quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

JANEIRO

Às vezes, tenho muito medo de que tudo isso não seja verdade. Que tudo não passa de uma admirável aspiração, um longo, lindo e interminável poema, uma tela profunda, sem fim, colorida, através da qual acomodamos nossas inquietações.
Já quebrei a minha cara outras vezes, foi dolorido e triste, decepcionante. Já acreditei demais, já tive certezas demais, já amei demais e já renunciei demais.  E foi tudo ilusão. Forma sem conteúdo. Cores que não existiam à ausência da luz.
Por vezes, sinto-me só. Quem poderia me entender, quem saberia me ouvir, e me acolher nos braços, e poderia lembrar-me com palavras e seu olhar quieto e manso, que, afinal, tudo passa – já não está mais aqui.
Quando as portas se abrem, e os caminhos surgem e se mostram sem destino, sem alternativa, sem solução de continuidade, embora sejam bonitos, lindos caminhos, tão perfeitos, que de tão lindos e tão perfeitos, me assustam, recuo.
Se nada disso de fato for verdade, afinal, nossa fé se apoia em opiniões, livros, teorias formadas com base em observações, comparações e deduções, a partir do olhar e do sentimento humano, se nada disso for verdade, que restará senão prosseguir. Pois, afinal, além da morte, a vida é a única certeza, enquanto existir

TEMPESTADE SOLAR

O tropel dos cavalos
Em disparada;
As ondas do mar revolto
Rasgando-se nas pedras;
O raio quebrando-se no chão,
O estampido sufocado – arma de fogo;
O sangue gelado, o gemido inaudível,
O olhar exposto, em direção incerta,
A cabeça coberta, o lençol branco;
A carta deixada sobre a mesa, a cama
Esquecida no chão, no canto de alguma parede, onde,
Tantas vezes, tantas, encostou-se uma cabeça perturbada,
Chão... em que derramou-se, um desejo parido,
Antes da hora, talvez um minuto, não mais,
Um instante, enfim,
Toda a esperança, que pudesse existir
Tudo

Tudo agora faz sentido

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

JÁ É TARDE

Beraldo, meu editor, me pede para que eu escreva. Desconfio se ele sabe exatamente que estrago isso pode ocasionar na vida de algumas pessoas. Na sua, principalmente. Na minha, tanto faz. Porque, de fato, o estrago já está feito, faz tempo.

Então, mais uma vez, recorro à velha, manjada e repugnante estratégia de escrever sobre o nada. Ora, mesmo o nada é alguma coisa: 4 letras. Se o Sr. Nada , evidentemente, ostentar um vistoso bigode branconiano, ou seja, da grife Camilo Castelo. Isso resultará em perdição. Valha-me! Vou abandonar essa folhazinha de caderno, essa caneta bic que já foi melhor, macia, mais tenra, suave, feito um medalhão a la creme, a deslizar gordurosa e deliciosamente sobre a bandeja, digo, papel. Espere! Preciso levantar-me... Já não preciso. O copo está estrategicamente ao alcance da mão, minutos antes troquei duas palavrinhas com o gordo do bar, onde fui comprar amendoim, uma esfirra, e um sorvetinho de abacaxi, ou de milho verde, não lembro. Depois de tanto maltrato ao fígado, um docinho é indispensável. Essa cadeira, todavia, é insuportável. Velha, rota, alquebrada, gasta, humilhada, condenada sem remissão, depois que tantas bundas a amassaram. Compradas em Tatuí as tais cadeiras, bem me lembro. Onde fica Tatuí? Para que serve? Talvez o personagem do filme que passa na tevê, talvez ele saiba e revele o mistério das tais cadeiras de... De onde mesmo? Sim, talvez revele, se for educado o maldito personagem. Mas acho que não. Porque ele sai de cena, antes que eu possa perguntar-lhe. Mal desencostei minha bunda. Sim, ainda a tenho... a cadeira velha. Bem, eu já disse isso, de Tatuí. Onde fica...? Esqueça. Mas acho que eu já disse isso em algum momento desta narrativa. Pois não! Malas nas mãos, olhar perdido, sem direção, andar inconseqüente, sempre com os pés arrastados, arranhando as solas dos calçados, o rapaz do filme, é a ele que me refiro, evidentemente, como você já deve ter percebido, finado leitor. Recém-retornado da guerra, o rapaz. Ainda não me decidi o que nele irá faltar, se um membro ou dois, ou três, três seria muita humilhação. Ele caminha por uma daquelas charmosas, solitárias e agridoces estradinhas rurais que só se vê em filmes europeus de gente pobre dos anos 1960, iguais as almas mortas de Tchichkov. Ele procura emprego o rapaz, uma ocupação que o faça ocupar a mente com coisa que valha a pena, foi o que disse o crítico de cinema da emissora antes que o filme iniciasse. Mal sabe ele. Críticos! Acham que sabem tudo. Eu adoro tripudiar-lhos, engana-los, emburricá-los. O rapaz que volta da guerra se chama, deixe-me ver, sim, ele se chama Thomas.  Thomas? Não vale! Vou ligar para a emissora, escute aqui, onde já se viu? Isso é plágio! Ele tem a cabeça raspada, é alto, magro, tem olhos azuis e fundos e veste uma camisa xadrez, de flanela – faz muito frio. A camisa nas cores vermelha e preta. Mas de tudo por tudo, eu o invejo, apenas pela ousadia da cabeça raspada. Sim. Ai de mim se fizesse isso, porque olhos azuis eu os tenho, e ninguém os repara, não comenta, fingem não ver. Mas se apareço, eu, de repente, com a cabeça raspada, em casa, no trabalho, no templo de oração, no futebol, aí sim, todos eles irão me olhar e me repreender. Onde já se viu? Sim, eu já vi em muitos lugares e em muitas situações, posições desconfortáveis, indescritíveis, em uma rota 66, infinitas e nubladas situações, que o velho Jack, aquele pé na estrada, my boy, como diria o Chacrinha, um dia me apresentou numa noite qualquer, depois das 6, e dos tragos e inconvenientes que os tragos causam.
Voltei a matar formigas! Sem nenhuma piedade, eis a novidade, chineladas, fortes, certeiras, e era uma vez formiga. O poeta Eurícledes? Eurícledes Formiga? Não! Não, senhor! A formiga, mesmo.
E se perguntavam sobre aquelas inconvenientes e desprezíveis tentativas, porque meu pai escrevia nomes de filmes e de artistas, naqueles cadernos. Claro! O tempo! Nada como o tempo. Ele trouxe a resposta! Para que este seu filho maldito escrevesse nas folhas que dos cadernos sobraram. Sobraram? Onde estão?
Vamos ao amendoim. Pausa. Vamos a encher de novo o copo americano. Não exatamente cheio e não exatamente um copo americano. Talvez um resto de um conteúdo qualquer de massa de tomate. Enfim, um copo. Mas isso pouco importa. Importa o conteúdo, que acaso, não é massa de tomate. Não. É vinho! Vino, oh italiano zóiudo, besta! Vino!  Dom Bosco! Si como no!? Veja a que ponto chegamos, senhor editor! E lá se vão sei lá eu quantas folhas avulsas do caderno de brochuras de meu pai, este sim, poeta, este sim o contista, o merecedor de elogio e admiração. Este sim, o educado e culto, versado em cinema, literatura, futebol, mulheres... opa! Este sim, Geraldo, o que governa com a lança, cavalheiro romântico, cavaleiro medieval, meu bom de Molay; religioso, temente a Deus, respeitoso jamais provocador, seguidor e servidor de Cristo.
Voltemos! Rápido! Porque os papéis já se acumulam sobre a mesa, e não os numerei. Pausa para o maldito Dom Bosco, tinto de mesa. Pão e vinho. Foi o que restou, nada mal, eis o cardápio, o pedido, eis do que é feito o homem: pão e vinho; súplica e esperança, o circo é por conta de Deus.
Mas, vejam só vocês, finados leitores, o copo onde levei a boca há instantes está manchado de sangue do Sr Baco. E que Dom Bosco não saiba disso. Mas desconfio que já saiba. E o personagem do maldito filme, um certo Joachim, não é assim que exatamente se escreve isso, mas vá lá, à merda as formalidades, bastam os sentidos, o sujeito, esse tal Joachim, agora, dança na praia com a sua loira, enquanto eu, sim, este que vos fala, digo escreve, mal tem a devida coragem de dirigir um inocente olhar ao sol de minha vida, a minha loira bonita, porque também tenho uma, ao menos no meu pensamento e no meu coração. Mal sei como abraça-la, mal saberia beija-la, porque é tão grande o amor que sinto, e tantos, entretanto, são aqueles em redor do sol de minha vida, a nele se abrigarem e fugirem em desespero de suas dúvidas, incertezas, noites intermináveis, frias. E aquelas circunstâncias todas, barreiras humanas, intransponíveis, tantas, altas, íngremes, difíceis, desumanas, que me afastam do meu sonho e o torna impossível, improvável o meu desejo. E me convencem se tratar sim, de uma ideia insana esta coisa de amor, por essa loira linda, meiga, carinhosa, iluminada, ela me olha, por vezes e sorri...
Vou-me embora. Já é tarde.

  

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

ALMA MATTERS

Eu preciso lhe contar sobre coisas
Os mais repugnantes segredos
Que me fazem atravessar as noites
Pelos becos, em direção ao terminal,
À plataforma de embarque, mal iluminada
E evitar o gesto fatal, o grito primal
Início difícil, escuro, perturbador
O impenetrável olhar à procura
Desfeito no calor de uma lágrima
Que escorre pela face em direção...
Esperando abreviar, a dor pungente
Que a ferida aberta provoca

Sobre coisas eu preciso lhe dizer
Em formas de sinais, gestos, palavras, urros
As mais inconfessáveis, inimagináveis
Situações como forma de dissipar o escuro
E espantar o medo
Do qual não se furtam os heróis
Dentro dos quais escorre sangue
Vermelho, azul, matizes de cores
Nuvens assimétricas, cálculo, geometria
110 – o número perfeito
Paz, você, enfim, descobrirá
É a máxima harmonia possível da vida em movimento
O diálogo inaudível
Espiritual, todo poderoso, único
Entre direito e dever
Que ocupam o mesmo espaço
E um se tornam
Nas mãos protetoras da sabedoria

Eu preciso muito lhe falar sobre coisas
E pessoas que atravessam ruas incertas, nuas, desvalidas...
As quais, ninguém observa
E talvez você entenda que junto a uma dor nasce um amor
Mas hoje estou tão triste, sinto muito
O quarto está vazio, a casa sem mobílias
Tudo se agiganta aos meus olhos
E ganha um novo sentido
Belo, perfeito, resolvido
Quem sabe, este sentimento não se apague com o tempo
E nem me deixe à própria sorte, permaneça



HOSANA!

Chegará o tempo em que bastará a sombra de uma árvore, ou as águas de um rio ou as ondas do mar que beijam os nossos pés, o gramado de um jardim, um espaço de onde se vê o céu, a companhia de um animal, a percepção do vento, da liberdade e da vida à nossa volta para celebrarmos o contato com a sabedoria e a inteligência suprema que buscamos fora, mas que, em verdade, está dentro de nós, adormecida. E nesse dia talvez não haja mais poder político, econômico, religioso ou qualquer outro surgido da vontade cega do ser humano em conquistas que ele acredita possa lhe proporcionar felicidade. Talvez não haja mais pedra sobre pedra, dúvidas, certezas, livros. Não será preciso. Porque os bons terão perseverado até o fim. E o mundo já terá se tornado outro – g.j.c.jr. – 19/1/2015

LIVRE PENSAR

Quando uma religião, ciência ou filosofia, passa a acreditar e a difundir que não há nenhuma outra verdade, além daquela existente na sua casinha, ela começa a ruir. Essa é uma das razões pelas quais a humanidade evolui a passo de tartaruga. As pessoas não se ajudam, querem se impor umas às outras. E ao fazerem não se lembram que aqui estão apenas de passagem, com data e hora pra voltar à sua origem. – g.j.c.jr. – 19/1/2015

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

UMA DISTRAÇÃO QUALQUER

Momento há em que você vê todas as possibilidades
E percebe todos os sentidos
E alguns caminhos você encontra
E eles parecem levar a um destino
Então você se depara com o sol
A se levantar depois da noite longa, imensa, pesada
Que finalmente desaparece diante de seus olhos
Já se vai, tarde, a noite
E você se põe, de novo, a caminhar
Percebe que sua mochila, aquela de sempre, está menos pesada, que no dia anterior
E um novo dia começa cheio de esperança
É um momento único, o único que de fato vale a pena
Porque é quando se pode imaginar sem culpa, remorso, ressentimento
Como as coisas poderiam ter sido
Melhores e mais bonitas,
E como tudo podia ter sido diferente
E as lembranças seriam outras
O céu está vermelho, os pássaros despertam
E na rua, os primeiros transeuntes
Apressados, desesperados, em busca de quê? Não sabem
Ou sabem, e você não
Que importa tudo isso agora, nesse momento
Em que o medo desaparece
É o momento único em que
Tomar o lápis vale a pena
Porque é quando tudo faz algum sentido
As dores, e os amores, achados e perdidos
Um sorriso é possível achar entre eles
Um ou dois segundos de uma certeza
Que passou e você nem viu
Não experimentou o seu gosto
Não conheceu o seu gozo
Nem mesmo o seu olhar
Nada...
Então, os olhos, de novo, esquecem o céu, e encontram o chão,
O primeiro passo, da nova jornada incerta
Caminhar...
É seu breviário de todos os dias, todas as manhãs
É o que resta, enquanto a noite não vem.


Para meu irmão Carlos Alberto, em nome dos segredos sepultados na frieza do mármore