domingo, 8 de março de 2015

DE REPENTE

De repente, percebo que me agarro em coisas
Que não podem sustentar o peso de minha dor
Leves, sutis, disformes,
Tais coisas
Feito minha esperança, esvaecida no tempo
Feito o brilho do sol
Ofuscado pela sucessão dos dias
A deitar-se morto na praia
Confundindo-se com as ondas
E as minhas lágrimas
Ali já derramadas
Tantas vezes, tantas
De repente, percebo
Que papel e lápis
Já não traduzem
O peso de minha dor
Que me açoita a cada manhã,
Quando me levanto
Depois que já partiu
O pássaro feliz, cantante
Que veio me despertar
Depois que olho para o céu
O pedaço do céu,
Pequeno como o tempo que me resta
O peso de minha dor, esse
Que me impede de abrigar
O sentimento, aquele
Que não ouso nomear
Que me suplica o silêncio
Vermelho de vergonha
E me faz voltar os olhos para o chão e ensaiar
Tímido, um pedido de perdão
Para aquele outro que no espelho da sala,
Voltado para mim, encontro.
De repente, me dou conta que afinal,
O sol se levanta e se deita
E, imponente, dono de si, o sol,
Vê minha dor e me ignora
O sol, o vento, a lembrança
A esperança de teu olhar
Encontrar de novo
Mas, na sucessão dos dias indiferentes
Tudo passa
O peso de minha dor, entretanto, permanece:
Tua ausência


Nenhum comentário:

Postar um comentário