quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

JÁ É TARDE

Beraldo, meu editor, me pede para que eu escreva. Desconfio se ele sabe exatamente que estrago isso pode ocasionar na vida de algumas pessoas. Na sua, principalmente. Na minha, tanto faz. Porque, de fato, o estrago já está feito, faz tempo.

Então, mais uma vez, recorro à velha, manjada e repugnante estratégia de escrever sobre o nada. Ora, mesmo o nada é alguma coisa: 4 letras. Se o Sr. Nada , evidentemente, ostentar um vistoso bigode branconiano, ou seja, da grife Camilo Castelo. Isso resultará em perdição. Valha-me! Vou abandonar essa folhazinha de caderno, essa caneta bic que já foi melhor, macia, mais tenra, suave, feito um medalhão a la creme, a deslizar gordurosa e deliciosamente sobre a bandeja, digo, papel. Espere! Preciso levantar-me... Já não preciso. O copo está estrategicamente ao alcance da mão, minutos antes troquei duas palavrinhas com o gordo do bar, onde fui comprar amendoim, uma esfirra, e um sorvetinho de abacaxi, ou de milho verde, não lembro. Depois de tanto maltrato ao fígado, um docinho é indispensável. Essa cadeira, todavia, é insuportável. Velha, rota, alquebrada, gasta, humilhada, condenada sem remissão, depois que tantas bundas a amassaram. Compradas em Tatuí as tais cadeiras, bem me lembro. Onde fica Tatuí? Para que serve? Talvez o personagem do filme que passa na tevê, talvez ele saiba e revele o mistério das tais cadeiras de... De onde mesmo? Sim, talvez revele, se for educado o maldito personagem. Mas acho que não. Porque ele sai de cena, antes que eu possa perguntar-lhe. Mal desencostei minha bunda. Sim, ainda a tenho... a cadeira velha. Bem, eu já disse isso, de Tatuí. Onde fica...? Esqueça. Mas acho que eu já disse isso em algum momento desta narrativa. Pois não! Malas nas mãos, olhar perdido, sem direção, andar inconseqüente, sempre com os pés arrastados, arranhando as solas dos calçados, o rapaz do filme, é a ele que me refiro, evidentemente, como você já deve ter percebido, finado leitor. Recém-retornado da guerra, o rapaz. Ainda não me decidi o que nele irá faltar, se um membro ou dois, ou três, três seria muita humilhação. Ele caminha por uma daquelas charmosas, solitárias e agridoces estradinhas rurais que só se vê em filmes europeus de gente pobre dos anos 1960, iguais as almas mortas de Tchichkov. Ele procura emprego o rapaz, uma ocupação que o faça ocupar a mente com coisa que valha a pena, foi o que disse o crítico de cinema da emissora antes que o filme iniciasse. Mal sabe ele. Críticos! Acham que sabem tudo. Eu adoro tripudiar-lhos, engana-los, emburricá-los. O rapaz que volta da guerra se chama, deixe-me ver, sim, ele se chama Thomas.  Thomas? Não vale! Vou ligar para a emissora, escute aqui, onde já se viu? Isso é plágio! Ele tem a cabeça raspada, é alto, magro, tem olhos azuis e fundos e veste uma camisa xadrez, de flanela – faz muito frio. A camisa nas cores vermelha e preta. Mas de tudo por tudo, eu o invejo, apenas pela ousadia da cabeça raspada. Sim. Ai de mim se fizesse isso, porque olhos azuis eu os tenho, e ninguém os repara, não comenta, fingem não ver. Mas se apareço, eu, de repente, com a cabeça raspada, em casa, no trabalho, no templo de oração, no futebol, aí sim, todos eles irão me olhar e me repreender. Onde já se viu? Sim, eu já vi em muitos lugares e em muitas situações, posições desconfortáveis, indescritíveis, em uma rota 66, infinitas e nubladas situações, que o velho Jack, aquele pé na estrada, my boy, como diria o Chacrinha, um dia me apresentou numa noite qualquer, depois das 6, e dos tragos e inconvenientes que os tragos causam.
Voltei a matar formigas! Sem nenhuma piedade, eis a novidade, chineladas, fortes, certeiras, e era uma vez formiga. O poeta Eurícledes? Eurícledes Formiga? Não! Não, senhor! A formiga, mesmo.
E se perguntavam sobre aquelas inconvenientes e desprezíveis tentativas, porque meu pai escrevia nomes de filmes e de artistas, naqueles cadernos. Claro! O tempo! Nada como o tempo. Ele trouxe a resposta! Para que este seu filho maldito escrevesse nas folhas que dos cadernos sobraram. Sobraram? Onde estão?
Vamos ao amendoim. Pausa. Vamos a encher de novo o copo americano. Não exatamente cheio e não exatamente um copo americano. Talvez um resto de um conteúdo qualquer de massa de tomate. Enfim, um copo. Mas isso pouco importa. Importa o conteúdo, que acaso, não é massa de tomate. Não. É vinho! Vino, oh italiano zóiudo, besta! Vino!  Dom Bosco! Si como no!? Veja a que ponto chegamos, senhor editor! E lá se vão sei lá eu quantas folhas avulsas do caderno de brochuras de meu pai, este sim, poeta, este sim o contista, o merecedor de elogio e admiração. Este sim, o educado e culto, versado em cinema, literatura, futebol, mulheres... opa! Este sim, Geraldo, o que governa com a lança, cavalheiro romântico, cavaleiro medieval, meu bom de Molay; religioso, temente a Deus, respeitoso jamais provocador, seguidor e servidor de Cristo.
Voltemos! Rápido! Porque os papéis já se acumulam sobre a mesa, e não os numerei. Pausa para o maldito Dom Bosco, tinto de mesa. Pão e vinho. Foi o que restou, nada mal, eis o cardápio, o pedido, eis do que é feito o homem: pão e vinho; súplica e esperança, o circo é por conta de Deus.
Mas, vejam só vocês, finados leitores, o copo onde levei a boca há instantes está manchado de sangue do Sr Baco. E que Dom Bosco não saiba disso. Mas desconfio que já saiba. E o personagem do maldito filme, um certo Joachim, não é assim que exatamente se escreve isso, mas vá lá, à merda as formalidades, bastam os sentidos, o sujeito, esse tal Joachim, agora, dança na praia com a sua loira, enquanto eu, sim, este que vos fala, digo escreve, mal tem a devida coragem de dirigir um inocente olhar ao sol de minha vida, a minha loira bonita, porque também tenho uma, ao menos no meu pensamento e no meu coração. Mal sei como abraça-la, mal saberia beija-la, porque é tão grande o amor que sinto, e tantos, entretanto, são aqueles em redor do sol de minha vida, a nele se abrigarem e fugirem em desespero de suas dúvidas, incertezas, noites intermináveis, frias. E aquelas circunstâncias todas, barreiras humanas, intransponíveis, tantas, altas, íngremes, difíceis, desumanas, que me afastam do meu sonho e o torna impossível, improvável o meu desejo. E me convencem se tratar sim, de uma ideia insana esta coisa de amor, por essa loira linda, meiga, carinhosa, iluminada, ela me olha, por vezes e sorri...
Vou-me embora. Já é tarde.

  

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