terça-feira, 29 de dezembro de 2015

2016 – FAZ DIFERENÇA?

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Não vigiamos e nem oramos como deveríamos.
Não compartilhamos,
Não nos ajudamos,
Não buscamos o conhecimento espiritual
Não renunciamos ao transitório
Não nos libertamos dos instintos primitivos
Não pensamos nem por um instante que
Se a semeadura é livre, a colheita obrigatória
E mesmo assim,
Queremos um mundo melhor
Como?
Então, nos escandalizamos com a presença do mal em nossas vidas
Mas nem por um instante paramos para refletir que
O mal só existe porque permitimos
Nossa indiferença para com o que a vida tem de mais sublime e precioso
É que possibilita esse confronto desnecessário de forças antagônicas
Conhecidas como o Bem e o Mal
Preparemo-nos, pois que chega a hora da colheita
E a cada um será conforme as suas obras
Se ao menos nos amássemos como poderíamos
Mas, com os olhos voltados apenas para nós mesmos

Sequer lembramos filhos de quem somos

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

FELIZ ANIVERSÁRIO, JESUS!

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A mais recente especulação a respeito de Jesus Cristo diz respeito à possibilidade dele ter sido um alienígena com poderes sobrenaturais. Em termos de polêmica, perde de longe para aquela outra que sugere o fato de que Jesus teria se casado com Maria Madalena e tido dois filhos. Mas não fica só nisso. Afinal, todo ano surge alguma teoria a respeito do personagem histórico mais conhecido e paradoxalmente incompreendido da humanidade.
Ao longo do tempo, tem se verificado a busca na descoberta de fatos ou evidências que coloquem Jesus em condição humana ao menos semelhante de qualquer mortal feito nós. Se ao que diz respeito à história o tema é palpitante, assemelha-se àquele outro que procura descobrir qual a data correta do nascimento de Jesus. Esses aspectos históricos e sociais a respeito do Cristo têm sua importância rebaixada à zero, se comparados aos ensinamentos morais os quais Jesus veio transmitir à humanidade, e que até hoje não foram aceitos e compreendidos devidamente em toda a sua profundidade. Porque, houvessem sido, e não teríamos guerras estúpidas, desigualdade social, tanta vida desperdiçada por causa de orgulho, egoísmo e intolerância.
Na verdade, se verificarmos bem, não será difícil deduzir que nem mesmo aqueles que a Jesus eram mais próximos, seus discípulos, sabiam maiores detalhes sobre a vida do Mestre, porque, para darem a ele uma feição mais próxima à humana que em nada corresponde à realidade, recorreram a mitos conhecidos, por exemplo, Mitra.
Jesus trouxe à humanidade, mais que a terceira revelação, a luz que faltava. Com sua presença entre nós, e seus ensinamentos, desfez-se as trevas. Sua proposta de amor incondicional e perdão entre homens, semeando o bem e a felicidade, hoje, para colhê-las, no amanhã que certamente virá afronta o imediatismo humano, que ainda prefere receber sem nenhum esforço os benefícios de um Deus, um Messias, provedores de tudo do que conquistar com o próprio esforço e merecimento através do trabalho que visa seu progresso espiritual.
Jesus ensinou que cada qual deveria carregar sua cruz, ou seja, enfrentar a sua batalha por melhorar-se como ser humano e, por conseguinte, como espírito. Mas disse, também, que ele era o caminho, a verdade e a vida.
Para o nosso bem e felicidade, Jesus é uma realidade para todos nós e está sempre de braços abertos para acolher a todos indistintamente, enquanto que Papai Noel, por sua vez, não!

A figura mítica do Bom Velhinho conquistou para si o dia 25 de dezembro na mente e no coração das pessoas. Jesus que conosco está os 365 dias do ano ainda luta por fazê-lo. E jamais desistirá. Eis o nosso maior presente de Natal. 

*Publicado no Jornal Diário do Rio Claro, à pag. 11, edição de 25/12/2015.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

19 ANOS - A VIDA COMO ERA...

Já passava da 1 da manhã, e o bar estava repleto de gente. Dali mais alguns minutos Mike Tyson esmurraria impiedosamente a Trevor Berbick para se tornar o mais jovem campeão mundial dos pesos pesados. Mas acho que pouca gente fora eu estava realmente interessada nisso, embora este fora o pretexto para que quase toda a juventude de Rio Claro se reunisse no Stones Rock Bar naquela noite. Gente rindo, bebendo e conversando, acotovelando-se, disputando ao direito sagrado de ir ao banheiro eliminar os excessos da cerveja consumida.
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Havia quem tomasse uísque, vinho, e vodka. Em geral os intelectuais, mas eram poucos. Naquele ambiente descontraído do bar, não havia distinção entre homens e mulheres. Elas também tomavam a iniciativa quando uma paquera as interessava, sem nenhum pudor ou ressentimento. Era possível fumar no ambiente, sem janelas, apenas alguns vitrôs, uns abertos e outros quebrados, que davam vistas para sabia-se lá o quê, portas de entrada e saída que se mantinham fechadas o tempo todo, muitos ventiladores de teto e de parede, que apesar do grande esforço não conseguiam dissipar o calor insuportável. Mas quem se importava com isso? Havia cerveja gelada, mulheres bonitas e homens interessantes, fosse lá para uma conversa reservada num dos quatro disputados cantos do bar, aquele espaço mais aconchegante e escuro onde as coisas aconteciam. Tudo somado à confusão do falatório, das músicas que chegavam muito bem aos ouvidos de todos, por causa das caixas de som grandes, medonhas e pretas, distribuídas por todos os cantos do bar, deixava tudo meio insano, fazendo com que a mente ficasse meio que em suspenso, de modo que os olhos tudo observassem meio que em câmera lenta e a vida pulsasse em descompasso. E as palavras hesitantes, ora faltassem, e quando compareciam, pouco elucidavam. Mas nada disso tinha importância, as palavras. Quem se lembraria delas na manhã seguinte?
Feito eu, Thomas Adler estava atento à proclamação do resultado da luta, os olhos grudados em uma das televisões, aquela mais próxima do balcão, onde ele tomava uma cerveja.
Houve tempo em que eu odiara aquele sujeito. Ele era pobre, nada bonito e discreto demais em minha opinião. Mas as garotas tinham simpatia por ele, embora eu não entendesse motivo para tanto.
Um dia, Thomas deu-me prova de sua lealdade, ainda que não tivéssemos relacionamento que justificasse tal atitude. Passei a vê-lo com outros olhos, mais humanos, o que, absolutamente não era do meu feitio. Mas procurei manter-me indiferente em relação a ele e à distância, para que não acusasse o modo diferente como eu passara a vê-lo.

CONTINUA... 

PORTA ABERTA

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Já não me importa os dias
Sábado, domingo ou 14
Duas vezes, 7 dias
Já não me lembro quantas vezes
Abri e fechei aquela porta, de vidro, partido
Quantas vezes – Quantas? – consertei aquele cadeado
Aquela privada, quantas vezes, entupi
Já não me dou conta das páginas que faltam
E do caminho a percorrer
Não faz muita diferença
Esquecer as anotações – onde as pus?
Debaixo da cama, em cima do guarda roupa
Pedaços de papéis de algum valor – duvidoso
... se espalham
Sapatos, meias, cuecas, caídas debaixo da cama
Garrafas, vazias – que pena! – poemas deixados, tocos de cigarros
Apagados? Não! Acesos, queimando
À Fernando caberá o ato derradeiro, o gesto fatal
Não quero ver, desligo a tevê
Caminho pelo corredor molhado
A lua escondida, meio que ausente, entre o telhado e...
as nuvens, urubus – feios, nojentos, ogros
Disformes, dementes, doentes nuvens
Abro o portão

Ei-la, e eu em seus braços: solidão

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

DEPENDE DE NÓS

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Imagine se televisão, rádio e internet, houvesse no tempo do Império Romano, quando centenas, milhares de pessoas eram crucificadas, quase diariamente, ou à época da Inquisição, quando por pensar diferente do que determinava a Igreja, as pessoas, amarradas em postes e aos olhos de curiosos, viravam churrasco. Ou ao tempo da Revolução Francesa, no qual muitas cabeças rolaram a mando de Robespierre. Ou ainda mais recente na História, período em que durou a 1ª. Guerra mundial, a última onde além dos homens empunhando espadas tombavam os cavalos.
Hoje, assiste-se estarrecido as atrocidades cometidas pelo Estado Islâmico. É fato que a maioria das pessoas repudia esses acontecimentos que visariam segundo aqueles que o praticam punirem os infiéis a Allah, leia-se, Deus. Mas então é de se perguntar a qual Deus eles se referem? Não é certamente ao Deus que se manifesta através de suas obras, generoso, paciente e amoroso para com todos indistintamente. Duvida? Observe então tudo o que não é obra humana. E perceba que o homem só é capaz de criar, a partir daquilo que é obra de Deus, ou qualquer que seja lá o nome que se queira dar a essa inteligência suprema, causa primeira de todas as coisas.
O mês de dezembro é especial para a população do Ocidente. Nele comemora-se o nascimento daquele que é considerado por muitos o exemplo de humano a ser seguido. Sabe-se hoje que o personagem histórico Jesus, filho de José e Maria, primo de João Batista, descendente do rei Davi, enfim, o Cristo para os que crêem e procuram seguir seus ensinamentos, muito dificilmente teria nascido na data em que se comemora seu aniversário. Mas, o que isso importa diante de sua proposta renovadora do comportamento moral para a humanidade, baseada no perdão das ofensas, no amor sem impor condições e restrições e sem esperar por recompensa, no conceito universal de família, onde todos são irmãos independentemente do local onde nasçam e vivam ou da fé que professam, da orientação política e da opção sexual que venham a escolher.
A proposta deste personagem que dividiu a história da humanidade entre antes e depois dele, vai além e atinge cheio o orgulho, o egoísmo e a ambição humana, quando propõe algo que se parece tão simples e fácil, que sejamos bons para nós e para com nosso semelhante, evitando prejudicar a nós e a ele. Fácil? Na teoria, porque na prática, já se passaram 2015 anos e parece que a maioria das pessoas que se propuseram a seguir essas orientações fracassou em suas tentativas. Cabem duas perguntas: A primeira: Será verdade tenha ocorrido esse fracasso? Difícil acreditar quando se observa o progresso intelectual e moral conquistado pela humanidade, desde o tempo em que pessoas eram crucificadas, queimadas e decapitadas por qualquer motivo que contrariasse os interesses daqueles que exerciam o poder político ou religioso. 
A partir das idéias iluministas, o ser humano do Ocidente pode libertar-se das amarras da fé imposta para alçar vôos inimagináveis nas asas da razão. O tempo e as experiências vividas mostrariam mais tarde que os sábios eram aqueles que se pautavam pela fé raciocinada, que, na pior das hipóteses os impede de se deixar levar pelos excessos, pelo extremismo e pela intolerância, mantendo o tanto quanto possível uma conduta boa, decente e ética para com o semelhante.
A segunda pergunta: Por que a proposta de reforma íntima, portanto, moral, do ser humano, apresentada por Jesus, se parece impraticável?
As respostas possíveis: Por que ainda somos hesitantes, vacilantes, indiferentes aos valores que realmente nos importa e que faz diferença para melhor em nossas vidas, e que, por acaso, se acham dentro de nós, em nossas mentes e em nossos corações, adormecidos ou desacreditados. Ou seja, a bondade, a generosidade, a humildade, valores absolutamente antagônicos àqueles que ainda predominam em nós como o orgulho e o egoísmo.
Nessa época do ano, quando a maioria das pessoas se deixa envolver pelo ambiente festivo e fraterno, e se tornam mais doces, mais meigas, mais compreensivas, cada qual faça o seu exame de consciência e chegue à conclusão em quais aspectos morais ainda precisa melhorar. Pois justamente disso depende a felicidade ao alcance de todos e, conseqüentemente, um mundo melhor. Está escrito em algum canto: O exterior apenas reflete o interior.
*Publicado na edição No. 140, Dez./2015, do Jornal Aquarius.
*Publicado na edição de 08/12/2015, à pág. 9 do Jornal Diário do Rio Claro.


segunda-feira, 5 de outubro de 2015

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

SID SONHAVA

Sid Wallace era daqueles que preferia um belo pingado e um pão com manteiga, na chapa. Hábito adquirido na infância, quando o pai, o acordava nas manhãs de domingo para acompanhar as corridas de fórmula 1, na época em que o Copersucar do Fittipaldi colecionava fracassos.  Sid sonhava com o dia, ou melhor, a manhã, em que ouviria o narrador Luciano do Valle soltar para o nosso Don Quixote das pistas o seu indefectível: “Sensacional! Esplêndido, esplêndido!” da mesma forma como fazia a cada defesa miraculosa do goleiro Emerson Leão, ao defender as cores da Sociedade Esportiva Palmeiras ou do selecionado brasileiro.

Voltemos ao café da manhã de Sid Wallace. Demorou a que sua esposa, a eficiente e dedicada jornalista Vivian Velvet se acostumasse com as manias do maridinho. Entre a vida de namoro e a de casado há uma Visconde do Rio Claro que as separa. Mas qualquer diferença era resolvida à noite, na penumbra do quarto, (Sid às vezes esquecia-se de pagar a conta de luz) sobre o inigualável colchão King Star, com molas ensacadas, de modo que quando um se mexe o outro não sente. Mas onde será que o redator publicitário tirou essa pérola: quando um se mexe o outro não sente. Colchão pra dormir, só pode ser! Logo não haverá mais herdeiros nos domínios do rei.
Outro conflito existencial de Sid, era a sua relação nada amistosa com os fios. Sim, os fios de eletricidade. Desconfiava que tal antipatia era dos tempos em que, menino ainda, sequer alfabetizado, submetia-se periodicamente a sessões de eletro choque, e exames eletro encefalograma, na cidade vizinha, para tratar-se de um foco irritativo no lobo frontal esquerdo, diagnosticado a partir das convulsões cerebrais que sofrera e que o faziam debater-se e virar os olhos, espumar pela boca, uma performance da qual ele não se lembrava, mas não podia, jamais pudera esquecer dos fios, grudados na sua cabeça, a partir de uma substância gelada e pegajosa; ele deitado na maca, ao lado da parede, naquela saleta escura, sem vida, a voz doce e meiga da enfermeira, pacienciosa e bonita, a atender e cuidar dele, prometendo-lhe que não sentiria dor, tomando a sua mãozinha trêmula, não por causa do medo, mas, da expectativa quanto ao que pudesse acontecer.
Os fios, aquele emaranhado de fios, do seu quarto/escritório, o seu refúgio, onde, agora, adulto, dedicava-se a trabalhos free-lance, a corrigir as provas dos seus alunos, e entregar-se às suas leituras e ouvir as suas músicas, na aconchegante cadeira do papai que herdara do finado Sidão.
Os fios que saiam do computador, do carregador do celular, dos aparelhos de som e de dvd, do televisor, do toca-discos. Sim era um sujeito antenado às novidades da tecnologia, mas com um pé no passado para onde objetos de qualquer natureza dos tempos idos o transportavam.
Todo final de ano, além do exame de consciência ao qual se submetia desde que se deparara com uma instrução de Santo Agostinho em O Livro dos Espíritos, o seu livro de cabeceira, tinha também que convencer Vivian, sua esposa, a não livrar o seu quarto/escritório do peso daquelas inúmeras reminiscências inúteis, em forma de objetos, suvenirs, papéis e aparelhos eletrônicos, alguns esquecidos em algum canto da prateleira, embaixo da cama, na gaveta da estante, em algum lugar, geralmente ocultando a existência de outros mais aproveitáveis.
Fios, os emaranhados da vida sentimental. Fios que prendem e libertam. Às vezes tinha vontade de interromper a conexão daqueles muitos fios com sua vida. Ficara pensando muito nisso, depois que recebera a visita técnica do seu provedor de internet, e experimentara uma gostosa sensação de liberdade, quando ouvira do rapaz, banca de boy, moreno fortinho, cabelo raspadinho dos lados e espetado no alto da cabeça e óculos escuros: “Precisa trocar o rádio da torre de conexão: ele recebe, mas não transmite mensagens, embora a velocidade esteja boa. Precisa trocar, tio”. E dissera tudo isso sem olhar uma única vez para Sid, comportamento habitual das pessoas jovens: comunicar-se sem o fio do olhar.
Queria dizer em outras palavras que Sid poderia manter-se no mundo real sem nenhum sentimento de culpa. Aquele mundo que não possui fios, que não sejam os que ligam o ser humano aos sentimentos, às emoções repentinas a partir das quais se realizavam todos os dramas da vida.
Deliciou-se com a ideia. E quisera comunicá-la imediatamente à Vivian o seu achado, mas, antes que pusesse a mão na maçaneta da porta, desistiu de fazê-lo.
Com tristeza percebeu que os fios sentimentais que o ligavam a esposa, deviam estar danificados, porque, naqueles últimos tempos, a conexão entre eles, não estava lá muito eficiente.
As preocupações do dia a dia, a necessidade de se manter ativo e indispensável no ambiente de trabalho de cada um, somadas às frustrações bem maiores que as satisfações, ocupavam a atenção de ambos.
De algum modo, os fios terra que os ligavam ao êxito profissional, lhes pareciam indispensáveis à felicidade que juntos acreditavam ter construído.
Cortá-los poderia significar o fim daquela felicidade. Como poderiam manter o mesmo padrão de vida tão prazeroso e reconfortante, se trocassem a certeza pela expectativa.
Mas a realidade da vida humana, Sid, enfim percebera era semelhante àquela encontrada na natureza, é feita de estações, ciclos, que começam e terminam, e recomeçam.
Lembrou-se que diante de um fio danificado há duas opções: tenta-se remendá-lo, ou corta-se o fio e compra-se outro.

Sid não estava mesmo disposto a remendar aquele fio que o ligava a Vivian e menos ainda ao que o ligava a sua vida profissional. Sid estava decidido também a não comprar outro fio. Queria aprender finalmente a viver sem eles.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

LEON E A DAMA LIBERTADORA SE ENCONTRAM

Difícil algumas vezes falar dos amigos, das pessoas que estimamos, ainda mais depois que eles partem. Quando este amigo é um artista, a tarefa se torna ainda mais difícil, afinal, os artistas são amados e odiados, reverenciados e desprezados, geralmente, com a mesma intensidade. Com este amigo não era diferente.

Fácil mesmo era encontrá-lo no Jardim Público. Ou estava na barraca do Daniel, seu filho artesão, sempre disposto a uma conversa, ou a filmar, o ambiente paradisíaco e infernal, os personagens angélicos ou demoníacos, residentes do local. Ou a perder-se entre tantos transeuntes que, anonimamente, sem chamar atenção, por ali passam, desde as primeiras até as últimas horas do dia.
Leon e sua câmera, geralmente inutilizável; também o seu paletó preto, surrado, amassado; o seu cabelo, na maioria das vezes, à lá Jabor, grande, cheios, ao vento. Leon e seus projetos, para teatro e cinema. Uma usina de projetos. Samadhi, Tá na Praça, Crônicas de uma Cidade Azul, Nóia... Leon e todos os seus sonhos, todos os seus medos. Leon e sua crença inabalável no ser humano e em uma sociedade justa e igualitária. Leon e a sua vontade, quase nunca satisfeita, de entender a vida e os seus mistérios. O seu amor à vida, para qual dera tudo, o melhor e o pior de si.
A vida, por vezes, é mesmo dura e injusta para alguns. Isto é um fato. Retratado a cada instante, em cada pedaço de chão onde pise um ser humano, apesar dos arranjos e acomodações filosóficas e religiosas, quando não científicas, que pretendem desmentir ou atenuar essa realidade.
Leon ia além de tudo isso. Era um artista, de corpo e alma, coração e mente. Por falta de recursos e oportunidades, não conseguira como tantos outros, expressar toda a arte que havia dentro de si. Mas que havia, sim, havia. Muita arte. Que, em suas peças teatrais e filmes, ganhava vida, na forma de vontade exacerbada e revolta, retratada com fidelidade assombrosa, e por vezes ofensiva ao público menos esclarecido, fossem no seu gestual, na sua impostação de voz, enquanto personagem de si mesmo no palco do Centro Cultural ou nos pátios dos colégios onde se apresentava, gratuitamente, sempre com a esperança de despertar a bondade no coração de alguma criança. A bondade que Leon acreditava existir em todas as pessoas, ainda que adormecida.

Leon Denis P. Chaves, ou simplesmente Leon Dharma, queria falar aos insanos, aos esquecidos, e falou mesmo, à sua maneira, com suas peças teatrais e seus filmes, pouco vistos e não compreendidos senão por aqueles que o conheciam e o admiravam por sua incansável obstinação e crença no ser humano e na arte. Seu nome sai dos cartazes para eternizar-se numa lápide, em local incerto. O Batistinha, talvez.
Em nossas últimas conversas, sempre prazerosas, disse-me de sua vontade em rever sua terra natal e sua família; disse-me sentir que a dama libertadora se aproximava, pediu-me um texto que pretendia filmar na forma de documentário. Então escrevi “Jardim das Almas”, publicado no meu Blog Passa a Régua, no site Autores, no mensário Aquarius e no Jornal Diário. Escrevi Jardim das Almas, assim como já havia escrito tantos outros textos a pedido dele: peças de teatro, crônicas, roteiros, que fiz chegar às suas mãos, mesmo sabendo que muito dificilmente seriam realizados. Não foram.
Talvez os façamos breve, no outro plano da vida, o verdadeiro, aquele que suporta os audaciosos, os sonhadores e os transgressores, porque tudo compreende, porque sabe que prazer ou dor, medo ou coragem, fé ou ausência dela, são nada mais que formas de expressar a própria vida imorredoura.

O artista é aquele que se consome nas teias inescapáveis dos seus sonhos. Seja feliz, Leon, agora sob a luz! Licença poética: Nos vemos mais adiante.

*Publicado na edição de 01/10/2015, à pág. 12, no Jornal Diário do Rio Claro.

domingo, 2 de agosto de 2015

A PRIMEIRA VEZ QUE FUI AO CIRCO

É daquelas coisas que a gente jamais esquece. A primeira vez que fui ao circo. Tinha acredito eu uns 4 ou 5 anos de idade. Havíamos nos mudado não fazia muito tempo para aquela casa no bairro São Judas Tadeu. Era uma tarde de domingo, eu acho, então dona Alzira, minha mãe me botou pra tomar banho e quando vi que sobre a cama ela colocava uma roupa minha, nova, bonita, fiquei feliz, porque entendi que iríamos passear. Não seria para fazer compras, no centro da cidade, o comércio estava fechado. Nem farmácia abria aos domingos, em Rio Claro, naqueles dias. Onde iríamos, então? Casa da tia Landa? Ou da tia Dinha?, as suas irmãs. Nada disso, iríamos ao circo. Circo? É, explicou dona Alzira, aquele lugar grande bonito, cheio de bichos, que tem mágico, palhaços, pipoca, refrigerante e algodão doce. Até a parte do refrigerante o assunto me interessou. Nunca gostei de algodão doce, aquela coisa grudenta. Embora achasse interessante vê-lo ser feito. E o cheirinho de açúcar queimado também não era dos piores.
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Então fomos para o circo, de carro. Papai, o Seu Geraldo, nos levou, naquele seu Fuscão 73, branco, envocado, vidro fumê, cambio baixo, voltante Panter, rodas de tala larga. Aquele que, segundo diz a lenda, o meu irmão, pegava às escondidas para dar umas voltinhas no entorno do Batista Leme, obrigando a diretora da escola, a dona Zuza, mandar recado para o meu pai, mais ou menos assim: “Seu Geraldo, venha dar um jeito no seu filho”.
A vantagem de você ser oito e 11 anos mais novo que seus irmãos, é que observando-os você aprende as coisas e conhece algo do mundo mais cedo. O que fará com isso ao longo de sua vida, bem, dependerá das escolhas que você fizer.
Mas, voltando ao circo, a melhor parte da história. Tínhamos companhia naquele passeio. Agradáveis companhias, a tia Dinha e os primos Decio e Maria Tereza.
Puxa, nos divertimos! Fomos nas cadeiras, bem perto do picadeiro. De modo que tudo víamos com outros olhos. Eu, principalmente. Tudo mesmo. Acho que do espétáculo não vi quase nada, e se vi, não me lembro. Mas lembro sim que estávamos todos lá. As coisas em volta sempre me chamaram mais atenção que os fatos em si. De modo que naquela tarde prazerosa de domingo, meus olhos se perdiam a observar  o público, a lona do circo, as luzes, a cerragem sob nossos pés, os vendedores de tudo que é tipo de buginga, que eu me lembro, e alguma, não sei exatamente qual, veio parar em minhas mãos. Acho que um balãozinho.  Mas não tenho certeza.
Quando chegamos, e vi aquela coisa enorme, diferente de tudo o que eu já tinha visto até então, instalado no terreno, onde, viria eu saber depois, fora o estádio do Aguinha, rival do Velo, (ah, esse sim, o Velo!), fiquei extasiado. O que seria aquilo? Um castelo? Não, era o circo Orlando Orfei, nada mais que sinônimo de circo no Brasil.
O Seu Orlando apresentava o espetáculo, vim a saber depois. Feito Ray Coniff, era uma espécie de amigo querido dos brasileiros, apreciadores de um bom espetáculo. Era famoso no mundo todo. Bom sujeito. Tais informações, eu as obtive de meu pai, na noite daquele domingo, quando sentado em seu colo, contei-lhe como havia sido o passeio, enquanto esperávamos pela zebrinha trazendo os resultados da Loteria Esportiva, e os gols do Fantástico, com narração de Léo Batista.  Bem, essa foi uma das poucas vezes que o Pipo ensinou-me sobre alguma coisa sem fazer com que eu fosse até o dicionário. Nem poderia, eu só tinha 4, 5 anos de idade, não me lembro ao certo, e sequer era alfabetizado, embora, já rabiscasse sim umas letras, nos velhos cadernos de escola de meus irmãos, nos cadernos de colorir que minha mãe fazia questão de comprar. Sim, na minha modéstia, eu escrevia, eu acreditava nisso, era o que eu sentia, ao preencher as páginas daqueles esquecidos cadernos, muitas vezes, sentindo-me o dr. Carossi, quando ele preenchia suas receitas médicas, nas minhas inúmeras visitas ao seu consultório. A gente quando criança é tudo meio besta mesmo, a gente acredita em tudo, e acredita que pode ser tudo. E eu acreditava que poderia ser médico. Domador de leões feito o Orlando Orfei, jamais.
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Nos dias em que o mundo lamenta a estupidez de um dentista norte-americano que matara por nada, um leão no Zimbabuê, também se despede daquele que durante anos proporcionou encantamento à crianças e adultos com o seu circo. E há quem encontre motivo para reclamar nas páginas dos jornais de quem leva alegria às pessoas, às crianças principalmente. Mas aí já estamos falando de Rio Claro. Tudo bem, antes do circo Moscou, o Orlando Orfei passou por aqui. Quem se lembra? Eu me lembro. Numa tarde de domingo. Inesquecível. Os espetáculos artísticos, quando apreciáveis, promovem essas lembranças imorredouras em nossas vidas.

ARTE e CULTURA

Em arte e cultura, devido mesmo, à natureza subjetiva de ambas, não há nem melhor e nem pior, há diferentes formas de expressão e diferentes olhares sobre as mesmas. – Geraldo J. Costa Jr. – 02/08/2015

sexta-feira, 24 de julho de 2015

POEMAS DE OMAR

Perdoe-me, mas não conheço o poeta Ruben Omar Riva. Entretanto, acho que conheci a sua Elena, ao menos, como descrita no verso dedicado a ela: Está triste la noche sin tus besos/ Las estrelas evocan tus suspiros/ El de siempre, talvez más solitário/ No suporto de nuevo mi calvário/ Al saber que te tuve y que te haz ido.
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Como tal verso e os demais, escritos com caneta Pilot 850, preta, em caixa alta, num papel sulfite amarelo, ocupando as duas faces do papel, chegaram até mim? Pois bem, são daqueles fatos inusitados da vida, que, uns chamam de feliz coincidência e outros, destino.
Sinceramente, de minha parte, escolho a primeira opção. Não creio em destino. Não vem ao caso. O fato é que “Está triste a noite sem teus beijos/ As estrelas evocam teus suspiros/ E de sempre talvez mais solitário/ Não suporto de novo meu calvário/ Ao saber que te tive e terás ido” – ficou se repetindo na minha mente e nos meus ouvidos, sim, ouvidos, porque os li em voz alta da primeira vez, enquanto caminhava pela rua 12, em direção a loja onde pagaria o carnê do crediário, naquela tarde ensolarada, mas um tanto gelada, do mês de Julho que apenas se iniciava.
Há poucos minutos, eu tinha saído do jornal Diário, onde fora levar o anúncio da Sociedade Veteranos, havia cruzado com a sempre movimentada Avenida Rio Claro, quando, na altura da Avenida 1, fui surpreendido por um homem, um sujeito alto, magro, de cabelos e barba já um tanto grisalhos e necessitando de cuidados. Estava ele mal ajambrado, trazia uma mochila a tiracolo e uma pasta na mão direita, de onde, tirou um calhamaço de papéis amarelos. Disse qualquer coisa em castelhano, que mal pude compreender senão a frase principal e derradeira. “Sou tradutor, de passagem por esta cidade. Pague o que julgar que mereça, mas leve-o e leia-o“.
Paguei R$10,00 por dois ou três poemas de Ruben Omar Riva, que meu inesperado interlocutor reproduzira em uma e os traduzira noutra face do papel amarelo.
E por que os pagara? Voltemos no tempo. Tinha eu 9 anos de idade e morávamos no bairro de São Judas Tadeu, numa casa grande, bonita e confortável. O morávamos, em questão, significa: meus pais, eu, e meus dois irmãos. Havia também uma criação de periquitos australianos, de meu pai, o cachorro Banditi (sim, por causa do desenhado animado Jota Quest), a gata Chinha, um par de hamster, que jamais foram vistos desde que chegaram ao telhado da casa, pelo condutor externo da parede da área de serviço. E diziam também, o que significa: minha mãe dizia por que alguém, ou seja, alguma vizinha, um parente daqueles que a visitavam quase sempre, a ela dissera que a nossa tremenda má sorte daqueles dias, devia-se ao fato de ter algum sapo com a boca costurada no jardim lá de casa. O sapo jamais fora visto, senão uma única vez, por volta de meia noite de uma sexta-feira, mas jamais pudemos afirmar (minha mãe, sim!) que o sapo estava com a boca costurada. Ah, tinha a saltitante e desajeitada seriema do meu irmão, que não tinha uma perna. Onde ele encontrara aquilo ninguém jamais soubera.
Comprávamos, ou seja, meus pais compravam o pão caseiro dos irmãos baianos que todas as tardes de sábado batiam em nossa porta. O leite do Seu Aléssio, leite de saquinho Indaiá melhor não há. As frutas, verduras e legumes do caminhão dos japoneses, aos sábados pela manhã. O exemplar do clube do livro, uma vez por mês. Jornais e revistas, meu pai os comprava no centro da cidade, na banca do Anésio ou na falta, na do Edgar. A pamonha de Piracicaba, o puro creme do milho verde, de uma Variant que passava lá na rua de casa, a cada 15 dias. O biju fresquinho do Bijuzeiro e sua matraca-traca-traca... O sorvete Yopa do carrinho empurrado pelo Seu Honesto, como a molecada lá da rua o apelidara, desde que ele se recusara a ficar com o dinheiro a mais, que, é claro, eu, o Sr. Nota Zero em Matemática havia lhe pagado por um sorvete de palito, de chocolate. Adoro chocolate, desde aquele dia.
Então, como presumo que o finado leitor já percebera a ligação (assim espero) entre um fato e outro, cresci vendo meus pais comprarem de tudo. Tudo o que era coisa dos vendedores porta a porta. Porque evidentemente, aí não se incluem o que era comprado nas lojas. E dispensa-se a leitura da interminável lista: mesa, cadeira, sofá, panela, poltrona, cama, tevê, rádio, fogão, geladeira, aparelho de som, batedeira, liquidificador... Sim, todos os anos, ou uma vez a cada dois, pra modo de não ser exagerado, pois não, freguesia.
Bem, isto posto, porque euzinho não deveria comprar por R$10,00, de um sujeito que cruzara meu caminho, os poemas, por ele traduzidos, do incomparável poeta Ruben Omar Riva. Que Virgilio não ouça isso!
Pois comprei sem nenhum arrependimento a folha de papel amarelo, a única, com os tais poemas de Omar dedicados à Elena, reproduzidos e traduzidos à mão, pelo meu audacioso interlocutor.
“Gracias, hombre!” – disse ele.
“De nada”.
Pensei lhe dizer que eu também era escritor e poeta. Acho que lhe disse – não lembro. Ele despediu-se e retirou-se rapidamente guardando o dinheiro, meus únicos R$10,00, agora no bolso da sua camisa.
Por que o fiz? Bem, pra ser sincero, naquele momento, num exercício de imaginação ao feitio de qualquer escritor, eu inverti os papéis e coloquei-me no seu lugar.
Em verdade, já o havia feito, ao menos em pensamento, dias atrás.
Deitado na cama, durante aquelas malditas noites solitárias de domingo, ouvindo as mais lindas músicas do mundo, no programa do pianista Benetti, vi-me em algum lugar desconhecido que não era Rio Claro, tentando trocar um exemplar de um dos meus livros, por um prato de comida.
Talvez esse dia demore a chegar. Talvez nunca chegue. Mas, se chegar, terei o consolo de saber que não estarei sendo o único dos homens dedicados ao ingrato trabalho de proporcionar sonho e reflexão na forma de palavras escritas às pessoas afeitas à leitura, essa adorável espécie em extinção, a se sujeitar ao ato indigno de clamar pela bondade alheia.
Agora, vou à padaria. Tenho R$10,00 no bolso. Dá pro misto-quente. Você me acompanha leitor?

* Publicado no Jornal Aquarius, edição No. 139, Novembro/2015, pág. 5.




quinta-feira, 23 de julho de 2015

AS COISAS DA VIDA DE MALCOM MORRIS

Malcom Morris vivia uma relação de amor e ódio com sua cidade. Adorava ler jornais todas as manhãs, e pautava seus sentimentos, seus pontos de vista, baseado naquilo que lia avidamente entre uma xícara de café e outra, enquanto tentava ajeitar a gravata e não esquecer o paletó na cadeira.
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Sua mãe acompanhava a rotina matinal do filho com ares de incredulidade e alguma simpatia, aquela que toda mãe tem por seu filho, sobretudo quando ele, aos 36 anos, ainda vive de certo modo sob suas asas.
Morris era bancário. Com orgulho e alguma vã esperança, a mãe de Morris afirmava que o antepassado mais ilustre do seu lindo filhinho era membro de uma das treze dinastias que detém o poder econômico do mundo. Aquele pessoal que vez por outra se reúne em alguma bela mansão ou castelo, na Europa, para decidir o modo de obterem mais lucro fazendo nada.
O finado pai de Morris, o Sr. digo Mr. Frank, era professor universitário, que viera ao Brasil, mais precisamente para Rio Claro, com a missão de instituir um novo curso na universidade estadual, e acabou ficando, contribuindo assim para perpetuar aquela crença inabalável de que Rio Claro é feito curva de rio. E é mesmo.
Enquanto caminhava a pé para o trabalho, ia pensando como responderia ao convite do gerente da agência bancária sobre ingressar na adorável e cobiçada Loja, umas das seis ou sete da cidade, o que, também de certa forma, comprovaria que, em Rio Claro, mesmo os ilustres irmãos, não se entendem como deveriam.
Mas antes dessa tola pretensão, precisaria se casar. Mas onde encontraria sua futura esposa? Talvez nos bailes vespertinos da Sociedade Veteranos, que costumava freqüentar aos domingos. Ou nas missas, também aos domingos, pela manhã, na igreja Matriz do João – o Batista, não vá confundir os santos, leitor! 
Mas, pensando bem, melhor continuar solteiro. Sim, porque Malcom, sujeito bem informado (coitadinho, ele acreditava mesmo nisso) havia lido em uma revista que, atualmente, tão certo quanto a morte, é a separação dos cônjuges, mais cedo ou mais tarde.
Aquela edição do jornal, o outro que comprara na banca do Pica-Pau, a caminho do trabalho, trazia a rotina da cidade que amava e odiava ao mesmo tempo: buracos nas ruas, pessoas reclamando do lixo na calçada, das propagandas em lugares inadequados, dos menores infratores aprontando mais uma das suas, a impopularidade da dona Dilma, a reforma interminável do museu, enfim, aquela era a sua cidade. Coisa linda!
Entrou sorrindo para trabalhar naquela manhã. Afinal, por algumas horas, a cidade ficaria do lado de fora da sua vida. Mas, as pessoas não. E as pessoas também eram a cidade. Malcom sentia-se emparedado. Mas de repente lembrou-se que, logo mais à noite poderia escapar a ela. Tinha bons livros para ler que retirara gratuitamente no centenário Gabinete de Leitura, filmes para assistir na internet, naquele site do Moacir, o Memocine, e, com um pouco de sorte, poderia convidar a Claudinha para um passeio a dois, noutra cidade, e no carro dela, é claro, uma vez que Morris, sujeito consciente, não dirigia veículos que poluem o meio ambiente.
Ah, os artigos do Prof. Olavo no site Mídia Sem Máscara, e o café da mamãe, gostoso e quentinho. Sim, isso também não lhe faltaria. Mamãe, apesar do Alzheimer, ainda fazia café muito bem.
Então, feliz e satisfeito, na medida do seu esforço e merecimento, pensou: Paciência, Malcom! O melhor da festa é esperar por ela. Olhou no enorme calendário pendurado na parede, ao lado do seu guichê de atendimento, e antes de chamar o próximo cliente, lembrou-se que a semana estava apenas começando. Rotina. Que delícia!

*Publicado no Jornal Diário do Rio Claro, edição de 30/7/2015, à pág.12.
*Publicado no Jornal Aquarius, edição No. 136, de Agosto/2015, à pág.4.


quarta-feira, 22 de julho de 2015

PAPAI VITALINO

O Sr. Vitalino tinha o hábito de ler os jornais todas as manhãs. Esperava ansiosamente pela chegada do mesmo, o que se dava geralmente às 5 e meia e 6 horas, um pouco depois dele retornar para cama, após ter ido pela segunda ou terceira vez ao banheiro durante a noite para urinar, em razão da sua próstata “fundida” (não vá confundir com outra palavra leitor). Tivesse adotado as medidas preventivas como o seu médico do Círculo Operário por diversas lhe recomendara, ao invés de duas ou três, iria apenas uma, ao banheiro, durante a noite, como era hábito nos seus tempos de mocidade. Mas o Sr. Vitalino era um sujeito turrão, teimoso, daqueles que não se deixa convencer por opiniões alheias. A menos que não as encontre nos jornais, aquele enrolado bonitinho que o menino da bicicleta durante anos e o cara da moto, atualmente, atiravam no corredor da casa dos fundos, onde morava, havia já vários anos, desde que tivera de vender tudo que tinha, ou seja, sua modesta casinha financiada, para que o finado Dr. Vladmir mexesse os pauzinhos e evitasse que seu filho, aquele moleque peralta, inconseqüente, mofasse na cadeia. Tudo por causa da ausência da mãe, acreditava o Sr. Vitalino, que os abandonara pra viver com um sujeito vagabundo, ignorante, caoio, manco, mas que devia satisfazê-la, sabe-se lá por qual milagre da natureza, muito mais que o Sr. Vitalino.
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Certa manhã, fora buscar pães e leite na Mercearia da Ana, que um dia fora do Sidney (o inveterado jogador da Mega Sena), quando fora rendido por dois moleques, enquanto montava em sua bicicleta, estacionada na calçada. Encostaram-lhe um cano na cabeça, tomaram-lhe a bicicleta e fugiram. Nem o próprio Sr. Vitalino nem ninguém esboçaram reação. Nunca mais vira sua bicicleta, certamente trocada, minutos depois, em alguma boca de fumo nas beiradas de São João (O Batista) do Rio Claro.
A partir daquele dia, as coisas mudaram na vida do Sr. Vitalino. Diante da experiência nada agradável da morte iminente, resolveu rever os seus conceitos. As críticas ao governo, à igreja, às autoridades, aos artistas e aos jogadores de futebol, aos vizinhos, aos coletores de lixo e de reciclagem que na pressa da lida diária sempre derrubavam algum excesso no meio do caminho, desapareceram de sua boca. O Sr. Vitalino percebeu que as pessoas erram, feito aqueles moleques que lhe apontaram uma arma contra a cabeça, por razões várias, dentre elas, a ignorância, o inconformismo, mas, sobretudo, pela falta de esperança, de perspectiva.
Não consertaria o mundo, mas, faria a sua parte, estava decidido. Compreendeu que o mal deve sim ser observado, mas para fins educativos, para fortalecer a certeza de que não é o melhor caminho a ser seguido, porque de modo algum o mal construirá a felicidade possível, permitirá a paz interior, sem a qual, nenhuma vitória por mais admirável que seja, se justifica.
Diante de cenas de maldade que presenciava, seja ao vivo e a cores, na tevê ou nas páginas de jornais e revistas, ao invés de lançar sua ira, palavras ofensivas, passara a orar a Deus por aquelas pessoas. Todas elas, as que haviam praticado e as que haviam sofrido  a maldade.
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Passara a se interessar por leituras edificantes, afinal, haviam tantas disponíveis, e gratuitamente. Descobriu que a cidade tinha várias bibliotecas públicas, onde podia ter acesso a livros de autores realmente interessados no progresso da humanidade. Então passou a freqüentar uma delas semanalmente. Fizera amizades com as sempre educadas e atenciosas atendentes, e com pessoas, também leitores, que até então desconhecia.
Mas percebeu que algo ainda lhe faltava. Algo mais contundente, que poderia ser a sua definitiva contribuição para essa gigantesca obra de redenção espiritual da humanidade, em curso, ainda que poucos a percebam, porque envolvidos absoluta e completamente apenas com os valores materiais do mundo.
Trabalhava duro pela manhã e à tarde, como pintor de edificações, lotado na Secretaria da Educação da Prefeitura local. E ganhava para o seu sustento. Percebeu que ganharia muito mais se deixasse de freqüentar os bares da cidade, após o expediente. Haveria mais dinheiro no seu bolso, e mais carinho e atenção da parte dos filhos já casados e resolvidos na vida,  mas que por causa de sua mudança de hábitos, ao invés de visitá-lo a cada 15 dias, passaram a visitá-lo todo final de semana.
Na sua rotina de trabalho, percebeu o Sr. Vitalino que as crianças da escola, na idade de 7 a 14 anos ainda dedicavam algum tempo para a prática do futebol, em detrimento do celular e da internet. Então, resolveu que poderia fazer feito o seu pai e formar um timinho da escola, uma vez que esta não tinha em seu quadro de funcionários, a indispensável figura do professor de Educação Física.
Com o dinheiro que economizara dos goles deixados de tomar nos bares da cidade, comprou um jogo de camisa de segundo mão, de um parceiro seu de bilhar, também frequentador do Bar do Tobias. Ao seu vizinho, pediu que pudesse limpar o terreno na esquina da rua onde moravam, de propriedade dele, para que as crianças ali pudessem brincar de futebol. Foi conversando com um menino, com outro, e mais outro, durante o recreio da escola. Combinaram de se reunir aos sábados à tarde e aos domingos pela manhã, e à tarde também, porque não? Conseguiram com o Tobias do bar, os caibros pra fazer as traves de madeira, o apito do juiz do jogo (o próprio Sr. Vitalino) fora a dona Florinda, a costureira da rua, quem dera. E logo o Tobias estava fornecendo a água mineral em copinhos, o Pinóquio estava todos os meses cortando o cabelo da molecada, de graça, desde que os pais  acompanhassem os filhos, integrantes do timinho de futebol da rua. Mas usasse essa expressão “timinho” pra molecada do Seu Vitalino...!
Faltava um nome para o time. E certa tarde, antes do prélio com o time do outro bairro ali perto, em votação, escolherão finalmente o nome do time: Vitalino F.C. A primeira participação no campeonato municipal dente de leite, dera-se um ano depois. O primeiro título, após dois anos.
Vitalino, já beirando os 60 anos de idade, havia se aposentado, mas não deixara de trabalhar. Percebeu que a molecada estava crescendo, e que precisava algo mais que o futebol. Conversara então com o padre e o pastor das igrejas do bairro, e conseguiu algo inédito, que ambos cedessem espaço em suas respectivas igrejas, para que fosse instalada uma sala de instrução, em cada uma delas, onde, voluntariamente, profissionais viriam ensinar alguma profissão à criançada. Mas onde conseguir esses profissionais dispostos a abraçar a causa?
Foi então que o Sr. Vitalino, já na condição de pai de todas aquelas crianças, descobriu o outro lado dos jornais, além daquele dedicado às desgraças do mundo.  O lado bom, que destaca as ações positivas de vários setores da sociedade, e que assim, influencia o leitor, o cidadão, a rever seus conceitos, a acreditar que, ao contrário do que possa parecer, sim, o bem prevalece, e é maioria entre os seres humanos. Matéria de página inteira veiculada na edição de domingo, contando a história do Vitalino F.C e suas ações sociais, fez com que, já na segunda-feira, vários profissionais voluntários fizessem contato via celular com o Sr. Vitalino. Seis meses, um ano, dois, três anos depois, as crianças, agora jovens iniciando a vida, da maneira correta, ou seja, instruídos, formados em alguma profissão, conscientes de suas responsabilidades e formando famílias, cruzavam com o Sr. Vitalino, e o agradeciam, o abraçavam e o beijavam, expressando com atitudes e gestos de carinho, seu reconhecimento e gratidão.

Nas tardes de domingo, Sr. Vitalino já na casa dos 70 anos de idade, sentava em sua confortável cadeira, no corredor de sua casinha de fundos, e pensava enquanto ouvia o futebol no radinho de pilha, que as vitórias da vida são possíveis, quando todos unem esforços para alcançar objetivos que seja de interesse de todos. Pensava que a sociedade bem podia aceitar as diferenças, como forma de enriquecimento espiritual e não disputa tão pouco segregação. E já não pensava, tinha certeza, que, de fato, a dificuldade é um convite ao crescimento humano, de que a única forma de acabar com o mal é retribuí-lo com o bem. Ouvira sobre isso pela primeira vez, quando conversara com a professora de Letras, a Sra. Rita, pessoa meiga, boníssima, discreta e bastante culta, a primeira a se apresentar como voluntária, naquela segunda-feira que mudaria vez por todas a vida do Sr. Vitalino.  Tivera receio em princípio quando ela lhe dissera que era espírita, mas conversando com Rita e observando- a trabalhar com as crianças, logo percebera o equívoco de sua avaliação inicial. Hoje, a Sra. Rita, para a criançada, os jovens e adultos do bairro atende pelo nome de Dona Vitalina. E ele, já desde muito tempo, como Papai Vitalino.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

TINTO SUAVE

E novamente me vejo só
Novamente tocou o telefone
E diminuí os passos
Entre a distância que dele me separa
Para não atendê-lo
Tocou duas vezes, uma,
Alguma outra que não me recordo
Novamente já deitou a tarde
Que demorou a passar
Como todas as outras
Se tocaram os sinos, da Santa Cruz
Não sei, não ouvi, esqueci, já faz precisamente
Dois minutos
Certamente tocaram,
Os sinos beneditinos, novamente
Cai a noite, e a vida, envolta, vai ficando
Na penumbra que logo chega
Um cigarro esquecido na gaveta
Evitado a todo custo
Um trago em demasia, dois ou três
Que estrago pode fazer
Se o estrago está feito
E não por causa do cigarro
Deixado, ao caso, dia desses, pelo Carlos
Alberto, os céus da Gália pedem-me a leitura
Mas eu prefiro o outro lado da cruz
Da cruz, não da lua
Já tem muita gente por lá, na lua
Desocupados e afins,
Querubins. Duvida?
Lampedusa me oferece o leopardo
Talvez, esta noite ainda, depois das três
O céu e o inferno
Ação e reação
Morte, Leon, nada mais e tudo faz sentido
Vou em segurança mediúnica
Escrevendo, concluindo, lento e sem demora, assim...
Do mestre perfeito, algo sei, e seus mistérios
Enfim, é o fim
Duplo: etérico
Onde está o meu?
Escondido estará em um vaso de porcelana?
Tudo isto não é nada, são apenas obras: póstumas.
Que desfazem a solidão em que me encontro
É noite, e por algum motivo, a rolha escapa

Da garrafa de vinho, tinto suave.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

O FUTEBOL BRASILEIRO: ERA UMA VEZ

Tanto tempo se passou, mas a derrota na Copa de 1982 ainda produz seus maléficos efeitos para o futebol brasileiro. A partir dali, predominou a ideia da vitória a qualquer custo. Melhor ganhar mesmo que jogando mal. Completava-se 12 anos sem a seleção conquistar um título mundial. Tempo demais para o orgulho do brasileiro, que se considerava dono do melhor futebol do mundo. Mas como poderia ser o melhor do mundo se pela terceira vez consecutiva o tão almejado tetra lhe escapara? Engraçado. A Copa do Mundo acontece a cada 4 anos. E naquele ano de 1982, como nos anteriores, o futebol acontecia a cada domingo, e vez, em quando às quartas-feiras. Então, porque fazer drama com a perda de um mundial, mais um, porque o Brasil já havia perdido outros oito. Sim, oito! E viria a perder outros tantos.
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Voltando no tempo, nos idos de 1970/80, época em que o futebol no Brasil ganha projeção e importância de uma “pátria de chuteiras”, nos grandes centros, construíasse estádios com capacidade de público de dezenas, centenas de milhares de pessoas, disputava-se um campeonato brasileiro com centenas de clubes oriundos de todas as partes do país, e estaduais disputados a tapa, tapetão, e a peso de ouro, os árbitros e os goleiros da vida que o digam, pelos grandes clubes das capitais devido sua importância.
Nas cidades do interior do país, um dos programas favoritos de domingo à tarde, além do Silvio Santos na TV Tupi, era ir aos estádios, geralmente acanhados, para acompanhar os Velo Clube e os Rio Claro da vida, na luta pelo tão sonhado acesso à elite do futebol estadual, quando então, finalmente, se poderia ver os craques dos grandes times da capital, desfilando sua arte de jogar futebol, nos mesmos acanhados estádios. Ah, sim, levava-se o radinho de pilha para acompanhar as transmissões dos jogos do Parmêra, do Cúrintia e o jornal para saber as escalações e as novidades do time da casa e do adversário. Ou para forrar o assento, na falta de coisa melhor. Estréia de um jogador dava direito a foto do sujeito no jornal na esperada edição de domingo, a palavra do técnico para os microfones dos lépidos repórteres de rádio, a expectativa em torno do acontecimento que movimentava a cidade. Nas praças e nos bares, nas filas dos bancos e das lotéricas não se falava outra coisa.
Este cenário era possível porque até então a tevê não havia dominado o futebol. Transmitia as finais e os jogos mais importantes de seu interesse, como bem explica o ex-superintendente da Rede Globo, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, em uma entrevista. Para ele, a partir de 1993, que coincide com sua saída da emissora, a Globo passou a considerar o futebol como um produto de sua grade de programação. Pagava caro para tê-lo com exclusividade (como já fizera na Copa do Mundo de 1982) e como qualquer investidor, queria o melhor retorno financeiro possível.
Voltando ao aspecto técnico do futebol que nos interessa. A vitória, como todos sabem só é possível ao time que marcar mais gols. E nisto se resume a justiça do futebol. Por mais que comentaristas especializados e torcedores tentem encontrar pelo em ovo. Em tese, ganha jogos o time que jogar um bom futebol. O que significa ser mais eficiente que o adversário tanto na defesa como no ataque.
Dentre os esportes coletivos, só o futebol premia a igualdade no placar ao final do jogo entre os competidores, sabe-se lá por qual motivo. Se o empate significasse prejuízo para ambos os times, como por exemplo, a perda de um ponto para cada um na tabela de classificação, talvez as equipes se empenhassem mais em vencer do que em não perder. Assim, haveriam jogos com mais gols. E necessariamente, os técnicos teriam de reavaliar os seus conceitos e modificar seus esquemas táticos
Em todo mundo, mas a partir da Europa, principalmente, os esquemas táticos que, em princípio eram montados para os times marcarem gols, aos poucos, foram se modificando para os times não sofrerem gols. Foi-se da fartura dos 5 atacantes das primeiras formações dos times, nos primórdios do futebol, para a miserável formação com um atacante que predomina na atualidade.
Um grande artilheiro de antigamente marcava dezenas de gols, não em uma temporada, mas em um campeonato. Não importava se jogasse em um time grande ou pequeno. Um camisa 10 era o craque do time. Um camisa 5 era o que encerrava a jogada do adversário, roubando-lhe a bola, e iniciava a jogada do seu time, com um passe preciso para os armadores e os atacantes, ou uma virada de jogo, após limpar a jogada. Acho que falei difícil. Desculpe leitor.
Até meados dos anos 1970, início dos anos 1980, havia mais espaço em campo para os times desenvolverem suas jogadas. O jogo era mais lento, embora não menos dinâmico, e, os jogadores, menos preparados fisicamente, quando eram. Isso permitia reviravolta nos placares, geralmente ao final das partidas. Permitia as tabelas, os dribles desconcertantes que desmontavam sistemas defensivos, e o tão decantado toque de bola do futebol brasileiro, qualidade considerada nos dias de hoje desnecessária e ultrapassada por uns, mas que confessadamente imitada fora pelo maior time que se viu jogar nos últimos tempos, o Barcelona treinado por Pepe Guardiola.
A profissionalização do futebol e seu aperfeiçoamento ao longo do tempo, possibilitou que dele fizessem parte outros profissionais, como os da Educação Física. O jogador, aquele que primava pela técnica, que sabia driblar, correr com a bola, sabia dominar a bola e chutá-la com perfeição, sabia cabecear e passar a bola corretamente para seu companheiro de equipe foi aos poucos desaparecendo para então surgir a figura do atleta. Forte, capaz de correr todo o campo, durante 90 minutos cansando-se pouco. E em condições de desempenhar as funções táticas determinadas pelo técnico, saído geralmente das universidades, e que, aos poucos, devido seu conhecimento teórico, sua facilidade em convencer os atletas, mediante promessas geralmente jamais cumpridas, e de se comunicar com a imprensa, e devido também seus esquemas táticos mirabolantes, e, portanto fascinantes, mas pouco executáveis e em sua maioria incompreensíveis para o atleta, portanto ineficientes, foi ocupando o espaço antes dominado pelo treinador, aquele que de fato treinava os fundamentos do jogo, à exaustão, que gritava pra botar a casa em ordem, que escalava o onze inicial, o burro ou o gênio, na boca dos torcedores e da imprensa, conforme o resultado da partida e das alterações que fazia no time durante o jogo. Verdade, burro ou gênio, e pelos mesmos motivos eles eram e continuam sendo. O outrora treinador e agora técnico passou a ter uma importância que não tinha.
Outra diferença, daqueles tempos para os de hoje. As entrevistas concedidas à imprensa. Para maior organização e tratamento igual a todos os profissionais incumbidos de levar a emoção do futebol ao torcedor, através dos rádios, jornais, sites e tevês as indispensáveis entrevistas passaram a ser coletivas. Não se ouvirá mais pérolas, próprias das entrevistas feitas no calor dos acontecimentos, como a do jogador Adãozinho, do Corinthians, quando perguntado sobre o que faria com o motorádio (marca de um radinho de pilha) que ganhara por ser o melhor do jogo, dissera, diz a lenda, que a moto ficaria com ele, e o rádio enviaria para a santa senhora sua mãe, no Piauí. Hoje atleta tem assessor de imprensa. Sabe o que, quando e como falar. Tudo bonitinho e ensaiadinho. Ok. Melhor assim, dizem eles. Não sei, tenho minhas dúvidas. Organização demais, inspiração de menos.
Acalme-se e acomode-se, leitor, que vem mais desgraça por aí. E elas se acham na malfadada categoria de base dos clubes de futebol. Zico, o Galinho de Ouro da Gávea, ídolo eterno do Flamengo, o time de maior torcida do país, autor de mais de 500 gols em sua carreira profissional e de inúmeros títulos, terceiro maior artilheiro da seleção brasileira, atrás apenas de Pelé e Ronaldo, disse em um documentário que o imortal Flamengo, campeoníssimo de sua época, jogava em dois toques na bola da intermediária defensiva para a ofensiva, em direção ao gol adversário. E que muitas jogadas realizadas com êxito nos jogos eram repetidas exaustivamente nos treinos até que saíssem com naturalidade. Onde ele e seus companheiros aprenderam isso? Nos infantis, mirins, e juvenis que era como se chamavam as categorias de base de antigamente, treinadas sempre por ex-jogadores profissionais que ensinavam aos garotos os fundamentos do futebol: dominar, chutar, cabecear, passar a bola. E é claro, aprimorar o drible em direção ao gol adversário. Aprimorar, porque o drible era criação espontânea do garoto, que, via de regra, acordava e ia dormir grudado com uma bola de futebol, porque sonhava ser um craque, jogar no time do seu coração, feito o Zico, e comprar a casinha para a mamãe. Hoje, técnico de categoria de base, entope a cabeça do jovem atleta com teorias e esquemas táticos. “Você tem de fazer o que eu mando e não o que você quer”. É comum ouvir isso da boca de um treinador de categorias de base, dirigindo-se a um garoto treinado por ele. Tal linguajar até alguns anos, só era ouvido entre os profissionais. E o técnico que fazia isso geralmente perdia a liderança sobre o grupo, que o derrubaria na primeira oportunidade, a menos que este grupo fosse mercenário em sua maioria, ou que esse técnico não se chamasse Vanderlei Luxemburgo, que, nos seus melhores dias, era tolerado, porque seus times venciam, conquistavam títulos, e sabe-se que com isso atletas conseguem melhores contratos, são valorizados, porque integram um time vencedor.
É sabido, por exemplo, que, no Barcelona, da Espanha, os garotos até os 17 anos de idade não executam treinamentos táticos, que serão inúteis se antes eles não souberem praticar com eficiência os fundamentos do futebol aqui já citados, não souberem driblar e se movimentarem em campo, de modo a encontrarem espaço para jogarem ou seja, para exercerem a sua habilidade com a bola.
Tal metodologia cairia como uma luva no futebol brasileiro. Cairia. Mas acontece que no Brasil, treinador da base, não quer ser treinador da base para sempre, quer treinar time profissional. A base é para ele tão somente uma etapa a percorrer no desenvolvimento de sua carreira.
Então o que se vê são times das categorias sub-13 sub-15, sub-17, arrumadinhos em campo, como se diz na gíria do futebol, mas sem criatividade, sem ousadia, sem que nenhum jogador, salvo raras exceções, se destaque por sua habilidade técnica. São times feitos não para jogar bem, não para permitir que os jogadores, imbuídos de espírito coletivo e de competição desenvolvam o seu melhor potencial. Mas para conquistar (sempre às duras penas) torneios inexpressivos, que nenhum peso terá para efeito de currículo na possível carreira profissional do futuro atleta. E desse modo, encher a burra dos empresários, e fazer a fama dos técnicos (campeões da base, ora vejam só, que glória!) dos quais, os meninos, sempre sonhadores, próprio da idade, esperam por um contato. Treinador bom da base é o que revela jogador para o time profissional. Nisso consiste sua missão. Não colecionar títulos. Ele não deve ter como objetivo ser campeão, mas, formar um futuro campeão.
As categorias de base, dos times do interior, que eram em anos idos o celeiro de craques para o futebol brasileiro, estão terceirizadas, dominadas por empresários, porque os clubes estão falidos, entregues às moscas, e só servem mesmo como vitrines para que esses mesmos empresários exponham ali o seu produto, digo, atleta.
Essa é a realidade. O futebol no Brasil, em nível técnico, está cada vez pior e só tende a piorar. E esse era o último bastião a ser vencido, pela ignorância daqueles que usam o futebol apenas para obterem lucros.
Não está longe o tempo em que ficaremos fora de uma Copa do Mundo, se valer apenas a realidade do campo de jogo. Daí talvez acordem todos que se interessem pelo futebol, pelo futebol bem jogado, aquele que desperta o interesse no público, que cativa o torcedor, que o vincula emocionalmente ao clube para o qual torce. E espero que, ao acordarem não seja tarde.
Há 20 anos nos descabelávamos com o Zinho Enceradeira, hoje, na mesma posição, vemos atônitos, jogar o Fred. Não aquele, o outro. De onde veio o novo Fred, por sinal? Alguém sabe? Mas não é tudo! Há 20 anos, alguns execravam o Dunga, sim, o próprio, e hoje, na mesma posição, estarrecidos, vemos um certo Fernandinho envergar a mesma camisa do já saudoso Zito.
É possível que alguém esteja pensando agora, mas depois de 1982, ganhamos outras duas Copas do Mundo. Sim, mesmo não jogando um bom futebol. Ganhamos dependendo exclusivamente de valores individuais como Romário e Bebeto, Ronaldo e Rivaldo e Tafarel.
Será que nosso gozo possível com o futebol, deixou de ser a diversão garantida dos finais de semana, para uma espera geralmente frustrante, de cada 4 anos? O futebol brasileiro resiste a isso?
Da mesma forma, em relação aos clubes brasileiros, os que disputam o campeonato nacional, e antecipadamente já se consideram satisfeitos com uma possível classificação para a Copa Libertadores da América. E a gana pelo título, a vontade de conquistá-lo? Segundo, terceiro, quarto lugar? Isso basta? Nos acostumamos a isso?
Você, torcedor, vai ao estádio para ver seu time jogar um bom futebol e vencer os adversários? Ou para tirar uma selfie e postar no Facebook? Qual é a sua torcedor?
O futebol brasileiro está medíocre tecnicamente e chato, porque está dominado por bandidos quadrilheiros que dele usurpam deliberada e impunemente em benefício próprio. Por que está exposto ao extremo, está saturado, desinteressante cada vez mais, desaparecendo aos poucos das periferias, perdendo espaço entre as motivações da garotada para os tablets, celulares da vida, porque está presente diariamente, à exaustão, a cada minuto, em todas as mídias possíveis. O futebol brasileiro, hoje, não é somente um produto da tevê. É refém dela. Será até quando?

E pensar que neste domingo, 21, enquanto nosso selecionado estará órfão de seu maior craque, seu camisa 10, brigando contra sua própria mediocridade e contra a inexpressiva Venezuela por uma vaga às quartas-de-final da Copa América em disputa, completa-se 45 anos do nosso Tri-Mundial, talvez a maior exibição de futebol em todos os tempos. De fato, era uma vez... o futebol brasileiro.