sexta-feira, 24 de julho de 2015

POEMAS DE OMAR

Perdoe-me, mas não conheço o poeta Ruben Omar Riva. Entretanto, acho que conheci a sua Elena, ao menos, como descrita no verso dedicado a ela: Está triste la noche sin tus besos/ Las estrelas evocan tus suspiros/ El de siempre, talvez más solitário/ No suporto de nuevo mi calvário/ Al saber que te tuve y que te haz ido.
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Como tal verso e os demais, escritos com caneta Pilot 850, preta, em caixa alta, num papel sulfite amarelo, ocupando as duas faces do papel, chegaram até mim? Pois bem, são daqueles fatos inusitados da vida, que, uns chamam de feliz coincidência e outros, destino.
Sinceramente, de minha parte, escolho a primeira opção. Não creio em destino. Não vem ao caso. O fato é que “Está triste a noite sem teus beijos/ As estrelas evocam teus suspiros/ E de sempre talvez mais solitário/ Não suporto de novo meu calvário/ Ao saber que te tive e terás ido” – ficou se repetindo na minha mente e nos meus ouvidos, sim, ouvidos, porque os li em voz alta da primeira vez, enquanto caminhava pela rua 12, em direção a loja onde pagaria o carnê do crediário, naquela tarde ensolarada, mas um tanto gelada, do mês de Julho que apenas se iniciava.
Há poucos minutos, eu tinha saído do jornal Diário, onde fora levar o anúncio da Sociedade Veteranos, havia cruzado com a sempre movimentada Avenida Rio Claro, quando, na altura da Avenida 1, fui surpreendido por um homem, um sujeito alto, magro, de cabelos e barba já um tanto grisalhos e necessitando de cuidados. Estava ele mal ajambrado, trazia uma mochila a tiracolo e uma pasta na mão direita, de onde, tirou um calhamaço de papéis amarelos. Disse qualquer coisa em castelhano, que mal pude compreender senão a frase principal e derradeira. “Sou tradutor, de passagem por esta cidade. Pague o que julgar que mereça, mas leve-o e leia-o“.
Paguei R$10,00 por dois ou três poemas de Ruben Omar Riva, que meu inesperado interlocutor reproduzira em uma e os traduzira noutra face do papel amarelo.
E por que os pagara? Voltemos no tempo. Tinha eu 9 anos de idade e morávamos no bairro de São Judas Tadeu, numa casa grande, bonita e confortável. O morávamos, em questão, significa: meus pais, eu, e meus dois irmãos. Havia também uma criação de periquitos australianos, de meu pai, o cachorro Banditi (sim, por causa do desenhado animado Jota Quest), a gata Chinha, um par de hamster, que jamais foram vistos desde que chegaram ao telhado da casa, pelo condutor externo da parede da área de serviço. E diziam também, o que significa: minha mãe dizia por que alguém, ou seja, alguma vizinha, um parente daqueles que a visitavam quase sempre, a ela dissera que a nossa tremenda má sorte daqueles dias, devia-se ao fato de ter algum sapo com a boca costurada no jardim lá de casa. O sapo jamais fora visto, senão uma única vez, por volta de meia noite de uma sexta-feira, mas jamais pudemos afirmar (minha mãe, sim!) que o sapo estava com a boca costurada. Ah, tinha a saltitante e desajeitada seriema do meu irmão, que não tinha uma perna. Onde ele encontrara aquilo ninguém jamais soubera.
Comprávamos, ou seja, meus pais compravam o pão caseiro dos irmãos baianos que todas as tardes de sábado batiam em nossa porta. O leite do Seu Aléssio, leite de saquinho Indaiá melhor não há. As frutas, verduras e legumes do caminhão dos japoneses, aos sábados pela manhã. O exemplar do clube do livro, uma vez por mês. Jornais e revistas, meu pai os comprava no centro da cidade, na banca do Anésio ou na falta, na do Edgar. A pamonha de Piracicaba, o puro creme do milho verde, de uma Variant que passava lá na rua de casa, a cada 15 dias. O biju fresquinho do Bijuzeiro e sua matraca-traca-traca... O sorvete Yopa do carrinho empurrado pelo Seu Honesto, como a molecada lá da rua o apelidara, desde que ele se recusara a ficar com o dinheiro a mais, que, é claro, eu, o Sr. Nota Zero em Matemática havia lhe pagado por um sorvete de palito, de chocolate. Adoro chocolate, desde aquele dia.
Então, como presumo que o finado leitor já percebera a ligação (assim espero) entre um fato e outro, cresci vendo meus pais comprarem de tudo. Tudo o que era coisa dos vendedores porta a porta. Porque evidentemente, aí não se incluem o que era comprado nas lojas. E dispensa-se a leitura da interminável lista: mesa, cadeira, sofá, panela, poltrona, cama, tevê, rádio, fogão, geladeira, aparelho de som, batedeira, liquidificador... Sim, todos os anos, ou uma vez a cada dois, pra modo de não ser exagerado, pois não, freguesia.
Bem, isto posto, porque euzinho não deveria comprar por R$10,00, de um sujeito que cruzara meu caminho, os poemas, por ele traduzidos, do incomparável poeta Ruben Omar Riva. Que Virgilio não ouça isso!
Pois comprei sem nenhum arrependimento a folha de papel amarelo, a única, com os tais poemas de Omar dedicados à Elena, reproduzidos e traduzidos à mão, pelo meu audacioso interlocutor.
“Gracias, hombre!” – disse ele.
“De nada”.
Pensei lhe dizer que eu também era escritor e poeta. Acho que lhe disse – não lembro. Ele despediu-se e retirou-se rapidamente guardando o dinheiro, meus únicos R$10,00, agora no bolso da sua camisa.
Por que o fiz? Bem, pra ser sincero, naquele momento, num exercício de imaginação ao feitio de qualquer escritor, eu inverti os papéis e coloquei-me no seu lugar.
Em verdade, já o havia feito, ao menos em pensamento, dias atrás.
Deitado na cama, durante aquelas malditas noites solitárias de domingo, ouvindo as mais lindas músicas do mundo, no programa do pianista Benetti, vi-me em algum lugar desconhecido que não era Rio Claro, tentando trocar um exemplar de um dos meus livros, por um prato de comida.
Talvez esse dia demore a chegar. Talvez nunca chegue. Mas, se chegar, terei o consolo de saber que não estarei sendo o único dos homens dedicados ao ingrato trabalho de proporcionar sonho e reflexão na forma de palavras escritas às pessoas afeitas à leitura, essa adorável espécie em extinção, a se sujeitar ao ato indigno de clamar pela bondade alheia.
Agora, vou à padaria. Tenho R$10,00 no bolso. Dá pro misto-quente. Você me acompanha leitor?

* Publicado no Jornal Aquarius, edição No. 139, Novembro/2015, pág. 5.




quinta-feira, 23 de julho de 2015

AS COISAS DA VIDA DE MALCOM MORRIS

Malcom Morris vivia uma relação de amor e ódio com sua cidade. Adorava ler jornais todas as manhãs, e pautava seus sentimentos, seus pontos de vista, baseado naquilo que lia avidamente entre uma xícara de café e outra, enquanto tentava ajeitar a gravata e não esquecer o paletó na cadeira.
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Sua mãe acompanhava a rotina matinal do filho com ares de incredulidade e alguma simpatia, aquela que toda mãe tem por seu filho, sobretudo quando ele, aos 36 anos, ainda vive de certo modo sob suas asas.
Morris era bancário. Com orgulho e alguma vã esperança, a mãe de Morris afirmava que o antepassado mais ilustre do seu lindo filhinho era membro de uma das treze dinastias que detém o poder econômico do mundo. Aquele pessoal que vez por outra se reúne em alguma bela mansão ou castelo, na Europa, para decidir o modo de obterem mais lucro fazendo nada.
O finado pai de Morris, o Sr. digo Mr. Frank, era professor universitário, que viera ao Brasil, mais precisamente para Rio Claro, com a missão de instituir um novo curso na universidade estadual, e acabou ficando, contribuindo assim para perpetuar aquela crença inabalável de que Rio Claro é feito curva de rio. E é mesmo.
Enquanto caminhava a pé para o trabalho, ia pensando como responderia ao convite do gerente da agência bancária sobre ingressar na adorável e cobiçada Loja, umas das seis ou sete da cidade, o que, também de certa forma, comprovaria que, em Rio Claro, mesmo os ilustres irmãos, não se entendem como deveriam.
Mas antes dessa tola pretensão, precisaria se casar. Mas onde encontraria sua futura esposa? Talvez nos bailes vespertinos da Sociedade Veteranos, que costumava freqüentar aos domingos. Ou nas missas, também aos domingos, pela manhã, na igreja Matriz do João – o Batista, não vá confundir os santos, leitor! 
Mas, pensando bem, melhor continuar solteiro. Sim, porque Malcom, sujeito bem informado (coitadinho, ele acreditava mesmo nisso) havia lido em uma revista que, atualmente, tão certo quanto a morte, é a separação dos cônjuges, mais cedo ou mais tarde.
Aquela edição do jornal, o outro que comprara na banca do Pica-Pau, a caminho do trabalho, trazia a rotina da cidade que amava e odiava ao mesmo tempo: buracos nas ruas, pessoas reclamando do lixo na calçada, das propagandas em lugares inadequados, dos menores infratores aprontando mais uma das suas, a impopularidade da dona Dilma, a reforma interminável do museu, enfim, aquela era a sua cidade. Coisa linda!
Entrou sorrindo para trabalhar naquela manhã. Afinal, por algumas horas, a cidade ficaria do lado de fora da sua vida. Mas, as pessoas não. E as pessoas também eram a cidade. Malcom sentia-se emparedado. Mas de repente lembrou-se que, logo mais à noite poderia escapar a ela. Tinha bons livros para ler que retirara gratuitamente no centenário Gabinete de Leitura, filmes para assistir na internet, naquele site do Moacir, o Memocine, e, com um pouco de sorte, poderia convidar a Claudinha para um passeio a dois, noutra cidade, e no carro dela, é claro, uma vez que Morris, sujeito consciente, não dirigia veículos que poluem o meio ambiente.
Ah, os artigos do Prof. Olavo no site Mídia Sem Máscara, e o café da mamãe, gostoso e quentinho. Sim, isso também não lhe faltaria. Mamãe, apesar do Alzheimer, ainda fazia café muito bem.
Então, feliz e satisfeito, na medida do seu esforço e merecimento, pensou: Paciência, Malcom! O melhor da festa é esperar por ela. Olhou no enorme calendário pendurado na parede, ao lado do seu guichê de atendimento, e antes de chamar o próximo cliente, lembrou-se que a semana estava apenas começando. Rotina. Que delícia!

*Publicado no Jornal Diário do Rio Claro, edição de 30/7/2015, à pág.12.
*Publicado no Jornal Aquarius, edição No. 136, de Agosto/2015, à pág.4.


quarta-feira, 22 de julho de 2015

PAPAI VITALINO

O Sr. Vitalino tinha o hábito de ler os jornais todas as manhãs. Esperava ansiosamente pela chegada do mesmo, o que se dava geralmente às 5 e meia e 6 horas, um pouco depois dele retornar para cama, após ter ido pela segunda ou terceira vez ao banheiro durante a noite para urinar, em razão da sua próstata “fundida” (não vá confundir com outra palavra leitor). Tivesse adotado as medidas preventivas como o seu médico do Círculo Operário por diversas lhe recomendara, ao invés de duas ou três, iria apenas uma, ao banheiro, durante a noite, como era hábito nos seus tempos de mocidade. Mas o Sr. Vitalino era um sujeito turrão, teimoso, daqueles que não se deixa convencer por opiniões alheias. A menos que não as encontre nos jornais, aquele enrolado bonitinho que o menino da bicicleta durante anos e o cara da moto, atualmente, atiravam no corredor da casa dos fundos, onde morava, havia já vários anos, desde que tivera de vender tudo que tinha, ou seja, sua modesta casinha financiada, para que o finado Dr. Vladmir mexesse os pauzinhos e evitasse que seu filho, aquele moleque peralta, inconseqüente, mofasse na cadeia. Tudo por causa da ausência da mãe, acreditava o Sr. Vitalino, que os abandonara pra viver com um sujeito vagabundo, ignorante, caoio, manco, mas que devia satisfazê-la, sabe-se lá por qual milagre da natureza, muito mais que o Sr. Vitalino.
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Certa manhã, fora buscar pães e leite na Mercearia da Ana, que um dia fora do Sidney (o inveterado jogador da Mega Sena), quando fora rendido por dois moleques, enquanto montava em sua bicicleta, estacionada na calçada. Encostaram-lhe um cano na cabeça, tomaram-lhe a bicicleta e fugiram. Nem o próprio Sr. Vitalino nem ninguém esboçaram reação. Nunca mais vira sua bicicleta, certamente trocada, minutos depois, em alguma boca de fumo nas beiradas de São João (O Batista) do Rio Claro.
A partir daquele dia, as coisas mudaram na vida do Sr. Vitalino. Diante da experiência nada agradável da morte iminente, resolveu rever os seus conceitos. As críticas ao governo, à igreja, às autoridades, aos artistas e aos jogadores de futebol, aos vizinhos, aos coletores de lixo e de reciclagem que na pressa da lida diária sempre derrubavam algum excesso no meio do caminho, desapareceram de sua boca. O Sr. Vitalino percebeu que as pessoas erram, feito aqueles moleques que lhe apontaram uma arma contra a cabeça, por razões várias, dentre elas, a ignorância, o inconformismo, mas, sobretudo, pela falta de esperança, de perspectiva.
Não consertaria o mundo, mas, faria a sua parte, estava decidido. Compreendeu que o mal deve sim ser observado, mas para fins educativos, para fortalecer a certeza de que não é o melhor caminho a ser seguido, porque de modo algum o mal construirá a felicidade possível, permitirá a paz interior, sem a qual, nenhuma vitória por mais admirável que seja, se justifica.
Diante de cenas de maldade que presenciava, seja ao vivo e a cores, na tevê ou nas páginas de jornais e revistas, ao invés de lançar sua ira, palavras ofensivas, passara a orar a Deus por aquelas pessoas. Todas elas, as que haviam praticado e as que haviam sofrido  a maldade.
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Passara a se interessar por leituras edificantes, afinal, haviam tantas disponíveis, e gratuitamente. Descobriu que a cidade tinha várias bibliotecas públicas, onde podia ter acesso a livros de autores realmente interessados no progresso da humanidade. Então passou a freqüentar uma delas semanalmente. Fizera amizades com as sempre educadas e atenciosas atendentes, e com pessoas, também leitores, que até então desconhecia.
Mas percebeu que algo ainda lhe faltava. Algo mais contundente, que poderia ser a sua definitiva contribuição para essa gigantesca obra de redenção espiritual da humanidade, em curso, ainda que poucos a percebam, porque envolvidos absoluta e completamente apenas com os valores materiais do mundo.
Trabalhava duro pela manhã e à tarde, como pintor de edificações, lotado na Secretaria da Educação da Prefeitura local. E ganhava para o seu sustento. Percebeu que ganharia muito mais se deixasse de freqüentar os bares da cidade, após o expediente. Haveria mais dinheiro no seu bolso, e mais carinho e atenção da parte dos filhos já casados e resolvidos na vida,  mas que por causa de sua mudança de hábitos, ao invés de visitá-lo a cada 15 dias, passaram a visitá-lo todo final de semana.
Na sua rotina de trabalho, percebeu o Sr. Vitalino que as crianças da escola, na idade de 7 a 14 anos ainda dedicavam algum tempo para a prática do futebol, em detrimento do celular e da internet. Então, resolveu que poderia fazer feito o seu pai e formar um timinho da escola, uma vez que esta não tinha em seu quadro de funcionários, a indispensável figura do professor de Educação Física.
Com o dinheiro que economizara dos goles deixados de tomar nos bares da cidade, comprou um jogo de camisa de segundo mão, de um parceiro seu de bilhar, também frequentador do Bar do Tobias. Ao seu vizinho, pediu que pudesse limpar o terreno na esquina da rua onde moravam, de propriedade dele, para que as crianças ali pudessem brincar de futebol. Foi conversando com um menino, com outro, e mais outro, durante o recreio da escola. Combinaram de se reunir aos sábados à tarde e aos domingos pela manhã, e à tarde também, porque não? Conseguiram com o Tobias do bar, os caibros pra fazer as traves de madeira, o apito do juiz do jogo (o próprio Sr. Vitalino) fora a dona Florinda, a costureira da rua, quem dera. E logo o Tobias estava fornecendo a água mineral em copinhos, o Pinóquio estava todos os meses cortando o cabelo da molecada, de graça, desde que os pais  acompanhassem os filhos, integrantes do timinho de futebol da rua. Mas usasse essa expressão “timinho” pra molecada do Seu Vitalino...!
Faltava um nome para o time. E certa tarde, antes do prélio com o time do outro bairro ali perto, em votação, escolherão finalmente o nome do time: Vitalino F.C. A primeira participação no campeonato municipal dente de leite, dera-se um ano depois. O primeiro título, após dois anos.
Vitalino, já beirando os 60 anos de idade, havia se aposentado, mas não deixara de trabalhar. Percebeu que a molecada estava crescendo, e que precisava algo mais que o futebol. Conversara então com o padre e o pastor das igrejas do bairro, e conseguiu algo inédito, que ambos cedessem espaço em suas respectivas igrejas, para que fosse instalada uma sala de instrução, em cada uma delas, onde, voluntariamente, profissionais viriam ensinar alguma profissão à criançada. Mas onde conseguir esses profissionais dispostos a abraçar a causa?
Foi então que o Sr. Vitalino, já na condição de pai de todas aquelas crianças, descobriu o outro lado dos jornais, além daquele dedicado às desgraças do mundo.  O lado bom, que destaca as ações positivas de vários setores da sociedade, e que assim, influencia o leitor, o cidadão, a rever seus conceitos, a acreditar que, ao contrário do que possa parecer, sim, o bem prevalece, e é maioria entre os seres humanos. Matéria de página inteira veiculada na edição de domingo, contando a história do Vitalino F.C e suas ações sociais, fez com que, já na segunda-feira, vários profissionais voluntários fizessem contato via celular com o Sr. Vitalino. Seis meses, um ano, dois, três anos depois, as crianças, agora jovens iniciando a vida, da maneira correta, ou seja, instruídos, formados em alguma profissão, conscientes de suas responsabilidades e formando famílias, cruzavam com o Sr. Vitalino, e o agradeciam, o abraçavam e o beijavam, expressando com atitudes e gestos de carinho, seu reconhecimento e gratidão.

Nas tardes de domingo, Sr. Vitalino já na casa dos 70 anos de idade, sentava em sua confortável cadeira, no corredor de sua casinha de fundos, e pensava enquanto ouvia o futebol no radinho de pilha, que as vitórias da vida são possíveis, quando todos unem esforços para alcançar objetivos que seja de interesse de todos. Pensava que a sociedade bem podia aceitar as diferenças, como forma de enriquecimento espiritual e não disputa tão pouco segregação. E já não pensava, tinha certeza, que, de fato, a dificuldade é um convite ao crescimento humano, de que a única forma de acabar com o mal é retribuí-lo com o bem. Ouvira sobre isso pela primeira vez, quando conversara com a professora de Letras, a Sra. Rita, pessoa meiga, boníssima, discreta e bastante culta, a primeira a se apresentar como voluntária, naquela segunda-feira que mudaria vez por todas a vida do Sr. Vitalino.  Tivera receio em princípio quando ela lhe dissera que era espírita, mas conversando com Rita e observando- a trabalhar com as crianças, logo percebera o equívoco de sua avaliação inicial. Hoje, a Sra. Rita, para a criançada, os jovens e adultos do bairro atende pelo nome de Dona Vitalina. E ele, já desde muito tempo, como Papai Vitalino.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

TINTO SUAVE

E novamente me vejo só
Novamente tocou o telefone
E diminuí os passos
Entre a distância que dele me separa
Para não atendê-lo
Tocou duas vezes, uma,
Alguma outra que não me recordo
Novamente já deitou a tarde
Que demorou a passar
Como todas as outras
Se tocaram os sinos, da Santa Cruz
Não sei, não ouvi, esqueci, já faz precisamente
Dois minutos
Certamente tocaram,
Os sinos beneditinos, novamente
Cai a noite, e a vida, envolta, vai ficando
Na penumbra que logo chega
Um cigarro esquecido na gaveta
Evitado a todo custo
Um trago em demasia, dois ou três
Que estrago pode fazer
Se o estrago está feito
E não por causa do cigarro
Deixado, ao caso, dia desses, pelo Carlos
Alberto, os céus da Gália pedem-me a leitura
Mas eu prefiro o outro lado da cruz
Da cruz, não da lua
Já tem muita gente por lá, na lua
Desocupados e afins,
Querubins. Duvida?
Lampedusa me oferece o leopardo
Talvez, esta noite ainda, depois das três
O céu e o inferno
Ação e reação
Morte, Leon, nada mais e tudo faz sentido
Vou em segurança mediúnica
Escrevendo, concluindo, lento e sem demora, assim...
Do mestre perfeito, algo sei, e seus mistérios
Enfim, é o fim
Duplo: etérico
Onde está o meu?
Escondido estará em um vaso de porcelana?
Tudo isto não é nada, são apenas obras: póstumas.
Que desfazem a solidão em que me encontro
É noite, e por algum motivo, a rolha escapa

Da garrafa de vinho, tinto suave.