quinta-feira, 28 de maio de 2015

OS POLEMISTAS

Numa daquelas iniciativas inusitadas que se tem normalmente nas manhãs de sábado, passei pelo Gabinete de Leitura e vasculhando as velhas estantes deparei-me com duas preciosidades que logo tratei de levá-las para casa esperando com isso aplacar agradavelmente a solidão. A primeira delas, o tijolaço (no bom e no mal sentido) O Diário da Corte, compilação de crônicas de autoria do finado jornalista Paulo Francis (1930-1997), organizada por Nelson de Sá, com direito a posfácio do filósofo contemporâneo Luiz Felipe Pondé.
Diário da Corte, bem se lembram os saudosos leitores seus fãs, foi o título da coluna que Paulo Francis, então correspondente em Nova York escreveu para o caderno Ilustrada da Folha de S. Paulo durante os anos 1980, contribuindo para, segundo suas próprias palavras, desmistificar os EUA. Nessa coletânea de crônicas, Francis vai da Revolução Bolchevique ao caso Watergate, passando pela reafirmação do espírito liberal de 1776.
Sua facilidade em captar o espírito da obra dos escritores estadunidenses mais importantes da segunda metade do século XX como Gore Vidal, John Updike e Truman Capote, também ajuda a desfazer os mitos em torno de tais escritores. Sobre Gore Vidal, considerado por ele um aristocrático anarquista, escreve a certa altura em crônica publicada em 3/6/1984: “Vidal é o americano menos americano que já li. Não posso conceber maior elogio. Para americano”.
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Não faltam também crônicas dedicadas a Lula, Collor e Brizola, sobre o qual relata em crônica de Dezembro de 1982: “É natural que um nacionalista radical e populista como Brizola se impacientasse com esse sistema corrupto”.
Mas Paulo Francis tinha uma paixão jamais correspondida, o teatro. Nelson de Sá, organizador de O Diário da Corte, deixa isso bem claro na apresentação do livro, ao afirmar que Francis, aos 23 anos, e morando a poucas quadras do coração da Broadway, estava ainda distante do jornalismo, era um apaixonado pelo teatro, seu horizonte era o palco, e seu objetivo era ser ator. Não por acaso, como toda paixão mal resolvida, Paulo Francis era capaz de, por exemplo, exaltar Cacilda Becker e comprar briga com Paulo Autran, devido às ofensas que dirigira gratuitamente à atriz Tônia Carrero em uma crônica de Outubro de 1958.
O segundo livro o qual tive o prazer de encontrar no centenário Gabinete de Leitura à disposição do leitor interessado em boas obras, foi o macio feito um travesseiro de penas, ao menos na aparência (calma lá que vem coisa, leitor) “O Livro dos Insultos de H. L. Mencken”. Quem? Henry Louis Mencken (1880-1956), talvez o maior polemista em língua inglesa da história do jornalismo, que destila fel e sabedoria, traduzidos pelo escritor brasileiro Ruy Castro, em artigos e crônicas, escritos principalmente nas primeira três décadas do século passado, e compilados como um testemunho à posteridade da visão bem pessoal, porém instigante sob vários aspectos que o visceral, demolidor e provocante Mencken (o diabo o tenha em bom lugar) tinha do comportamento humano. Vejam o que ele foi capaz de escrever sobre as mulheres, em 1921, na crônica intitulada Mulheres Fora-da-lei: “Nenhuma mulher normal tem um pingo de interesse pela lei, se por acaso a lei se puser no caminho dos seus interesses particulares. Antes, em 1918, já havia escrito: “Intuição? Uma ova! As mulheres são as supremas realistas da espécie. Aparentemente ilógicas, elas detém uma superlógica rara e sutil. Notem caros leitores, que essa colocação já havia despertado igual atenção e interesse em alguém que lera os mesmos insultos antes de nós, vez que grifou com caneta a passagem citada.
Mencken não era fácil, polemizava escrevendo com autoridade. Ruy Castro, tradutor da coletânea define bem o alcance disso em poucas palavras: “Nenhum outro jornalista nos Estados Unidos, antes ou depois dele foi tão lido com um temor sádico e com tanta adoração masoquista.
Para Castro, Mencken era um ímã para polêmicas, e sabia aproveitá-los. Em 1926, o New York Times, afirmou sobre ele: “O mais poderoso cidadão privado na América hoje em dia”. Os estragos que cometera na reputação de respeitáveis escritores como D. H. Lawrence e Dostoievski confirmam a tese.  Outros, porém, passaram a ser mais bem considerados e reconhecidos seus talentos a partir de críticas favoráveis de Mencken, como por exemplo: Henry Miller, Dorothy Parker, James Joyce e até Eugene O’Neil (que para Paulo Francis escrevia muito mal), lembrando que Mencken ao lado do crítico teatral George J. Nathan, editou duas revistas especializadas no período de 1920 a 1924.
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Por acaso (talvez não) a orelha do livro Os Insultos de H. L. Mencken é escrito por ninguém menos que Paulo Francis, que, já ao final do texto assevera “Em pessoa, Mencken era mais conservador do que por escrito. Sua ideia de uma noite feliz era ouvir e tocar Brahms e Schubert, se bem que ele e Nathan (autor da frase “bebo para tornar os outros interessantes”) tomaram pileques homéricos enquanto riam dos outros. O mundo regrediu para a jequice de que ele tirou os EUA". Detalhe, Paulo Francis escreveu isso sobre Mencken em 1988, quando do lançamento do livro. Parece que o tempo não passou. Para nós.
*Publicado na edição No. 135 (Julho/2015) à pág. 4 do Jornal Aquarius.

domingo, 24 de maio de 2015

PROSSIGA!

Sim, saciem-se, olhares à espreita
Dores ocultas, reprimidas,
Tidas não havidas, incompreendidas
Mãos à obra, concluída,
Tudo errado,
Tudo, tudo errado My Lord
Devo confessar-me, cá entre nós:
Apostei alto
E perdi tudo... tudo
A vida que não se realiza
Os dias que não chegam
As noites que não cessam
Perdendo a visão
E os sentidos
O peso e a medida
Não são os mesmos
Prossiga!
Alternativa derradeira, ironia
Rota de fuga
Quem sabe, adiante, e sempre
Surja um horizonte, um olhar demente
E a vida aconteça
Em outra esfera menos densa
Verdades absolutas, rascunhos amassados,
Desprezados, no lixo da inconsistência
Insistência, demência
Despertam inquietações
Estimulam, feito fogo e ópio
A levantar-se e dizer-se contra
Apontar o erro
Demonstrar a solução
Imaginável e possível, provável
Sob as benção da lógica
E longe da fé movediça
Impregnada nos livros, cinco ou seis ou mais
Cobertos pelo pó
Da pretensão e ignorância
Como perfeito pode ser o que não cessa?

sexta-feira, 22 de maio de 2015

TERRA DOS JOÕES, E DO DELFINO

Era preciso entregar o trabalho até às 12 horas do dia seguinte. Tranquilo. Nunca deu errado. Não seria daquela vez. Então começou a reunir todas as informações importantes do dia, coisa que aquele pessoal chato e ranzinza de redação de jornal acha de chamar de clipping. Ou chamava, sabe-se lá. Já faz tanto tempo...
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Sobre os acontecimentos locais, tirando o filme do João e a taxa fiat lux do Du, quê mais de interessante que valesse o comentário?
Enquanto o Cruzeiro ia se virando no Monumental diante do River, nosso desconhecido redator buscava nos cadernos de notas, velhos, carcomidos, dilacerados, por sua raiva e pela ousadia dos caninos brancos de seu Mastim Tibetano, peludo, indecente, babão, aquela coisa, que só ele mesmo... Não, nem si mesmo... – admitiu, ao ver rasgado impiedosamente o terceiro sofá da sala. O terceiro, só daquele ano.
Estava lá escrito no cadernão: 10 de junho, ascensão do Velão à Especial, 10 mil velistas, dentre os quais o nosso ilustre e já descabelado redator, com 10 anos de idade, participando da segunda maior manifestação esportiva das terras do João. Sobre a primeira, ocorrida meses antes, pretendia escrever.
Enquanto procurava assunto, ia nosso redator se ocupando de alguma coisa útil, o fato pitoresco da espécie humana também conhecido como trabalho. Difícil encontrar. Mas não desistia. Prossiga! Ouvira isso em alguma palestra. Mas o artigo do Gurgel para o Mídia Sem Máscara, em que escreve: “Não são adultos falando, mas adolescentes de trinta ou quarenta anos, que ainda não sabem o que é ansiedade, desespero e sofrimento. Não sabem e não imaginam”. – sobre os problemas da literatura atual... Problemas, ora! Problema é esse enfrentamento de forças antagônicas da política brasileira que pode descambar para o pior cenário social possível.
Coçou a cabeça nosso redator, nesse instante. Sem solução. Isso ainda vai dar... E nesse temível cenário belicoso como ficaria a sua “terrinha”? Detestava o emprego desse diminutivo a algo tão valioso e sagrado como a terra. A sua. Melhor, à qual ele pertencia. Terrinha. Que coisa piegas e provinciana! Nada cosmopolita. São coisas diferentes viu, finado leitor?
24 de Junho, sim, aniversário da terra do Ribeirão, claro, e do João. O Batista, e os demais que vem atrás, porque à frente, pra que isso virasse coisa de gente, precisou vir um padre, o Delfino. Dele, lembrou-se o redator – figura esquecida, sequer mencionada, em uma rua, avenida, viela qualquer da Cidade Azul, não se tinha imagem conhecida, nenhum retrato. Que morrera é fato. Mas onde deitara à espera do Juízo Final? Ninguém o sabe. Citações aqui e ali, um inventário, e nada mais. Sim, desculpe-nos, uma espingarda. Consta do inventário. Dá bem a dimensão do que eram as terras do João em seus primórdios. Não fosse o padre e os irmãos, cada qual na sua trincheira, e o ribeirão não teria se tornado rio, e o João, o primeiro, o mais ilustre e poderoso, não teria sido escorraçado. Mais sorte teve seus contemporâneos de outras plagas, o José, o André, o Bernardo, turma boa que só vendo!

Bom, fechando o ciclo, ocupando o derradeiro espaço, fica a dúvida de como 30 de abril virou 24 de junho. Coisa de irmãos, inocente! Se as datas desmentem os fatos, assunto para historiador, por ora, porque o nosso redator continua à procura de um motivo tão apenas um, que o convença a redigir um texto de 15 linhas, até meio-dia de amanhã. Ele acaba de pedir mais uma garrafa de café. A noite será longa.

*Publicado no Jornal Diário do Rio Claro, edição de 02/6/2015, à página 2.
*Publicado no Jornal Aquarius, edição 134, Junho/2015, à página 4.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

H. TEM UM CÃO

Conto inédito de Geraldo J. Costa Jr.
Com exclusividade para o Jornal Diário do Rio Claro, publicado na edição de 16/5/2015, à página 2

O cachorro late sem parar. E é curioso porque diferentemente do cachorro das quintas-feiras, esse, o das quartas, late mais doído, agudo e demorado. Seu latido permanece, divagando no espaço, e acho mesmo que alcança a outros vizinhos, transeuntes, e até motoristas que param na esquina movimentada onde, certamente, um semáforo, enfim, uma sinalização mais inteligente, daria melhor fluência ao trânsito atrapalhado das cidades grandes e das que se consideram ser, feito esta onde nasci e moro. Às vezes chego a pensar que são os barulhos dos carros e daquelas motocicletas que irritam os cachorros, especialmente esse, o qual dedico a observar ainda que à distância.
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Quem será o seu dono? Terá dono? Ou estará ao abandono, sem destino, a vagar perdido nas ruas. Este cachorrinho, ao menos veio ao mundo. Conheceu a luz do sol, a brisa da tarde, e a indiferença dos homens. De todo modo teve, até o momento, melhor destino que a potrinha recém nascida, desprezada numa vala comum por uma alma demente incapaz de algum nobre sentimento, fato noticiado em manchete pelo jornal matutino.
Pensei já algumas ocasiões descer lá embaixo pra ver se descubro quem é esse cachorro que ouço latir com tristeza como que consumido aos poucos pela solidão. Será que existirá mesmo o pobre cachorrinho? Ou será produto de minhas inquietações mentais, que, nesses dias, andam a produzir mais do que o permitido.
Sim, porque, do modo como vivo, trancado nesse quarto, preso a essa cadeira, às vezes ouço passos no corredor, e às vezes, tenho a sensação de que alguém abrirá a porta a qualquer momento e entrará buscando-me com o olhar. Já entrou. A cena se repete como comercial de tevê. Em princípio, causara-me medo, hoje não mais. Não me causa risos, não. Estaria mentindo se o afirmasse. Mas também não me causa medo.
Na minha infância eu também tive um cachorrinho. Não latia feito este. Na verdade, pouco latia, quase nunca. Era desprovido de beleza, não causava simpatia nas pessoas, porque buscava sempre um canto da parede da casa, e ficava quietinho, espantando os mosquitos, coçando as pulgas, lambendo os seus machucados, que não eram poucos, porque todas às vezes que ele saía para suas andanças pelas ruas e avenidas do bairro, voltava como se tivesse levado uma surra. Por isso, Albino não tinha lá muito gosto em perder-se nas ruas à procura de paqueras ou um resto de comida melhor que aquele que minha mãe, e somente ela, lhe oferecia à hora do almoço. A água fresquinha também nunca lhe faltara. Da torneira. E o banho, sim, uma vez a cada dois meses – às vezes três – com aquele pedaço de sabão em barra que sobrara no tanque.
Albino, entretanto, parecia não se importar com a pouca cordialidade que a família, minha mãe, lhe dispensava. Era um cão resignado, ciente de sua condição de inferioridade perante a espécie humana e também de seu destino. Morreu tinha 17 anos, e eu 11. Pelo fato de ser membro mais antigo na família, eu lhe concedia certos privilégios. Como o melhor lugar do sofá da sala, a melhor almofada para assistir a televisão, uma Telefunken 21 polegadas, colorida, que papai tirara a preço módico na loja onde trabalhava como contabilista. Fora a melhor realização de meu pai que trago na lembrança. Ele sempre tão distante, calado, com suor na testa a escorrer pelo rosto, comendo sempre com pressa, olhando para o relógio, como na iminência de perder um compromisso. Um compromisso. Mamãe, a família, levantava-se da mesa e ia para o quarto, o seu. Então meu pai me olhava, esperando talvez uma palavra, um olhar em retribuição de minha parte, mas o Albino me mordia a canela, na minha imaginação ao menos, e eu saía correndo para o terraço, e ficava olhando os carros e as pessoas passando lá embaixo, até que segundos ou minutos depois, não sei, nunca soube, via também o meu pai, lá embaixo, atravessando a rua, e entrando num carro, que por causa do vidro escuro, eu jamais soube quem dirigia.  
Que importa? Para um sujeito feito eu, as melhores recordações da vida – descobri dia desses – são aquelas proporcionadas por um cão. Tanto apego Albino tinha pelo televisor lá de casa, que não teria dificuldades em aprender a ligá-lo e desligá-lo, se eu o ensinasse. Vontade não faltara de minha parte. Mas nas poucas tentativas, sempre surgia alguém na sala, minha mãe. Ou então chegava uma visita fora de hora, geralmente um parente trazendo uma informação desagradável, a morte de alguém da família, ou um vizinho chato a pedir alguma coisa que acaso não tínhamos. Quando imaginei que, um dia, perto dos quarenta anos, eu iria perder o meu tempo pensando sobre cães?
Vai caindo a noite, já são por volta de 6 da tarde, e no inverno, os dias são mesmo mais curtos. Custei a me convencer disso. O cão desconhecido, que ouço latir na rua lá embaixo, o cão de natureza incerta e procedência duvidosa, sim, continua latindo. Chegará finalmente a escuridão da noite e os seus latidos passarão a ser mais esparsos um do outro. Porém, não menos doloridos, longos, profundos, repetitivos. Onde estará o seu dono? Se é que o tem. Se já o teve. Se ainda o terá. Talvez não. Minha mãe que costumava recolher cães da rua já não está mais aqui, nesta casa. Embora eu, a família, continue morando aqui, e preso a essa cadeira, dentro desse quarto escuro, reconhecendo o dia que vem e que vai pela fresta de luz que entra pela janela, aberta e fechada, o tempo todo, conforme a vontade e a força do vento.
Já faz alguns minutos que o cachorrinho não late lá fora. Ouço passos no corredor. Então, com a respiração em suspenso, o olhar interessado e o corpo imóvel, vejo que aos poucos vai se abrindo a porta. Vai se abrindo, abrindo a porta...

E lá fora, o cão, o das quintas-feiras, está latindo. Logo irá amanhecer.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

AS MÃES DE MINHA VIDA

A coisa começa bem longe, no tempo e no espaço. Ao final do século XIX, quando o casal Pedro Boroto e Deolinda Menaldi zarpam na embarcação Cidiuta, rumo às terras brazilianas, fugindo da fome e da miséria que grassava na Emilia Romagna, região da Bolonha, na Itália. Ela, grávida de alguns meses, da filha que viria a se chamar Maria, minha avó materna. Bem, um salto no tempo se faz necessário. Maria casou-se com Attilio Pignatti, filho do Emilio, mas, criado pelo Joaquim. É um rolo danado essa história. Nem tente entender, caro leitor, porque em nossa família não houve até hoje quem conseguisse a proeza. Andiamo via tutti buona gente! Vó Maria teve 14 filhos, doze vingaram (que é como se dizia naquele tempo) e por isso ganharam batismo e certidão de nascimento. Alguns com o sobrenome do pai (Pignatti, o genuíno) e outros, com o sobrenome do padrasto do pai, Rodrigues. De modo que... Ah, deixa pra lá. O fato é que entre esses doze, nasceu uma menina, Alzira, minha mãe. Aos 25 anos, Alzira casou-se com Geraldo, depois de 8 anos de namoro. E além de mim, o caçula da turma, teve outros dois filhos, Maria Eleonora e Carlos Alberto.
Minha mãe era linda. Tá, todo filho que ama sua mãe diz isso dela. Fato. Mas a minha era mesmo. Porém, com o passar dos anos, depois da maturidade, ela foi se apagando como ser humano para que brilhasse seu espírito. A doença fez isso com ela. A sua beleza exterior refletiu-se no seu interior, revelando uma força, uma crença inabalável na vida que só depois de adulto eu fui compreender, porque a gente quando é jovem costuma não prestar muita atenção nos nossos pais. Minha mãe faleceu eu tinha 22 anos. As coisas que ela me ensinou, os valores que cultivou em minha pessoa, a exemplo do que fizera meu pai, eu os trago bem vivos em minha memória e em meu coração até hoje. Se tinha que ganhar na loteria já o fiz. E o prêmio que recebi foram o Seu Geraldo, como pai, e a Dona Alzira, como mãe.
Mas além de minha mãe, outra mãe eu tive, minha avó paterna, a dona Lola. Não há na família um só filho, neto ou sobrinho que não tenha sido ajudado pela Dona Lola, que viveu 94 primaveras neste mundo. E que ainda hoje tanta falta nos faz.
A minha avó materna, a Dona Maria, eu não conheci. Não ao menos nesse plano da vida. Ela faleceu 4 anos antes de eu vir ao mundo. Coitado do mundo. Mas um dia sonhei com a Vó Maria. E no sonho ela me disse para que eu desistisse da garota pela qual eu estava apaixonado. Porque nossos caminhos eram diferentes. E realmente foram.
Minha irmã, 11 anos mais velha que eu, sempre me tratou como filho. Fez por mim bondades que só mesmo minha mãe faria. Sou de fato um sujeito de sorte. E de alguma forma eu teria de retribuir isso à vida, e acho que o fiz, porque foi com muito amor que tornei mãe uma garota bonita e valente, que teve a primeira filha aos 16 anos e a segunda aos 18. Viviane está entre nós, e acho que ainda dará uma boa mãe. Aline mora no céu. Viveu apenas quatro meses, e nesse período recebeu de sua mãe, Luciene, todo amor, carinho e atenção que viera buscar.
Mas a vida é mesmo generosa para comigo. Não é que em uma vizinha, encontrei o carinho de uma mãe. Dona Dalva me trata como se fosse o seu filho. E eu vejo nela um pouco as minhas tias, pelas quais morro de saudade, vejo um pouco minhas avós, e, confesso, um pouco também a Dona Alzira.
Mas a Dona Alzira faz uma falta danada. Sua fé, suas convicções, seu amor à vida me davam segurança. Seus conselhos e ensinamentos eu os trago decoradinhos na memória e no coração.
Ocorre que o coração é algo que trai a gente a todo instante. Nos primeiros anos de sua ausência, eu ia sempre ao cemitério visitar o seu túmulo. Levava um vasinho de flores, e, um dia, até deixei uma cartinha. Mas então me convenci de que a gente, de fato, não morre. Que o corpo – pertencente à natureza – se transforma, como já dizia Lavoisier. E que o espírito sobrevive. Afinal, o espírito somos nós. Aprendi que não há distância entre aqueles que se amam. Não pode haver, uma vez que cada um de nós, espíritos vivendo a experiência humana, em essência, somos pensamento e sentimento.
Certa vez, sonhei que estava com minha mãe, em Veneza, na Itália. Passeávamos de gôndola. Lá também estava meu amigo Marcelo de saudosa memória. Não haveria melhor lugar para esse encontro.
Eu sempre senti a presença de minha mãe por perto. Mas agora bem menos. Acho que ela se prepara para voltar. Espíritos fazem isso sabe, acredite você ou não, caro leitor, espíritos vão e voltam. Afinal, é preciso nascer de novo para se conhecer a felicidade. Sejamos honestos, não dá pra cursar a faculdade da vida numa só existência.
Se um dia, eu tiver a permissão e a oportunidade de peticionar a Deus, já sei o que será. Viver junto outra vez com minha mãe e com meu pai. Ocorre que para isso eu ainda tenho de melhorar muito como espírito que sou. Porque tenho certeza, nesse aspecto, eles já estão bem distanciados de mim.
Nesse dia das mães, a todas as mães do mundo, recebam meu amor e minha gratidão. E um beijo no coração.

Ah, não se esqueça de mim, Dona Alzira, continuo sendo seu filho. E se depender apenas de minha vontade, serei sempre. Porque isso me fez e me faz muito feliz. Beijo.

¨*Publicado na edição de 10 e 11/5/2015, à página 11, do Jornal Diário do Rio Claro.

sábado, 2 de maio de 2015

CALMARIA

Sabe quando você vê se aproximando a conclusão de sua tarefa? É assim que me sinto. – g.j.c.jr. – 02/05/2015