quinta-feira, 14 de maio de 2015

AS MÃES DE MINHA VIDA

A coisa começa bem longe, no tempo e no espaço. Ao final do século XIX, quando o casal Pedro Boroto e Deolinda Menaldi zarpam na embarcação Cidiuta, rumo às terras brazilianas, fugindo da fome e da miséria que grassava na Emilia Romagna, região da Bolonha, na Itália. Ela, grávida de alguns meses, da filha que viria a se chamar Maria, minha avó materna. Bem, um salto no tempo se faz necessário. Maria casou-se com Attilio Pignatti, filho do Emilio, mas, criado pelo Joaquim. É um rolo danado essa história. Nem tente entender, caro leitor, porque em nossa família não houve até hoje quem conseguisse a proeza. Andiamo via tutti buona gente! Vó Maria teve 14 filhos, doze vingaram (que é como se dizia naquele tempo) e por isso ganharam batismo e certidão de nascimento. Alguns com o sobrenome do pai (Pignatti, o genuíno) e outros, com o sobrenome do padrasto do pai, Rodrigues. De modo que... Ah, deixa pra lá. O fato é que entre esses doze, nasceu uma menina, Alzira, minha mãe. Aos 25 anos, Alzira casou-se com Geraldo, depois de 8 anos de namoro. E além de mim, o caçula da turma, teve outros dois filhos, Maria Eleonora e Carlos Alberto.
Minha mãe era linda. Tá, todo filho que ama sua mãe diz isso dela. Fato. Mas a minha era mesmo. Porém, com o passar dos anos, depois da maturidade, ela foi se apagando como ser humano para que brilhasse seu espírito. A doença fez isso com ela. A sua beleza exterior refletiu-se no seu interior, revelando uma força, uma crença inabalável na vida que só depois de adulto eu fui compreender, porque a gente quando é jovem costuma não prestar muita atenção nos nossos pais. Minha mãe faleceu eu tinha 22 anos. As coisas que ela me ensinou, os valores que cultivou em minha pessoa, a exemplo do que fizera meu pai, eu os trago bem vivos em minha memória e em meu coração até hoje. Se tinha que ganhar na loteria já o fiz. E o prêmio que recebi foram o Seu Geraldo, como pai, e a Dona Alzira, como mãe.
Mas além de minha mãe, outra mãe eu tive, minha avó paterna, a dona Lola. Não há na família um só filho, neto ou sobrinho que não tenha sido ajudado pela Dona Lola, que viveu 94 primaveras neste mundo. E que ainda hoje tanta falta nos faz.
A minha avó materna, a Dona Maria, eu não conheci. Não ao menos nesse plano da vida. Ela faleceu 4 anos antes de eu vir ao mundo. Coitado do mundo. Mas um dia sonhei com a Vó Maria. E no sonho ela me disse para que eu desistisse da garota pela qual eu estava apaixonado. Porque nossos caminhos eram diferentes. E realmente foram.
Minha irmã, 11 anos mais velha que eu, sempre me tratou como filho. Fez por mim bondades que só mesmo minha mãe faria. Sou de fato um sujeito de sorte. E de alguma forma eu teria de retribuir isso à vida, e acho que o fiz, porque foi com muito amor que tornei mãe uma garota bonita e valente, que teve a primeira filha aos 16 anos e a segunda aos 18. Viviane está entre nós, e acho que ainda dará uma boa mãe. Aline mora no céu. Viveu apenas quatro meses, e nesse período recebeu de sua mãe, Luciene, todo amor, carinho e atenção que viera buscar.
Mas a vida é mesmo generosa para comigo. Não é que em uma vizinha, encontrei o carinho de uma mãe. Dona Dalva me trata como se fosse o seu filho. E eu vejo nela um pouco as minhas tias, pelas quais morro de saudade, vejo um pouco minhas avós, e, confesso, um pouco também a Dona Alzira.
Mas a Dona Alzira faz uma falta danada. Sua fé, suas convicções, seu amor à vida me davam segurança. Seus conselhos e ensinamentos eu os trago decoradinhos na memória e no coração.
Ocorre que o coração é algo que trai a gente a todo instante. Nos primeiros anos de sua ausência, eu ia sempre ao cemitério visitar o seu túmulo. Levava um vasinho de flores, e, um dia, até deixei uma cartinha. Mas então me convenci de que a gente, de fato, não morre. Que o corpo – pertencente à natureza – se transforma, como já dizia Lavoisier. E que o espírito sobrevive. Afinal, o espírito somos nós. Aprendi que não há distância entre aqueles que se amam. Não pode haver, uma vez que cada um de nós, espíritos vivendo a experiência humana, em essência, somos pensamento e sentimento.
Certa vez, sonhei que estava com minha mãe, em Veneza, na Itália. Passeávamos de gôndola. Lá também estava meu amigo Marcelo de saudosa memória. Não haveria melhor lugar para esse encontro.
Eu sempre senti a presença de minha mãe por perto. Mas agora bem menos. Acho que ela se prepara para voltar. Espíritos fazem isso sabe, acredite você ou não, caro leitor, espíritos vão e voltam. Afinal, é preciso nascer de novo para se conhecer a felicidade. Sejamos honestos, não dá pra cursar a faculdade da vida numa só existência.
Se um dia, eu tiver a permissão e a oportunidade de peticionar a Deus, já sei o que será. Viver junto outra vez com minha mãe e com meu pai. Ocorre que para isso eu ainda tenho de melhorar muito como espírito que sou. Porque tenho certeza, nesse aspecto, eles já estão bem distanciados de mim.
Nesse dia das mães, a todas as mães do mundo, recebam meu amor e minha gratidão. E um beijo no coração.

Ah, não se esqueça de mim, Dona Alzira, continuo sendo seu filho. E se depender apenas de minha vontade, serei sempre. Porque isso me fez e me faz muito feliz. Beijo.

¨*Publicado na edição de 10 e 11/5/2015, à página 11, do Jornal Diário do Rio Claro.

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