segunda-feira, 18 de maio de 2015

H. TEM UM CÃO

Conto inédito de Geraldo J. Costa Jr.
Com exclusividade para o Jornal Diário do Rio Claro, publicado na edição de 16/5/2015, à página 2

O cachorro late sem parar. E é curioso porque diferentemente do cachorro das quintas-feiras, esse, o das quartas, late mais doído, agudo e demorado. Seu latido permanece, divagando no espaço, e acho mesmo que alcança a outros vizinhos, transeuntes, e até motoristas que param na esquina movimentada onde, certamente, um semáforo, enfim, uma sinalização mais inteligente, daria melhor fluência ao trânsito atrapalhado das cidades grandes e das que se consideram ser, feito esta onde nasci e moro. Às vezes chego a pensar que são os barulhos dos carros e daquelas motocicletas que irritam os cachorros, especialmente esse, o qual dedico a observar ainda que à distância.
Reprodução
Quem será o seu dono? Terá dono? Ou estará ao abandono, sem destino, a vagar perdido nas ruas. Este cachorrinho, ao menos veio ao mundo. Conheceu a luz do sol, a brisa da tarde, e a indiferença dos homens. De todo modo teve, até o momento, melhor destino que a potrinha recém nascida, desprezada numa vala comum por uma alma demente incapaz de algum nobre sentimento, fato noticiado em manchete pelo jornal matutino.
Pensei já algumas ocasiões descer lá embaixo pra ver se descubro quem é esse cachorro que ouço latir com tristeza como que consumido aos poucos pela solidão. Será que existirá mesmo o pobre cachorrinho? Ou será produto de minhas inquietações mentais, que, nesses dias, andam a produzir mais do que o permitido.
Sim, porque, do modo como vivo, trancado nesse quarto, preso a essa cadeira, às vezes ouço passos no corredor, e às vezes, tenho a sensação de que alguém abrirá a porta a qualquer momento e entrará buscando-me com o olhar. Já entrou. A cena se repete como comercial de tevê. Em princípio, causara-me medo, hoje não mais. Não me causa risos, não. Estaria mentindo se o afirmasse. Mas também não me causa medo.
Na minha infância eu também tive um cachorrinho. Não latia feito este. Na verdade, pouco latia, quase nunca. Era desprovido de beleza, não causava simpatia nas pessoas, porque buscava sempre um canto da parede da casa, e ficava quietinho, espantando os mosquitos, coçando as pulgas, lambendo os seus machucados, que não eram poucos, porque todas às vezes que ele saía para suas andanças pelas ruas e avenidas do bairro, voltava como se tivesse levado uma surra. Por isso, Albino não tinha lá muito gosto em perder-se nas ruas à procura de paqueras ou um resto de comida melhor que aquele que minha mãe, e somente ela, lhe oferecia à hora do almoço. A água fresquinha também nunca lhe faltara. Da torneira. E o banho, sim, uma vez a cada dois meses – às vezes três – com aquele pedaço de sabão em barra que sobrara no tanque.
Albino, entretanto, parecia não se importar com a pouca cordialidade que a família, minha mãe, lhe dispensava. Era um cão resignado, ciente de sua condição de inferioridade perante a espécie humana e também de seu destino. Morreu tinha 17 anos, e eu 11. Pelo fato de ser membro mais antigo na família, eu lhe concedia certos privilégios. Como o melhor lugar do sofá da sala, a melhor almofada para assistir a televisão, uma Telefunken 21 polegadas, colorida, que papai tirara a preço módico na loja onde trabalhava como contabilista. Fora a melhor realização de meu pai que trago na lembrança. Ele sempre tão distante, calado, com suor na testa a escorrer pelo rosto, comendo sempre com pressa, olhando para o relógio, como na iminência de perder um compromisso. Um compromisso. Mamãe, a família, levantava-se da mesa e ia para o quarto, o seu. Então meu pai me olhava, esperando talvez uma palavra, um olhar em retribuição de minha parte, mas o Albino me mordia a canela, na minha imaginação ao menos, e eu saía correndo para o terraço, e ficava olhando os carros e as pessoas passando lá embaixo, até que segundos ou minutos depois, não sei, nunca soube, via também o meu pai, lá embaixo, atravessando a rua, e entrando num carro, que por causa do vidro escuro, eu jamais soube quem dirigia.  
Que importa? Para um sujeito feito eu, as melhores recordações da vida – descobri dia desses – são aquelas proporcionadas por um cão. Tanto apego Albino tinha pelo televisor lá de casa, que não teria dificuldades em aprender a ligá-lo e desligá-lo, se eu o ensinasse. Vontade não faltara de minha parte. Mas nas poucas tentativas, sempre surgia alguém na sala, minha mãe. Ou então chegava uma visita fora de hora, geralmente um parente trazendo uma informação desagradável, a morte de alguém da família, ou um vizinho chato a pedir alguma coisa que acaso não tínhamos. Quando imaginei que, um dia, perto dos quarenta anos, eu iria perder o meu tempo pensando sobre cães?
Vai caindo a noite, já são por volta de 6 da tarde, e no inverno, os dias são mesmo mais curtos. Custei a me convencer disso. O cão desconhecido, que ouço latir na rua lá embaixo, o cão de natureza incerta e procedência duvidosa, sim, continua latindo. Chegará finalmente a escuridão da noite e os seus latidos passarão a ser mais esparsos um do outro. Porém, não menos doloridos, longos, profundos, repetitivos. Onde estará o seu dono? Se é que o tem. Se já o teve. Se ainda o terá. Talvez não. Minha mãe que costumava recolher cães da rua já não está mais aqui, nesta casa. Embora eu, a família, continue morando aqui, e preso a essa cadeira, dentro desse quarto escuro, reconhecendo o dia que vem e que vai pela fresta de luz que entra pela janela, aberta e fechada, o tempo todo, conforme a vontade e a força do vento.
Já faz alguns minutos que o cachorrinho não late lá fora. Ouço passos no corredor. Então, com a respiração em suspenso, o olhar interessado e o corpo imóvel, vejo que aos poucos vai se abrindo a porta. Vai se abrindo, abrindo a porta...

E lá fora, o cão, o das quintas-feiras, está latindo. Logo irá amanhecer.

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