domingo, 16 de novembro de 2014

NICK PASSOU POR AQUI

Você lê uma vez, duas. Lê uma terceira vez, e não acredita que parece ser tão fácil de tão simples. E em verdade, não é. Com mais atenção, perceberá que se trata do resultado de grande esforço por tornar as coisas de um modo absurdamente claro e encantador. Parece mesmo que a construção das frases e dos períodos acompanha a respiração do leitor. De modo que a leitura não cansa. Em princípio, ela parece ser repetitiva, mas com um pouco mais de atenção percebe-se que talvez seja consequencia dos muitos ângulos de ver e entender uma mesma imagem. Algo como Cèzanne fazia. Não por acaso.
Reprodução

Estou lendo “Contos” – volume I, de Ernest Miller Hemingway, editado pela Bertrand Brasil, que detém no país os direitos sobre a obra deste escritor norte-americano. É daqueles livrinhos que se tornam um ótimo companheiro para os raros tempos ociosos de que dispomos ou inventamos por necessidade de sobrevivência neste mundo tão exigente de tudo que é nada e de tudo que é transitório, e ao mesmo tempo tão estúpido.  Mundinho onde as pessoas acreditam fazer amizades e encontrar amores que valham a pena em redes sociais, tendo um maldito telefone celular às mãos. Admito que não é este o meu mundo. Prefiro aquele mundo onde ainda existem livros, jornais, revistas, vinhos, telas, esculturas, ideias para serem apreciadas, debatidas e contrariadas; caminhos a serem descobertos e seguidos, ainda que levem ao abismo, de onde, ao contrário do que muitos pensam, é possível sair sim, inclusive mais sábio, experiente e mais forte. Prefiro aquele mundo que apresenta uma ideia contra o vento, onde é possível ir à cidade sábado à noite. E onde ainda há boas ideias para guardar de reserva, esperando quem sabe um novo e irresistível pretexto para perder cinco minutos da vida preciosa, escrevendo coisinhas como estas.

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