sexta-feira, 3 de julho de 2015

TINTO SUAVE

E novamente me vejo só
Novamente tocou o telefone
E diminuí os passos
Entre a distância que dele me separa
Para não atendê-lo
Tocou duas vezes, uma,
Alguma outra que não me recordo
Novamente já deitou a tarde
Que demorou a passar
Como todas as outras
Se tocaram os sinos, da Santa Cruz
Não sei, não ouvi, esqueci, já faz precisamente
Dois minutos
Certamente tocaram,
Os sinos beneditinos, novamente
Cai a noite, e a vida, envolta, vai ficando
Na penumbra que logo chega
Um cigarro esquecido na gaveta
Evitado a todo custo
Um trago em demasia, dois ou três
Que estrago pode fazer
Se o estrago está feito
E não por causa do cigarro
Deixado, ao caso, dia desses, pelo Carlos
Alberto, os céus da Gália pedem-me a leitura
Mas eu prefiro o outro lado da cruz
Da cruz, não da lua
Já tem muita gente por lá, na lua
Desocupados e afins,
Querubins. Duvida?
Lampedusa me oferece o leopardo
Talvez, esta noite ainda, depois das três
O céu e o inferno
Ação e reação
Morte, Leon, nada mais e tudo faz sentido
Vou em segurança mediúnica
Escrevendo, concluindo, lento e sem demora, assim...
Do mestre perfeito, algo sei, e seus mistérios
Enfim, é o fim
Duplo: etérico
Onde está o meu?
Escondido estará em um vaso de porcelana?
Tudo isto não é nada, são apenas obras: póstumas.
Que desfazem a solidão em que me encontro
É noite, e por algum motivo, a rolha escapa

Da garrafa de vinho, tinto suave.

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