quarta-feira, 30 de setembro de 2015

SID SONHAVA

Sid Wallace era daqueles que preferia um belo pingado e um pão com manteiga, na chapa. Hábito adquirido na infância, quando o pai, o acordava nas manhãs de domingo para acompanhar as corridas de fórmula 1, na época em que o Copersucar do Fittipaldi colecionava fracassos.  Sid sonhava com o dia, ou melhor, a manhã, em que ouviria o narrador Luciano do Valle soltar para o nosso Don Quixote das pistas o seu indefectível: “Sensacional! Esplêndido, esplêndido!” da mesma forma como fazia a cada defesa miraculosa do goleiro Emerson Leão, ao defender as cores da Sociedade Esportiva Palmeiras ou do selecionado brasileiro.

Voltemos ao café da manhã de Sid Wallace. Demorou a que sua esposa, a eficiente e dedicada jornalista Vivian Velvet se acostumasse com as manias do maridinho. Entre a vida de namoro e a de casado há uma Visconde do Rio Claro que as separa. Mas qualquer diferença era resolvida à noite, na penumbra do quarto, (Sid às vezes esquecia-se de pagar a conta de luz) sobre o inigualável colchão King Star, com molas ensacadas, de modo que quando um se mexe o outro não sente. Mas onde será que o redator publicitário tirou essa pérola: quando um se mexe o outro não sente. Colchão pra dormir, só pode ser! Logo não haverá mais herdeiros nos domínios do rei.
Outro conflito existencial de Sid, era a sua relação nada amistosa com os fios. Sim, os fios de eletricidade. Desconfiava que tal antipatia era dos tempos em que, menino ainda, sequer alfabetizado, submetia-se periodicamente a sessões de eletro choque, e exames eletro encefalograma, na cidade vizinha, para tratar-se de um foco irritativo no lobo frontal esquerdo, diagnosticado a partir das convulsões cerebrais que sofrera e que o faziam debater-se e virar os olhos, espumar pela boca, uma performance da qual ele não se lembrava, mas não podia, jamais pudera esquecer dos fios, grudados na sua cabeça, a partir de uma substância gelada e pegajosa; ele deitado na maca, ao lado da parede, naquela saleta escura, sem vida, a voz doce e meiga da enfermeira, pacienciosa e bonita, a atender e cuidar dele, prometendo-lhe que não sentiria dor, tomando a sua mãozinha trêmula, não por causa do medo, mas, da expectativa quanto ao que pudesse acontecer.
Os fios, aquele emaranhado de fios, do seu quarto/escritório, o seu refúgio, onde, agora, adulto, dedicava-se a trabalhos free-lance, a corrigir as provas dos seus alunos, e entregar-se às suas leituras e ouvir as suas músicas, na aconchegante cadeira do papai que herdara do finado Sidão.
Os fios que saiam do computador, do carregador do celular, dos aparelhos de som e de dvd, do televisor, do toca-discos. Sim era um sujeito antenado às novidades da tecnologia, mas com um pé no passado para onde objetos de qualquer natureza dos tempos idos o transportavam.
Todo final de ano, além do exame de consciência ao qual se submetia desde que se deparara com uma instrução de Santo Agostinho em O Livro dos Espíritos, o seu livro de cabeceira, tinha também que convencer Vivian, sua esposa, a não livrar o seu quarto/escritório do peso daquelas inúmeras reminiscências inúteis, em forma de objetos, suvenirs, papéis e aparelhos eletrônicos, alguns esquecidos em algum canto da prateleira, embaixo da cama, na gaveta da estante, em algum lugar, geralmente ocultando a existência de outros mais aproveitáveis.
Fios, os emaranhados da vida sentimental. Fios que prendem e libertam. Às vezes tinha vontade de interromper a conexão daqueles muitos fios com sua vida. Ficara pensando muito nisso, depois que recebera a visita técnica do seu provedor de internet, e experimentara uma gostosa sensação de liberdade, quando ouvira do rapaz, banca de boy, moreno fortinho, cabelo raspadinho dos lados e espetado no alto da cabeça e óculos escuros: “Precisa trocar o rádio da torre de conexão: ele recebe, mas não transmite mensagens, embora a velocidade esteja boa. Precisa trocar, tio”. E dissera tudo isso sem olhar uma única vez para Sid, comportamento habitual das pessoas jovens: comunicar-se sem o fio do olhar.
Queria dizer em outras palavras que Sid poderia manter-se no mundo real sem nenhum sentimento de culpa. Aquele mundo que não possui fios, que não sejam os que ligam o ser humano aos sentimentos, às emoções repentinas a partir das quais se realizavam todos os dramas da vida.
Deliciou-se com a ideia. E quisera comunicá-la imediatamente à Vivian o seu achado, mas, antes que pusesse a mão na maçaneta da porta, desistiu de fazê-lo.
Com tristeza percebeu que os fios sentimentais que o ligavam a esposa, deviam estar danificados, porque, naqueles últimos tempos, a conexão entre eles, não estava lá muito eficiente.
As preocupações do dia a dia, a necessidade de se manter ativo e indispensável no ambiente de trabalho de cada um, somadas às frustrações bem maiores que as satisfações, ocupavam a atenção de ambos.
De algum modo, os fios terra que os ligavam ao êxito profissional, lhes pareciam indispensáveis à felicidade que juntos acreditavam ter construído.
Cortá-los poderia significar o fim daquela felicidade. Como poderiam manter o mesmo padrão de vida tão prazeroso e reconfortante, se trocassem a certeza pela expectativa.
Mas a realidade da vida humana, Sid, enfim percebera era semelhante àquela encontrada na natureza, é feita de estações, ciclos, que começam e terminam, e recomeçam.
Lembrou-se que diante de um fio danificado há duas opções: tenta-se remendá-lo, ou corta-se o fio e compra-se outro.

Sid não estava mesmo disposto a remendar aquele fio que o ligava a Vivian e menos ainda ao que o ligava a sua vida profissional. Sid estava decidido também a não comprar outro fio. Queria aprender finalmente a viver sem eles.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

LEON E A DAMA LIBERTADORA SE ENCONTRAM

Difícil algumas vezes falar dos amigos, das pessoas que estimamos, ainda mais depois que eles partem. Quando este amigo é um artista, a tarefa se torna ainda mais difícil, afinal, os artistas são amados e odiados, reverenciados e desprezados, geralmente, com a mesma intensidade. Com este amigo não era diferente.

Fácil mesmo era encontrá-lo no Jardim Público. Ou estava na barraca do Daniel, seu filho artesão, sempre disposto a uma conversa, ou a filmar, o ambiente paradisíaco e infernal, os personagens angélicos ou demoníacos, residentes do local. Ou a perder-se entre tantos transeuntes que, anonimamente, sem chamar atenção, por ali passam, desde as primeiras até as últimas horas do dia.
Leon e sua câmera, geralmente inutilizável; também o seu paletó preto, surrado, amassado; o seu cabelo, na maioria das vezes, à lá Jabor, grande, cheios, ao vento. Leon e seus projetos, para teatro e cinema. Uma usina de projetos. Samadhi, Tá na Praça, Crônicas de uma Cidade Azul, Nóia... Leon e todos os seus sonhos, todos os seus medos. Leon e sua crença inabalável no ser humano e em uma sociedade justa e igualitária. Leon e a sua vontade, quase nunca satisfeita, de entender a vida e os seus mistérios. O seu amor à vida, para qual dera tudo, o melhor e o pior de si.
A vida, por vezes, é mesmo dura e injusta para alguns. Isto é um fato. Retratado a cada instante, em cada pedaço de chão onde pise um ser humano, apesar dos arranjos e acomodações filosóficas e religiosas, quando não científicas, que pretendem desmentir ou atenuar essa realidade.
Leon ia além de tudo isso. Era um artista, de corpo e alma, coração e mente. Por falta de recursos e oportunidades, não conseguira como tantos outros, expressar toda a arte que havia dentro de si. Mas que havia, sim, havia. Muita arte. Que, em suas peças teatrais e filmes, ganhava vida, na forma de vontade exacerbada e revolta, retratada com fidelidade assombrosa, e por vezes ofensiva ao público menos esclarecido, fossem no seu gestual, na sua impostação de voz, enquanto personagem de si mesmo no palco do Centro Cultural ou nos pátios dos colégios onde se apresentava, gratuitamente, sempre com a esperança de despertar a bondade no coração de alguma criança. A bondade que Leon acreditava existir em todas as pessoas, ainda que adormecida.

Leon Denis P. Chaves, ou simplesmente Leon Dharma, queria falar aos insanos, aos esquecidos, e falou mesmo, à sua maneira, com suas peças teatrais e seus filmes, pouco vistos e não compreendidos senão por aqueles que o conheciam e o admiravam por sua incansável obstinação e crença no ser humano e na arte. Seu nome sai dos cartazes para eternizar-se numa lápide, em local incerto. O Batistinha, talvez.
Em nossas últimas conversas, sempre prazerosas, disse-me de sua vontade em rever sua terra natal e sua família; disse-me sentir que a dama libertadora se aproximava, pediu-me um texto que pretendia filmar na forma de documentário. Então escrevi “Jardim das Almas”, publicado no meu Blog Passa a Régua, no site Autores, no mensário Aquarius e no Jornal Diário. Escrevi Jardim das Almas, assim como já havia escrito tantos outros textos a pedido dele: peças de teatro, crônicas, roteiros, que fiz chegar às suas mãos, mesmo sabendo que muito dificilmente seriam realizados. Não foram.
Talvez os façamos breve, no outro plano da vida, o verdadeiro, aquele que suporta os audaciosos, os sonhadores e os transgressores, porque tudo compreende, porque sabe que prazer ou dor, medo ou coragem, fé ou ausência dela, são nada mais que formas de expressar a própria vida imorredoura.

O artista é aquele que se consome nas teias inescapáveis dos seus sonhos. Seja feliz, Leon, agora sob a luz! Licença poética: Nos vemos mais adiante.

*Publicado na edição de 01/10/2015, à pág. 12, no Jornal Diário do Rio Claro.