. Mas não se lembrava como. Mas aquilo também não era importante.
Costumava deixar algumas folhas em branco sobre a mesa da cozinha, perdidas entre pratos, talheres, copos, cascas de pão, guardanapo e mosquitos, evidentemente, sendo que todos estes inquilinos,  feito ele, naquela espelunca de apartamento, passaram sob a sua devida e acurada atenção. Havia aprendido que observar os detalhes é fundamental, para compor o clima dos acontecimentos.
Então rabiscou os mesmos rabiscos que havia rabiscado no guardanapo na mesa do bar onde passara horas agradáveis com o seu melhor amigo, naquela noite. Mas agora os rabiscos ficaram na toalha, de onde, certamente, jamais seriam removidos. Porque teria a bendita toalha de mesa, que fora de sua mãe, o mesmo destino que a maioria de suas meias e cuecas: o saco de lixo.
Logo os rabiscos se tornaram figuras assimétricas; quebrou-se a ponta do lápis tamanha a força que ele impunha aos traços, mas havia outros lápis sobre a mesa. Ao menos deveria haver. Talvez debaixo da toalha, ou da fatia de pão cortada e esquecida, intacta, embolorada. Das bolachas Mabel. Ou do saco de batatas fritas. Sim, o saco de batatas fritas, é claro! Lá estava, o lápis, no saco de batatas fritas, no lugar das batatas fritas.
Achou o lápis e sentiu-se feliz por isso, e percebeu o quanto era um idiota pelo fato de se emocionar com coisas estúpidas e insignificantes, as coisas simples da vida e sem nenhum valor objetivo, assim, feito ele, como achar um lápis que julgava perdido, um lápis sem ponta, dentro de um saco de batatas-fritas. O outro lápis, aquele que tinha ponta, estava no bolso da camisa. Era um lápis novo, bonitão, cheio de estilo, o lápis que tinha ponta.  Mas não se lembrava até então que o havia colocado ali, no bolso da camisa, ao sair de casa para encontrar-se com o Renato, o seu melhor amigo.
As figuras assimétricas que desenhava sem nenhum propósito na velha toalha de mesa, que um dia fora de sua mãe, transformaram-se em palavras a um impulso espontâneo em sua mão direita que não pôde resistir. E as palavras se sucederam, embora ele não soubesse exatamente quais.
Entretanto sabia, porque estava habituado a esse fenômeno, que é um portal que os sentimentos e as ideias atravessam para se transformar em palavras. O portal cósmico da consciência que separa o imaginário e o desejo, da realidade. Nunca entendera muito bem esse processo. Mas ao mesmo se submetia sem receio algum. E o resultado era que as coisas aconteciam. E as coisas eram a sua escrita. O que revelavam e o que sugeriam, e o que indagavam aquelas palavras.
Os muitos modos de se observar o céu, são os mesmos com os quais se observa a vida. Mas quem parava para refletir sobre isso? – costumava pensar nas ocasiões em que se davam tais fenômenos.
Naquela noite, entretanto, as palavras vinham à sua mente: fortes, enormes, poderosas, mas feito as ondas do mar, quebravam-se nas pedras da indiferença que os melhores sentimentos, as melhores possibilidades destroem.
Abandonou a escrita, convencido de que as palavras não poderiam naquele instante lhes oferecerem nenhum conforto ou esclarecimento, nenhuma segurança. Caminhou arrastando os pés até a porta da cozinha que dava para a área de serviço, um cubículo de dois por um, talvez menos, que dava vistas para outros prédios das ruas e avenidas próximas. E também para o céu. Mas resolveu esquecer o céu. Daria boas vindas a ele na manhã seguinte, quando estivesse mais vistoso.
Acendeu um cigarro Continental, hábito maldito do qual não conseguia largar senão quando algumas feridinhas surgiam nas suas gengivas, e, doloridas, as faziam sangrar, enquanto escovava os dentes  a cada manhã, o que o fazia se lembrar de que precisava muito depois de muitos anos visitar o dentista.
Mas a visita ao dentista, assim como a visita à irmã, ao irmão sobrevivente, ao amigo Renato, e à casa de oração a qual frequentara assiduamente em uma determinada época de sua vida, eram feito aquelas situações narrativas de um texto literário, as quais, sob o pretexto de prender um pouco mais a atenção do interessado leitor, sempre se acaba deixando para as futuras páginas.
Vindo não se sabe de onde, as primeiras notas de Miss Sarajevo, tocadas ao piano, chegavam naquela noite aos seus ouvidos. Apoiou-se no batente da porta com a mão direita, enquanto que a esquerda se dividia com grande esforço na difícil tarefa de segurar o cigarro e a garrafa de vinho ao mesmo tempo. O copo já havia se espatifado no chão, e agora, estava sendo esmagado, triturado ainda mais pela sola do seu sapato, sem que ele percebesse.
O amigo do coração e de copo lhe dissera certa ocasião que para cada história que se dedicasse a escrever, cada boa história, teria necessariamente de viver um grande amor. Porque certamente não encontraria motivo, e nem teria combustível suficiente que o levasse a enfrentar a grande batalha de escrever bem, ainda que jamais pudesse vencer o medo de que não fosse capaz de enfrentá-la e vencê-la. Mais do que vencê-la, passara, entretanto, aqueles últimos anos de sua vida, tentando concluí-la. Porque aprendera desde cedo que há batalhas que se vencem, mas que não se consegue concluí-las.
“Você é uma privilegiada neste mundo maldito” – ele dissera a Alice, quando, na calçada, se dirigiam para o carro, numa noite qualquer, após deixarem uma festa e os amigos para trás.
E mesmo não entendendo muito bem o que significava aquela afirmação, ela ficou a olhá-lo, intrigada, curiosa, mas nada disposta a demonstrar que estava realmente interessada no assunto.
“Acontece que, diferentemente das outras, você permaneceu”. – ele prosseguiu, enquanto abria a porta do carro.
“Onde exatamente?”.
“No meu coração. E é justamente por esse motivo que jamais pude por um fim nas coisas como gostaria”.
“Eu o impeço de ser feliz?”
“Não. Antes fosse, porque então seria mais fácil de resolver. Mas em verdade, você é a luz que fez reacender a minha esperança”
“Perdoe-me por ter lhe causado esse mal”.
Com os cotovelos sobre o capô do carro, ele disse:
“Eu nunca sei quais são os dias do mês”.
“E que importância tem isso agora?”.
“Como poderia pedi-la em casamento?”
“Pois não ouse fazê-lo”.
“Agora é tarde?”
“Muito tarde”.
“Tão tarde que torna impossível?”.
“Não é exatamente o tempo que torna impossível. Mas é o que tempo traz consigo”.
“Quando um texto não me agrada, eu o elimino, amasso e jogo fora”.
“Dê-se por feliz, eu já não consigo tal desprendimento”.
“Por que tem medo”
“Medo?”
“Medo. Das feridas que ficarão abertas, depois”.
“Não, querido, apenas porque não sou uma escritora. Eu pertenço ao mundo real. E você, não”.
Na mente dele fizeram-se as trevas, e no coração, o silêncio. Experimentou súbito uma sensação de vazio e de ausência. Duvidou que houvesse tempo e espaço. Chão sob os seus pés, não existia. A vida lhe parecia em suspenso. Como se o ar faltasse, e a matéria ao seu redor não tivesse peso, nem forma... Nem ele próprio tivesse.
Começava a chover, ainda que sem muita força, quando Vitor retornou a si, afugentando-se dessas lembranças. Só então se deu conta de que o cigarro havia queimado seus dedos, dos quais se utilizava para escrever com o lápis, e ele, sem que percebesse, havia esvaziado a garrafa, e que o copo, finalmente já havia sido triturado o bastante para se tornar um pó viscoso e meio transparente, sob a sola do seu sapato, agora, mais gasta que antes.
Mas antes que fosse até a cozinha apanhar outra garrafa de vinho, descobriu que Alice permanecia ainda muito viva na sua lembrança:
“Não tente terminar a sua história – disse-lhe ela – Não faça isso com você. Faça diferente. Faça melhor que isso. Tente melhorá-la, a partir daqui. Até que, naturalmente, ela se torne outra historia. Mais bonita”.
“Será. Se você dela fizer parte”.
Mas isso ele disse às paredes. Porque a voz dela, que ele tão bem conhecia, já havia desaparecido de sua lembrança.

Muitos anos haviam se passado desde então. Desde a última vez em que Vitor estivera com Alice.
A chuva aumentara. O barulho na rua também. Pessoas indo ou voltando de festas. Algumas – jovens – gritando, palavras inapreensíveis. Grunhidos, talvez. Ele também voltaria. Voltaria à sua realidade. Sua vida medíocre, da qual, em verdade, jamais se fizera ausente. Nem mesmo em pensamento, nem mesmo enquanto escrevia.
Foi para a sala, ainda escura, sentou-se na poltrona e ligou a tevê. Os programas da madrugada já não eram os mesmos de quando ele tinha 19, 20 anos. Goulart já havia morrido, não havia mais plantão, nem comando, tudo quieto ao redor, mesmo os filmes eram outros. A poltrona era a mesma. A televisão também. E as cortinas, ainda não lavadas, desde que Raquel se fora para casar-se com um obreiro da igreja. Na estante, os livros e as coleções mofavam; também os LP’s, porque seu pai já não podia lê-los nem escutá-los. Se abrisse as gavetas da estante, carcomida de cupim, encontraria certamente jornais de 1994, 95... E entre eles, recortes de mulheres de biquíni, e bonitas, que o pai colecionava às escondidas.
Na mesa da cozinha, em meio aos pães, aos talhares, os copos, as garrafas de vinho... muitas, permanecia, intacta, a sua história, escrita numa toalha de mesa, e que ele deveria melhorá-la, ou sepultá-la no campo santo das suas lembranças. Porque lá fora, o sol já se levantava. E alguém, cuja voz tão bem conhecia, o chamava no portão.







segunda-feira, 3 de novembro de 2014

COM A PALAVRA, O ACUSADO:

Reprodução
Muitas coisas se explicam por vezes, apenas com olhares e gestos, uma palavra despercebida, da forma mais sutil, discreta e dolorosa, porém verdadeira. Mas ao mesmo tempo é a chance que se tem para aceitar a realidade, levantar-se do chão, seguir adiante, sem olhar para trás. Nada resiste ao tempo e à distância, nem os melhores e nem os piores sentimentos. E, geralmente, isso é muito bom. Permite que se continue a viver. Só restando saber, por qual outro motivo.  

MENTIROSOS E INSANOS... ETC

Por que sofre um escritor? Que pergunta mais estúpida! Por qual outro motivo ele se disporia ao inútil ofício de escrever?
Reprodução

domingo, 2 de novembro de 2014

COMECE O JOGO

Se tudo pudesse ser dito, escrito,
Mencionado é, por vezes;
Se tudo pudesse ser demonstrado,
 Revelado o sublime segredo,
De cor e salteado sabido;
Se entre um suspiro, um olhar e outro;
E se toda vez em que faltasse o ar
E o olhar, em suspenso ficasse
Em que pese a ousadia, o desejo, o medo
A palavra dissimulada
Tremesse nos lábios, incerta
Descabida aos olhos de outros
Verdadeira aos meus, aos seus
Cartas à mesa; comece o jogo
Façam suas apostas, senhoras, senhores
Ofereça o ás à sorte
Ouse atravessar o limite
Que vai além do corredor espelhado
Aquele no qual você, eu, qualquer um de nós
Atravessa o olhar
Indolente, incerto
A garrafa de vinho na ponta dos dedos,
Equilibrando-se
O andar trôpego
O olhar amorável, temente, hesitante
Entre uma parede e outra, e o chão
Mas qualquer coisa dessas
Qualquer dia desses
Entre um olhar e outro
Se revele para o mundo
E por um instante deixe de existir
A vergonha
Cartas à mesa
Comece o jogo
E divirta-se
Aqui não há vencedores


UMA OUTRA VEZ

Se quisesse
Eu a conquistaria
Ao embalo das ilusões
Que tão bem sei
Como o mímico, o músico, o ilusionista
Que a todos encanta,
Manuseá-las
Eu poderia ser
O todo-poderoso
O forte, destemido
Poderia colocar a todos
Sob os meus pés
Até que um maior viesse
Eu seria senhor do destino
Da vida e da morte,
Como tantas vez fui
Sicília, Bolonha,
Emília
Romagna
Por que...
O caminho do Mal, conheço
E me ofereço
Do início ao fim, quando quero
Eu poderia lhe oferecer uma flor
E a encantaria com um perfume
Uma flor arrancada
Do jardim da vida
A custa de sangue, dor, e súplica
Eu poderia fazê-la feliz
Por um momento, dois
Muitos momentos, muitos
Que ficariam eternizados
Em sua memória,
Bem sei...
Mas não me veria livre
Dos tormentos, da dor
E do arrependimento
E que me restaria senão
Começar tudo de novo
E confesso que eu começaria
Quantas vezes preciso fossem
Desde que você, de novo
Cruzasse meu caminho, algum dia, feito hoje
E reacendesse a esperança
Em meu coração
Uma última vez.