sexta-feira, 22 de maio de 2015

TERRA DOS JOÕES, E DO DELFINO

Era preciso entregar o trabalho até às 12 horas do dia seguinte. Tranquilo. Nunca deu errado. Não seria daquela vez. Então começou a reunir todas as informações importantes do dia, coisa que aquele pessoal chato e ranzinza de redação de jornal acha de chamar de clipping. Ou chamava, sabe-se lá. Já faz tanto tempo...
Reprodução
Sobre os acontecimentos locais, tirando o filme do João e a taxa fiat lux do Du, quê mais de interessante que valesse o comentário?
Enquanto o Cruzeiro ia se virando no Monumental diante do River, nosso desconhecido redator buscava nos cadernos de notas, velhos, carcomidos, dilacerados, por sua raiva e pela ousadia dos caninos brancos de seu Mastim Tibetano, peludo, indecente, babão, aquela coisa, que só ele mesmo... Não, nem si mesmo... – admitiu, ao ver rasgado impiedosamente o terceiro sofá da sala. O terceiro, só daquele ano.
Estava lá escrito no cadernão: 10 de junho, ascensão do Velão à Especial, 10 mil velistas, dentre os quais o nosso ilustre e já descabelado redator, com 10 anos de idade, participando da segunda maior manifestação esportiva das terras do João. Sobre a primeira, ocorrida meses antes, pretendia escrever.
Enquanto procurava assunto, ia nosso redator se ocupando de alguma coisa útil, o fato pitoresco da espécie humana também conhecido como trabalho. Difícil encontrar. Mas não desistia. Prossiga! Ouvira isso em alguma palestra. Mas o artigo do Gurgel para o Mídia Sem Máscara, em que escreve: “Não são adultos falando, mas adolescentes de trinta ou quarenta anos, que ainda não sabem o que é ansiedade, desespero e sofrimento. Não sabem e não imaginam”. – sobre os problemas da literatura atual... Problemas, ora! Problema é esse enfrentamento de forças antagônicas da política brasileira que pode descambar para o pior cenário social possível.
Coçou a cabeça nosso redator, nesse instante. Sem solução. Isso ainda vai dar... E nesse temível cenário belicoso como ficaria a sua “terrinha”? Detestava o emprego desse diminutivo a algo tão valioso e sagrado como a terra. A sua. Melhor, à qual ele pertencia. Terrinha. Que coisa piegas e provinciana! Nada cosmopolita. São coisas diferentes viu, finado leitor?
24 de Junho, sim, aniversário da terra do Ribeirão, claro, e do João. O Batista, e os demais que vem atrás, porque à frente, pra que isso virasse coisa de gente, precisou vir um padre, o Delfino. Dele, lembrou-se o redator – figura esquecida, sequer mencionada, em uma rua, avenida, viela qualquer da Cidade Azul, não se tinha imagem conhecida, nenhum retrato. Que morrera é fato. Mas onde deitara à espera do Juízo Final? Ninguém o sabe. Citações aqui e ali, um inventário, e nada mais. Sim, desculpe-nos, uma espingarda. Consta do inventário. Dá bem a dimensão do que eram as terras do João em seus primórdios. Não fosse o padre e os irmãos, cada qual na sua trincheira, e o ribeirão não teria se tornado rio, e o João, o primeiro, o mais ilustre e poderoso, não teria sido escorraçado. Mais sorte teve seus contemporâneos de outras plagas, o José, o André, o Bernardo, turma boa que só vendo!

Bom, fechando o ciclo, ocupando o derradeiro espaço, fica a dúvida de como 30 de abril virou 24 de junho. Coisa de irmãos, inocente! Se as datas desmentem os fatos, assunto para historiador, por ora, porque o nosso redator continua à procura de um motivo tão apenas um, que o convença a redigir um texto de 15 linhas, até meio-dia de amanhã. Ele acaba de pedir mais uma garrafa de café. A noite será longa.

*Publicado no Jornal Diário do Rio Claro, edição de 02/6/2015, à página 2.
*Publicado no Jornal Aquarius, edição 134, Junho/2015, à página 4.

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