sexta-feira, 19 de junho de 2015

O FUTEBOL BRASILEIRO: ERA UMA VEZ

Tanto tempo se passou, mas a derrota na Copa de 1982 ainda produz seus maléficos efeitos para o futebol brasileiro. A partir dali, predominou a ideia da vitória a qualquer custo. Melhor ganhar mesmo que jogando mal. Completava-se 12 anos sem a seleção conquistar um título mundial. Tempo demais para o orgulho do brasileiro, que se considerava dono do melhor futebol do mundo. Mas como poderia ser o melhor do mundo se pela terceira vez consecutiva o tão almejado tetra lhe escapara? Engraçado. A Copa do Mundo acontece a cada 4 anos. E naquele ano de 1982, como nos anteriores, o futebol acontecia a cada domingo, e vez, em quando às quartas-feiras. Então, porque fazer drama com a perda de um mundial, mais um, porque o Brasil já havia perdido outros oito. Sim, oito! E viria a perder outros tantos.
Foto: Reprodução
Voltando no tempo, nos idos de 1970/80, época em que o futebol no Brasil ganha projeção e importância de uma “pátria de chuteiras”, nos grandes centros, construíasse estádios com capacidade de público de dezenas, centenas de milhares de pessoas, disputava-se um campeonato brasileiro com centenas de clubes oriundos de todas as partes do país, e estaduais disputados a tapa, tapetão, e a peso de ouro, os árbitros e os goleiros da vida que o digam, pelos grandes clubes das capitais devido sua importância.
Nas cidades do interior do país, um dos programas favoritos de domingo à tarde, além do Silvio Santos na TV Tupi, era ir aos estádios, geralmente acanhados, para acompanhar os Velo Clube e os Rio Claro da vida, na luta pelo tão sonhado acesso à elite do futebol estadual, quando então, finalmente, se poderia ver os craques dos grandes times da capital, desfilando sua arte de jogar futebol, nos mesmos acanhados estádios. Ah, sim, levava-se o radinho de pilha para acompanhar as transmissões dos jogos do Parmêra, do Cúrintia e o jornal para saber as escalações e as novidades do time da casa e do adversário. Ou para forrar o assento, na falta de coisa melhor. Estréia de um jogador dava direito a foto do sujeito no jornal na esperada edição de domingo, a palavra do técnico para os microfones dos lépidos repórteres de rádio, a expectativa em torno do acontecimento que movimentava a cidade. Nas praças e nos bares, nas filas dos bancos e das lotéricas não se falava outra coisa.
Este cenário era possível porque até então a tevê não havia dominado o futebol. Transmitia as finais e os jogos mais importantes de seu interesse, como bem explica o ex-superintendente da Rede Globo, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, em uma entrevista. Para ele, a partir de 1993, que coincide com sua saída da emissora, a Globo passou a considerar o futebol como um produto de sua grade de programação. Pagava caro para tê-lo com exclusividade (como já fizera na Copa do Mundo de 1982) e como qualquer investidor, queria o melhor retorno financeiro possível.
Voltando ao aspecto técnico do futebol que nos interessa. A vitória, como todos sabem só é possível ao time que marcar mais gols. E nisto se resume a justiça do futebol. Por mais que comentaristas especializados e torcedores tentem encontrar pelo em ovo. Em tese, ganha jogos o time que jogar um bom futebol. O que significa ser mais eficiente que o adversário tanto na defesa como no ataque.
Dentre os esportes coletivos, só o futebol premia a igualdade no placar ao final do jogo entre os competidores, sabe-se lá por qual motivo. Se o empate significasse prejuízo para ambos os times, como por exemplo, a perda de um ponto para cada um na tabela de classificação, talvez as equipes se empenhassem mais em vencer do que em não perder. Assim, haveriam jogos com mais gols. E necessariamente, os técnicos teriam de reavaliar os seus conceitos e modificar seus esquemas táticos
Em todo mundo, mas a partir da Europa, principalmente, os esquemas táticos que, em princípio eram montados para os times marcarem gols, aos poucos, foram se modificando para os times não sofrerem gols. Foi-se da fartura dos 5 atacantes das primeiras formações dos times, nos primórdios do futebol, para a miserável formação com um atacante que predomina na atualidade.
Um grande artilheiro de antigamente marcava dezenas de gols, não em uma temporada, mas em um campeonato. Não importava se jogasse em um time grande ou pequeno. Um camisa 10 era o craque do time. Um camisa 5 era o que encerrava a jogada do adversário, roubando-lhe a bola, e iniciava a jogada do seu time, com um passe preciso para os armadores e os atacantes, ou uma virada de jogo, após limpar a jogada. Acho que falei difícil. Desculpe leitor.
Até meados dos anos 1970, início dos anos 1980, havia mais espaço em campo para os times desenvolverem suas jogadas. O jogo era mais lento, embora não menos dinâmico, e, os jogadores, menos preparados fisicamente, quando eram. Isso permitia reviravolta nos placares, geralmente ao final das partidas. Permitia as tabelas, os dribles desconcertantes que desmontavam sistemas defensivos, e o tão decantado toque de bola do futebol brasileiro, qualidade considerada nos dias de hoje desnecessária e ultrapassada por uns, mas que confessadamente imitada fora pelo maior time que se viu jogar nos últimos tempos, o Barcelona treinado por Pepe Guardiola.
A profissionalização do futebol e seu aperfeiçoamento ao longo do tempo, possibilitou que dele fizessem parte outros profissionais, como os da Educação Física. O jogador, aquele que primava pela técnica, que sabia driblar, correr com a bola, sabia dominar a bola e chutá-la com perfeição, sabia cabecear e passar a bola corretamente para seu companheiro de equipe foi aos poucos desaparecendo para então surgir a figura do atleta. Forte, capaz de correr todo o campo, durante 90 minutos cansando-se pouco. E em condições de desempenhar as funções táticas determinadas pelo técnico, saído geralmente das universidades, e que, aos poucos, devido seu conhecimento teórico, sua facilidade em convencer os atletas, mediante promessas geralmente jamais cumpridas, e de se comunicar com a imprensa, e devido também seus esquemas táticos mirabolantes, e, portanto fascinantes, mas pouco executáveis e em sua maioria incompreensíveis para o atleta, portanto ineficientes, foi ocupando o espaço antes dominado pelo treinador, aquele que de fato treinava os fundamentos do jogo, à exaustão, que gritava pra botar a casa em ordem, que escalava o onze inicial, o burro ou o gênio, na boca dos torcedores e da imprensa, conforme o resultado da partida e das alterações que fazia no time durante o jogo. Verdade, burro ou gênio, e pelos mesmos motivos eles eram e continuam sendo. O outrora treinador e agora técnico passou a ter uma importância que não tinha.
Outra diferença, daqueles tempos para os de hoje. As entrevistas concedidas à imprensa. Para maior organização e tratamento igual a todos os profissionais incumbidos de levar a emoção do futebol ao torcedor, através dos rádios, jornais, sites e tevês as indispensáveis entrevistas passaram a ser coletivas. Não se ouvirá mais pérolas, próprias das entrevistas feitas no calor dos acontecimentos, como a do jogador Adãozinho, do Corinthians, quando perguntado sobre o que faria com o motorádio (marca de um radinho de pilha) que ganhara por ser o melhor do jogo, dissera, diz a lenda, que a moto ficaria com ele, e o rádio enviaria para a santa senhora sua mãe, no Piauí. Hoje atleta tem assessor de imprensa. Sabe o que, quando e como falar. Tudo bonitinho e ensaiadinho. Ok. Melhor assim, dizem eles. Não sei, tenho minhas dúvidas. Organização demais, inspiração de menos.
Acalme-se e acomode-se, leitor, que vem mais desgraça por aí. E elas se acham na malfadada categoria de base dos clubes de futebol. Zico, o Galinho de Ouro da Gávea, ídolo eterno do Flamengo, o time de maior torcida do país, autor de mais de 500 gols em sua carreira profissional e de inúmeros títulos, terceiro maior artilheiro da seleção brasileira, atrás apenas de Pelé e Ronaldo, disse em um documentário que o imortal Flamengo, campeoníssimo de sua época, jogava em dois toques na bola da intermediária defensiva para a ofensiva, em direção ao gol adversário. E que muitas jogadas realizadas com êxito nos jogos eram repetidas exaustivamente nos treinos até que saíssem com naturalidade. Onde ele e seus companheiros aprenderam isso? Nos infantis, mirins, e juvenis que era como se chamavam as categorias de base de antigamente, treinadas sempre por ex-jogadores profissionais que ensinavam aos garotos os fundamentos do futebol: dominar, chutar, cabecear, passar a bola. E é claro, aprimorar o drible em direção ao gol adversário. Aprimorar, porque o drible era criação espontânea do garoto, que, via de regra, acordava e ia dormir grudado com uma bola de futebol, porque sonhava ser um craque, jogar no time do seu coração, feito o Zico, e comprar a casinha para a mamãe. Hoje, técnico de categoria de base, entope a cabeça do jovem atleta com teorias e esquemas táticos. “Você tem de fazer o que eu mando e não o que você quer”. É comum ouvir isso da boca de um treinador de categorias de base, dirigindo-se a um garoto treinado por ele. Tal linguajar até alguns anos, só era ouvido entre os profissionais. E o técnico que fazia isso geralmente perdia a liderança sobre o grupo, que o derrubaria na primeira oportunidade, a menos que este grupo fosse mercenário em sua maioria, ou que esse técnico não se chamasse Vanderlei Luxemburgo, que, nos seus melhores dias, era tolerado, porque seus times venciam, conquistavam títulos, e sabe-se que com isso atletas conseguem melhores contratos, são valorizados, porque integram um time vencedor.
É sabido, por exemplo, que, no Barcelona, da Espanha, os garotos até os 17 anos de idade não executam treinamentos táticos, que serão inúteis se antes eles não souberem praticar com eficiência os fundamentos do futebol aqui já citados, não souberem driblar e se movimentarem em campo, de modo a encontrarem espaço para jogarem ou seja, para exercerem a sua habilidade com a bola.
Tal metodologia cairia como uma luva no futebol brasileiro. Cairia. Mas acontece que no Brasil, treinador da base, não quer ser treinador da base para sempre, quer treinar time profissional. A base é para ele tão somente uma etapa a percorrer no desenvolvimento de sua carreira.
Então o que se vê são times das categorias sub-13 sub-15, sub-17, arrumadinhos em campo, como se diz na gíria do futebol, mas sem criatividade, sem ousadia, sem que nenhum jogador, salvo raras exceções, se destaque por sua habilidade técnica. São times feitos não para jogar bem, não para permitir que os jogadores, imbuídos de espírito coletivo e de competição desenvolvam o seu melhor potencial. Mas para conquistar (sempre às duras penas) torneios inexpressivos, que nenhum peso terá para efeito de currículo na possível carreira profissional do futuro atleta. E desse modo, encher a burra dos empresários, e fazer a fama dos técnicos (campeões da base, ora vejam só, que glória!) dos quais, os meninos, sempre sonhadores, próprio da idade, esperam por um contato. Treinador bom da base é o que revela jogador para o time profissional. Nisso consiste sua missão. Não colecionar títulos. Ele não deve ter como objetivo ser campeão, mas, formar um futuro campeão.
As categorias de base, dos times do interior, que eram em anos idos o celeiro de craques para o futebol brasileiro, estão terceirizadas, dominadas por empresários, porque os clubes estão falidos, entregues às moscas, e só servem mesmo como vitrines para que esses mesmos empresários exponham ali o seu produto, digo, atleta.
Essa é a realidade. O futebol no Brasil, em nível técnico, está cada vez pior e só tende a piorar. E esse era o último bastião a ser vencido, pela ignorância daqueles que usam o futebol apenas para obterem lucros.
Não está longe o tempo em que ficaremos fora de uma Copa do Mundo, se valer apenas a realidade do campo de jogo. Daí talvez acordem todos que se interessem pelo futebol, pelo futebol bem jogado, aquele que desperta o interesse no público, que cativa o torcedor, que o vincula emocionalmente ao clube para o qual torce. E espero que, ao acordarem não seja tarde.
Há 20 anos nos descabelávamos com o Zinho Enceradeira, hoje, na mesma posição, vemos atônitos, jogar o Fred. Não aquele, o outro. De onde veio o novo Fred, por sinal? Alguém sabe? Mas não é tudo! Há 20 anos, alguns execravam o Dunga, sim, o próprio, e hoje, na mesma posição, estarrecidos, vemos um certo Fernandinho envergar a mesma camisa do já saudoso Zito.
É possível que alguém esteja pensando agora, mas depois de 1982, ganhamos outras duas Copas do Mundo. Sim, mesmo não jogando um bom futebol. Ganhamos dependendo exclusivamente de valores individuais como Romário e Bebeto, Ronaldo e Rivaldo e Tafarel.
Será que nosso gozo possível com o futebol, deixou de ser a diversão garantida dos finais de semana, para uma espera geralmente frustrante, de cada 4 anos? O futebol brasileiro resiste a isso?
Da mesma forma, em relação aos clubes brasileiros, os que disputam o campeonato nacional, e antecipadamente já se consideram satisfeitos com uma possível classificação para a Copa Libertadores da América. E a gana pelo título, a vontade de conquistá-lo? Segundo, terceiro, quarto lugar? Isso basta? Nos acostumamos a isso?
Você, torcedor, vai ao estádio para ver seu time jogar um bom futebol e vencer os adversários? Ou para tirar uma selfie e postar no Facebook? Qual é a sua torcedor?
O futebol brasileiro está medíocre tecnicamente e chato, porque está dominado por bandidos quadrilheiros que dele usurpam deliberada e impunemente em benefício próprio. Por que está exposto ao extremo, está saturado, desinteressante cada vez mais, desaparecendo aos poucos das periferias, perdendo espaço entre as motivações da garotada para os tablets, celulares da vida, porque está presente diariamente, à exaustão, a cada minuto, em todas as mídias possíveis. O futebol brasileiro, hoje, não é somente um produto da tevê. É refém dela. Será até quando?

E pensar que neste domingo, 21, enquanto nosso selecionado estará órfão de seu maior craque, seu camisa 10, brigando contra sua própria mediocridade e contra a inexpressiva Venezuela por uma vaga às quartas-de-final da Copa América em disputa, completa-se 45 anos do nosso Tri-Mundial, talvez a maior exibição de futebol em todos os tempos. De fato, era uma vez... o futebol brasileiro.