quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

ANÉSIO E SUA BANCA

O Jornal Diário do Rio Claro, em sua edição de hoje, noticia em primeira página, o fechamento da Banca do Anésio, uma das maiores referencias culturais de Rio Claro. Escrevemos algo sobre o Anésio e sua Banca. Confiram!

Anésio abria sua banca às seis da manhã. Quando não, às cinco. Homenzarrão de cabelos grisalhos, de olhar meigo e de voz anasalada e mansa.  Foi Anésio que discursou emocionado, quando o corpo do meu melhor amigo, baixou à sepultura, há 26 anos. Assim como meu pai, ele tinha sua cadeira cativa no estádio Benitão, quando era possível vê-lo, aos domingos, vibrando com o seu, o nosso Velo Clube. Anésio era do tempo em que Rio Claro era Rio Claro, se é que me entendem aqueles que amam esta cidade.
A sua banca ficava na avenida 1, entre as ruas 4 e 5, na região central. Agora sai a notícia nesse indispensável Diário de todas as manhãs, que a banca do Anésio, já não existe mais.
Recordando... Não sei se Anésio foi o primeiro a ter uma banca de jornais e revistas nas terras de Rio Claro. A dúvida exige pesquisa. Até porque, maior que a dúvida é a certeza de que banca de jornais e revistas, em Rio Claro, fora, durante muitos anos, sinônimo de Anésio Spiller. E acho mesmo que será sempre.
Ainda frequento banca de jornal, mais exatamente a do nosso amigo falante destrambelhado Pica Pau, na praça da igreja de Santa Cruz. É ali que compro o meu Diário todas as manhãs, por volta de 8 horas. Poderia compra-lo mais cedo, afinal, neste horário de verão, às 6 da manhã, já estou de pé, acordado pelos bem-te-vis e a maritacas tão destrambelhadas quanto o Pica Pau da banca, que residem nas árvores frondosas do Grêmio Recreativo. Mas o Pica-Pau às vezes abre a sua banca às 8 e 15, às vezes, 8 e 20, às vezes...
Antes de achar esse refúgio matinal, - Vem Pica-Pau! – como diria o Silvio, tentei outros, sem muito interesse. Banca de jornal é feito cabeleireiro, café da mamãe, o médico da família. Só existe um. Para a nossa crença, conforto e segurança.
Mas sempre que posso procuro respirar outros ares. Entro numa dessas bancas de lata, espalhadas pelos jardins da vida, olho uma publicação aqui outra ali, porque, afinal, folhear revistas não é permitido. E quando tenho algum dinheiro no bolso, levo o que me interessa. Atualmente, as bancas têm em sua maioria, aquele aspecto de modernidade asséptica e oca. São maiores, mais confortáveis, mas falta alguma coisa. Falta o calor humano e a cumplicidade com a leitura das pessoas que ali param para conversar, porque as pessoas dedicam seu precioso tempo aos whats aps  e facebooks da vida irreal do século XXI. Talvez porque desconheçam os livros, as revistas e os jornais, e a viagem que eles podem proporcionar na vida de uma pessoa.  
E nesse aspecto, não seria exagero dizer que falta faz o Anésio que, quando inspirado, colocava pra tocar em sua vitrolinha as gravações 78 rotações por minuto de, entre outros, Francisco Alves, Orlando Silva e Carlos Gardel, aquele cantor de tango que franceses e argentinos ainda hoje, cabeza a cabeza, disputam a nacionalidade.
Os mais chegados, diziam que Anésio tinha dons mediúnicos. Às vezes, ele ficava olhando para a pessoa à sua frente como se estivesse diante de algo sobrenatural. E depois, transmitia mensagem de carinho e afeto.
Conheci a banca do Anésio e seu dono, pelas mãos de meu pai, que sempre passava por lá, para comprar jornais, livros e revistas, quando saíamos juntos.

Dizem que os pais, quando próximos dos filhos lhe incutem hábitos. Meu pai sempre me deu bons exemplos. Frequentar banca de jornais e revistas foi um deles. A do Anésio não poderei mais fazê-lo, porque além da saudade dele, resta a certeza de que, definitivamente ela já não existe mais. 

* CRÔNICA PUBLICADA NA EDIÇÃO DE 18/DEZ/2014, À PÁG. 2, NO JORNAL DIÁRIO DO RIO CLARO.

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