domingo, 2 de agosto de 2015

A PRIMEIRA VEZ QUE FUI AO CIRCO

É daquelas coisas que a gente jamais esquece. A primeira vez que fui ao circo. Tinha acredito eu uns 4 ou 5 anos de idade. Havíamos nos mudado não fazia muito tempo para aquela casa no bairro São Judas Tadeu. Era uma tarde de domingo, eu acho, então dona Alzira, minha mãe me botou pra tomar banho e quando vi que sobre a cama ela colocava uma roupa minha, nova, bonita, fiquei feliz, porque entendi que iríamos passear. Não seria para fazer compras, no centro da cidade, o comércio estava fechado. Nem farmácia abria aos domingos, em Rio Claro, naqueles dias. Onde iríamos, então? Casa da tia Landa? Ou da tia Dinha?, as suas irmãs. Nada disso, iríamos ao circo. Circo? É, explicou dona Alzira, aquele lugar grande bonito, cheio de bichos, que tem mágico, palhaços, pipoca, refrigerante e algodão doce. Até a parte do refrigerante o assunto me interessou. Nunca gostei de algodão doce, aquela coisa grudenta. Embora achasse interessante vê-lo ser feito. E o cheirinho de açúcar queimado também não era dos piores.
Foto reprodução
Então fomos para o circo, de carro. Papai, o Seu Geraldo, nos levou, naquele seu Fuscão 73, branco, envocado, vidro fumê, cambio baixo, voltante Panter, rodas de tala larga. Aquele que, segundo diz a lenda, o meu irmão, pegava às escondidas para dar umas voltinhas no entorno do Batista Leme, obrigando a diretora da escola, a dona Zuza, mandar recado para o meu pai, mais ou menos assim: “Seu Geraldo, venha dar um jeito no seu filho”.
A vantagem de você ser oito e 11 anos mais novo que seus irmãos, é que observando-os você aprende as coisas e conhece algo do mundo mais cedo. O que fará com isso ao longo de sua vida, bem, dependerá das escolhas que você fizer.
Mas, voltando ao circo, a melhor parte da história. Tínhamos companhia naquele passeio. Agradáveis companhias, a tia Dinha e os primos Decio e Maria Tereza.
Puxa, nos divertimos! Fomos nas cadeiras, bem perto do picadeiro. De modo que tudo víamos com outros olhos. Eu, principalmente. Tudo mesmo. Acho que do espétáculo não vi quase nada, e se vi, não me lembro. Mas lembro sim que estávamos todos lá. As coisas em volta sempre me chamaram mais atenção que os fatos em si. De modo que naquela tarde prazerosa de domingo, meus olhos se perdiam a observar  o público, a lona do circo, as luzes, a cerragem sob nossos pés, os vendedores de tudo que é tipo de buginga, que eu me lembro, e alguma, não sei exatamente qual, veio parar em minhas mãos. Acho que um balãozinho.  Mas não tenho certeza.
Quando chegamos, e vi aquela coisa enorme, diferente de tudo o que eu já tinha visto até então, instalado no terreno, onde, viria eu saber depois, fora o estádio do Aguinha, rival do Velo, (ah, esse sim, o Velo!), fiquei extasiado. O que seria aquilo? Um castelo? Não, era o circo Orlando Orfei, nada mais que sinônimo de circo no Brasil.
O Seu Orlando apresentava o espetáculo, vim a saber depois. Feito Ray Coniff, era uma espécie de amigo querido dos brasileiros, apreciadores de um bom espetáculo. Era famoso no mundo todo. Bom sujeito. Tais informações, eu as obtive de meu pai, na noite daquele domingo, quando sentado em seu colo, contei-lhe como havia sido o passeio, enquanto esperávamos pela zebrinha trazendo os resultados da Loteria Esportiva, e os gols do Fantástico, com narração de Léo Batista.  Bem, essa foi uma das poucas vezes que o Pipo ensinou-me sobre alguma coisa sem fazer com que eu fosse até o dicionário. Nem poderia, eu só tinha 4, 5 anos de idade, não me lembro ao certo, e sequer era alfabetizado, embora, já rabiscasse sim umas letras, nos velhos cadernos de escola de meus irmãos, nos cadernos de colorir que minha mãe fazia questão de comprar. Sim, na minha modéstia, eu escrevia, eu acreditava nisso, era o que eu sentia, ao preencher as páginas daqueles esquecidos cadernos, muitas vezes, sentindo-me o dr. Carossi, quando ele preenchia suas receitas médicas, nas minhas inúmeras visitas ao seu consultório. A gente quando criança é tudo meio besta mesmo, a gente acredita em tudo, e acredita que pode ser tudo. E eu acreditava que poderia ser médico. Domador de leões feito o Orlando Orfei, jamais.
Foto reprodução

Nos dias em que o mundo lamenta a estupidez de um dentista norte-americano que matara por nada, um leão no Zimbabuê, também se despede daquele que durante anos proporcionou encantamento à crianças e adultos com o seu circo. E há quem encontre motivo para reclamar nas páginas dos jornais de quem leva alegria às pessoas, às crianças principalmente. Mas aí já estamos falando de Rio Claro. Tudo bem, antes do circo Moscou, o Orlando Orfei passou por aqui. Quem se lembra? Eu me lembro. Numa tarde de domingo. Inesquecível. Os espetáculos artísticos, quando apreciáveis, promovem essas lembranças imorredouras em nossas vidas.

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